O escritor argentino Jorge Luis Borges certa vez observou
que, para os leitores não versados em grego (como ele
próprio), Homero não é apenas o autor
da Ilíada e da Odisséia – é
uma biblioteca inteira, uma coleção imensa e
sempre renovada de traduções. Para o leitor
brasileiro, no entanto, a tal biblioteca está longe
de ser grande. Uma nova tradução da Odisséia
está sendo lançada em três partes,
com assinatura de Donaldo Schüler, professor aposentado
de língua e literatura grega da Universidade Federal
do Rio Grande do Sul. O primeiro volume, Telemaquia (L±
160 páginas; 9,50 reais), já está nas
livrarias, e os próximos dois devem sair até
o mês que vem. Eles vêm se juntar a apenas duas
traduções de monta no Brasil: a de Odorico Mendes,
do século XIX (que o leitor só encontra em sebos,
pois está fora de catálogo), e a de Carlos Alberto
Nunes. Mas não é somente em relação
aos poemas homéricos que a oferta de clássicos
greco-latinos é limitada. Novas versões têm
aparecido, mas as lacunas ainda são gritantes (mesmo
contando eventualmente com edições portuguesas,
mais caras e difíceis de encontrar).
Em francês
e inglês, a oferta cobre praticamente todos os autores
fundamentais. Na livraria da internet Amazon, por exemplo,
encontra-se pelo menos meia dúzia de traduções
em inglês de Píndaro, completo ausente das livrarias
brasileiras (muitas das quais, aliás, nem sequer dedicam
uma prateleira específica à literatura grega
ou latina). Há também boas antologias panorâmicas,
como a The Norton Book of Classical Literature, editada
pelo helenista de Harvard Bernard Knox, que cobre de Homero
a Santo Agostinho. Mais importante, existe, na língua
inglesa, uma tradição bem estabelecida de renovar
freqüentemente as traduções. Homero tem
pelo menos duas versões clássicas no inglês,
dos poetas George Chapman (século XVII) e Alexander
Pope (século XVIII) – mas os tradutores continuaram
se debruçando sobre os versos de Homero, produzindo
virtualmente um texto novo a cada geração (as
recentes traduções de Robert Fagles foram muito
bem recebidas pelos especialistas). As traduções
novas cumprem uma função fundamental: aproximar
os clássicos das concepções literárias
de cada época. "Cada tradução responde
a um protocolo de poesia de seu próprio tempo", diz
João Angelo Oliva Neto, professor de latim da USP –
que no ano passado lançou Falo no Jardim (Ateliê),
uma curiosa coletânea de poemas gregos e latinos dedicados
a Priapo, o deus fálico que protegia a fecundidade.
A variedade de
traduções responde ainda às demandas
de diferentes tipos de leitor – do adolescente que começa
a se interessar por livros ao especialista acadêmico.
Com Homero, pelo menos, os brasileiros têm um cardápio
de opções relativamente variado. A tradução
da Ilíada pelo poeta Haroldo de Campos, expoente
do concretismo, busca reinventar em português os ricos
jogos sonoros do original. Em um verso mais longo e narrativo,
a versão de Carlos Alberto Nunes, de meados do século
passado, é mais acessível para o neófito
que está se familiarizando com os heróis Agamenon,
Aquiles e Heitor. Em versos livres, a nova Odisséia
de Donaldo Schüler ficou em um indeciso meio caminho
entre a narrativa e a poesia. "Eu me pergunto por que ela
não foi apresentada em prosa, já que não
tem qualidade poética e é muito imprecisa em
relação ao original", avalia Christian Werner,
professor de grego da USP e tradutor de Hécuba e
Troianas (Martins Fontes), tragédias de Eurípides.
"Estamos longe do mercado de língua inglesa. Mas tem havido, nos últimos anos, maior empenho dos especialistas em oferecer ao público geral traduções de qualidade", diz Trajano Vieira, professor de grego da Unicamp e tradutor da tragédia Édipo Rei, de Sófocles. Novas traduções têm surgido sobretudo por obra de professores universitários. Ainda é pouco. Grande parte da literatura clássica se perdeu no tempo. Safo, uma das mais originais vozes líricas da Grécia, é conhecida quase que apenas por fragmentos e excertos, e, das mais de 100 peças escritas por Sófocles, só sete sobreviveram na íntegra. Por enquanto, o leitor brasileiro conhece só cacos dessas sobras.