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Em
foco: Gustavo Franco
Rendas de privilégio,
doença nacional
"O
grande problema das políticas públicas
não é definir quem é 'estratégico' e
merece
apoio, mas
afastar quem não é"
É
sabido que o idioma dos esquimós dispõe de dezenas
de palavras para se referir à "neve" e, pelas mesmas óbvias
razões, o vocabulário dos geólogos é
muito rico para coisas que designamos como "pedra", assim como o
dos botânicos é abundante para o que chamamos de "planta".
O interessante é que esses especialistas raramente usam essas
palavras mais genéricas; um médico dificilmente diz
que alguém está "passando mal"; o relato é
sempre mais informativo e elaborado.
Ilustração Ale Setti
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Essa talvez seja a única explicação para a
surpreendente inexistência de tradução para
a palavra rent, que, em inglês, tem um significado aparentemente
inofensivo: renda ou aluguel devidos pelo uso de uma propriedade
inclusive intangível.
Os
economistas conhecidos como "clássicos", entre eles David
Ricardo, desenvolveram, todavia, uma acepção bem mais
interessante para o vocábulo e que parece se adaptar muito
bem a certo tipo de fenômeno típico mas não
exclusivo do Brasil. Para eles, rents são rendas ditas "excepcionais",
ou mesmo "artificiais", decorrentes de uma situação
criada, por exemplo, por um monopólio, tarifa, proibição,
exclusividade, concessão ou privilégio. Em essência,
é uma renda "em excesso" do que seria o normal, amiúde
criada pela ação do Estado. Sendo assim, talvez a
melhor tradução seja mesmo "rendas decorrentes de
privilégio".
Não
é sempre verdadeiro que esse tipo de renda seja "indevido"
ou "indecoroso". Veja o leitor os casos clássicos de uma
patente concedida ao inventor ou da tarifa protecionista concedida
a uma "indústria nascente". Essas são situações
em que alguém se beneficia direta e merecidamente, ao menos
em tese, de uma intervenção do Estado na economia.
Quando o objetivo é meritório e o benefício
temporário, a teoria econômica tende a aprovar o privilégio,
pois os ganhos, em tese, extravasam os auferidos pelos diretamente
beneficiados.
Porém,
nem sempre se tem clareza sobre o "meritório", e menos ainda
sobre o "temporário". Privilégios, no Brasil, tendem
a se eternizar como direitos adquiridos, e "meritório" não
chega a ser propriamente um critério excludente. Na verdade,
o grande problema das políticas públicas não
é definir quem é "estratégico" e merece apoio,
mas afastar quem não é.
O
fato é que quanto maior a regulação, ou a intervenção
do Estado na economia, maiores as "rendas de privilégio"
que são criadas e deslocadas de um lado para o outro. Ou
seja, quanto mais o governo interferir na vida econômica,
mais prevalecente será uma lógica política
e clientelista na alocação de recursos e do talento
nacional, em detrimento de uma lógica de negócio,
ou de mercado. Dito de outra forma, onde existe insegurança
sobre a propriedade (ou onde ela tem "função social")
ou sobre o valor de um negócio ou de um ativo, que pode ser
multiplicado ou dividido por um Ato do Príncipe, mais recursos
e talentos serão destinados a criar (ou extinguir) e defender
(ou atacar) "rendas de privilégio" do que a criar empresas
e empregos.
Existem
muitos estudos sobre o impacto econômico (no plano da ética,
não há muito que discutir) de "atividades que visam
produzir rendas decorrentes de privilégio", entre as quais
a corrupção e o clientelismo, e as conclusões
principais nada têm de misteriosas: o crescimento econômico
e o empreendedorismo são diminuídos quanto mais energia
um país dedica a criar e defender privilégios, mesmo
quando esses não decorrem de corrupção.
O
leitor deve ter em mente, por exemplo, que a Constituição
de 1988 rebaixou nossas possibilidades de crescimento ao multiplicar
privilégios. Deve pensar também no dinheiro que se
gasta com corrupção, lobby, advogados (na defesa de
achaques ou para dialogar com burocratas), passagens para Brasília,
despachantes, facilitadores e dificultadores como uma espécie
de "segundo nível" de carga tributária, que não
é pago ao governo, mas tem a ver com coisas públicas.
É difícil dizer quanto o Brasil gasta nessas rubricas,
mas deve ser muito, pois é do tamanho da desigualdade e da
informalidade.
Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco
Central (gfranco@palavra.com
www.gfranco.com.br)
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