Por
trinta anos, o empresário paulista Nelson Augusto Martos, de 45 anos, fumou
de dois a três maços de cigarro por dia. Na última década,
por diversas vezes, ele tentou abandonar o vício. Sem sucesso. Martos experimentou
de tudo de antidepressivos e adesivos de nicotina a vitamina C diluída
em água e simpatias. O máximo a que o empresário chegou foi
manter-se longe do cigarro por trinta dias. Agora, depois de tantos fracassos,
pela primeira vez, ele está confiante. Em sua mais recente investida contra
o tabagismo, ele não dá uma única tragada há três
meses. Martos é um dos primeiros brasileiros a se tratar com comprimidos
de vareniclina, vendidos nos Estados Unidos pela Pfizer como Chantix e na Europa
como Champix, o mesmo nome adotado no Brasil.
A vareniclina acaba de chegar ao Brasil. Essa nova arma contra o vício
químico atua nos mecanismos cerebrais da dependência, bloqueando
a sensação de prazer proporcionada, por exemplo, pela nicotina.
A idéia é tornar a absorção de nicotina tão
sem sentido quanto a fumaça de um cigarro de chuchu. Em uma possível
recaída, as baforadas vão ter efeito nulo sobre os centros de prazer
do paciente e a tendência é que ele consiga se manter longe do cigarro.
Divulgação
Imagem da campanha antifumo patrocinada
pelo governo inglês: "Não se deixe fisgar" é o slogan
A vareniclina é apenas
parte do arsenal contra o vício químico que já está
à disposição dos médicos. Muitos outros remédios
encontram-se em testes. Só nos Estados Unidos, estão em estudo duas
centenas de novas medicações contra os mais diversos vícios
químicos. Da nicotina ao álcool e drogas pesadas e até exageros
comportamentais compulsivos que, em sua essência, podem ser explicados pela
dependência neuronal a certas substâncias prazerosas lançadas
na corrente sanguínea pelo jogo compulsivo, pelas compras, pelo sexo e
pela comida.
Espera-se que,
nos próximos dois anos, passem a ser comercializadas duas vacinas
uma contra a dependência de nicotina e outra para deter o uso da cocaína.
Também está em fase avançada de testes clínicos um
remédio para o tratamento do vício em álcool e metanfetaminas,
classe de drogas cujo representante mais conhecido é o ecstasy. O medicamento
age sobre o neurotransmissor GABA, otimizando a sua ação no organismo.
Essa substância, produzida no cérebro, pode funcionar como um interruptor
nos processos de compulsão.
Em cinco ou dez anos, afirmam os especialistas, a medicina viverá uma revolução
no tratamento de todo e qualquer tipo de vício. A chave desse avanço
está na compreensão dos caminhos percorridos pela dopamina no cérebro.
A dopamina é o neurotransmissor da dependência. Ela é que
dispara a sensação de prazer seja a advinda da ingestão
de um prato saboroso, seja a causada pelo uso de um entorpecente. Ao inalar cocaína,
por exemplo, o usuário tem seu cérebro inundado de dopamina
daí a sensação de euforia que, em geral, a droga produz.
Até pouquíssimo tempo atrás, acreditava-se que o vício
era processado exclusivamente nas porções cerebrais associadas ao
sistema de prazer e recompensa, ativado em especial pela dopamina. A grande novidade
é a descoberta de que há outros circuitos envolvidos nesse mecanismo,
e de que a dopamina também os integra. "Graças ao aperfeiçoamento
dos exames de neuroimagem, constatamos que os efeitos neurobiológicos das
drogas ultrapassam os centros de prazer e recompensa do cérebro e se estendem
ao córtex pré-frontal, região associada à analise
dos riscos e benefícios, na qual se concentram as tomadas de decisão",
diz a psiquiatra Nora Volkow, diretora do Instituto Nacional de Abuso de Drogas,
dos Estados Unidos, e uma das principais autoridades mundiais no assunto. E o
que isso muda na compreensão do vício? Simples: é preciso
também alterar a química envolvida nos processos decisórios
e mnemônicos. Sem isso, apenas parte do mecanismo do vício é
combatida. Em outras palavras, é necessário "apagar" o impulso e
a memória que levam ao consumo da droga.
O poder das lembranças associadas às drogas é poderosíssimo.
Essa memória vem à tona sempre que um usuário vê um
objeto ou uma pessoa relacionados às suas experiências com o vício.
Um estudo publicado no ano passado na revista científica The Journal
of Neuroscience fornece a dimensão exata do que acontece no cérebro
dos dependentes nesses momentos. Pesquisadores americanos dividiram dezoito cocainômanos
em dois grupos. O primeiro assistiu a filmes com cenas de natureza. O segundo,
a imagens de outras pessoas usando cocaína. Por intermédio de tomografias
computadorizadas, os especialistas notaram que os participantes do segundo grupo
registraram um aumento na síntese de dopamina. A conseqüência:
uma enorme "fissura" por consumir a droga por parte desses participantes. Com
base em descobertas nesse sentido, as pesquisas passaram a dar menos ênfase
ao sistema de recompensa e mais aos processos de formação e consolidação
da memória do uso de substâncias psicoativas. Há um remédio
contra a cocaína em fase adiantada de estudos que atua nesse processo
cujos resultados até agora são bastante promissores. Ao agir sobre
os níveis de dopamina, ele corta a relação entre lembrança
e vontade de usar a droga.
Um enorme salto na busca pelo tratamento da dependência foi dado a partir
do momento em que o vício deixou de ser visto como uma doença da
alma uma fraqueza de caráter que impinge a suas vítimas comportamentos
autodestrutivos e começou a ser encarado como um distúrbio
cerebral. Ele decorre de um desequilíbrio químico e altera os circuitos
de recompensa e prazer, tomada de decisões, controle inibitório
e aprendizado. Trata-se, como se vê, de um problema bastante intricado.
Explica-se, assim, por que a luta contra o vício costuma ser marcada por
recaídas e fracassos. Alguém que decida parar de fumar, por exemplo,
faz, em média, oito tentativas até largar de vez o cigarro. Na lista
das substâncias que mais viciam, a nicotina está à frente
da maconha e do ecstasy (veja quadro abaixo). Essa
característica foi traduzida em imagens por uma campanha antitabaco deflagrada
pelo governo inglês, que apresenta jovens fumantes sendo fisgados pela boca
por anzóis. "Não se deixe fisgar", diz o slogan. Com quase 30 milhões
de dependentes no Brasil, o cigarro mata 200 000 pessoas por ano. É uma
morte a cada oito segundos no mundo. A vareniclina está longe de ser a
solução mágica contra o problema, mas representa um avanço
espetacular. Se associada à terapia cognitivo-comportamental, sua taxa
de sucesso chega a dobrar.
A combinação com terapias psicológicas é essencial
para ajudar o dependente a reprogramar o cérebro para a nova vida, longe
do vício. Veja-se o caso do grupo Alcoólicos Anônimos (AA).
Há mais de setenta anos, muito tempo antes de a ciência começar
a desvendar os mecanismos do vício, o AA já ajudava muita gente
a se livrar da bebida. Ainda assim, o índice de sucesso de terapias como
a do AA segue a média internacional de recuperação de alcoólatras
que, independentemente do método utilizado, tende a ficar em torno
de 20% ao fim de um ano. Com a ajuda de um remédio contra o alcoolismo
como o acamprosato, no entanto, esse índice pode chegar a 45%. "Tratar
a dependência sem a ajuda de remédio é como cuidar de um canal
dentário sem anestesia", diz a cardiologista Jaqueline Scholz Issa, diretora
do ambulatório de tabagismo do Instituto do Coração, de São
Paulo.
O vício é
fruto, em grande parte, de propensão genética. "Assim como há
pessoas mais predispostas a desenvolver depressão, hipertensão e
câncer, existem aquelas mais suscetíveis à dependência
química", diz o psiquiatra Danilo Baltieri, coordenador do Grupo Interdisciplinar
de Estudos de Álcool e Drogas (Grea), da Universidade de São Paulo.
Não fosse assim, todos que algum dia experimentaram algum tipo de droga
do álcool à heroína se tornariam dependentes.
É a genética, ainda, que estabelece o tipo de dependência
e a sua intensidade. Estima-se que os fatores genéticos respondam por algo
entre 40% e 60% da vulnerabilidade ao vício. Existe um gene específico
associado à síntese da enzima monoaminoxidase A, uma das substâncias
responsáveis pelo equilíbrio de dopamina no cérebro. Quando
há mutações nesse gene, a pessoa torna-se mais ou menos vulnerável
ao vício. A genética explica também por que existem pessoas
com baixos níveis de receptores de dopamina o que as faz mais suscetíveis
ao vício e a achar mais prazerosa a experiência com drogas.
Há dois grupos de pessoas
bastante vulneráveis ao vício os adolescentes e os portadores
de distúrbios psiquiátricos, como esquizofrenia, depressão
e ansiedade. Durante a adolescência, o cérebro sofre mudanças
dramáticas. Uma das áreas ainda em maturação é
o córtex pré-frontal, associado à tomada de decisões
e responsável pelo controle dos desejos e emoções. O fato
de essa região do cérebro ainda estar em desenvolvimento nos adolescentes
os coloca sob risco maior de optar por decisões erradas, como experimentar
drogas e continuar a abusar delas. Além disso, o uso de substâncias
químicas nesse momento de desenvolvimento tende a ter um impacto mais profundo
e duradouro no funcionamento cerebral. "Não queremos deixar os pais em
pânico, mas é importante que eles saibam que a adolescência
é uma fase de extrema vulnerabilidade", alerta Nora Volkow. A maior parte
dos dependentes químicos se iniciou no vício qualquer um
deles na juventude. Entre os usuários de drogas, isso ocorre, em
geral, antes dos 21 anos. Quanto aos alcoólatras, antes dos 15. "É
fundamental que os pais fiquem atentos a essa realidade e ao comportamento dos
filhos adolescentes", enfatiza o psiquiatra André Malbergier, do Grea.
O uso repetido de drogas
muda a forma como o usuário se relaciona com o mundo. Além de alterar
as emoções, compromete a capacidade de cognição e
os reflexos motores. A boa notícia é que o cérebro tem uma
capacidade extraordinária de se recuperar dos danos causados pelo vício.
Quanto antes uma pessoa inicia o tratamento, melhor. É mais difícil
tratar alguém que foi dependente de cocaína por trinta anos do que
quem usa a droga há três. O mesmo vale para outras drogas, como nicotina
e álcool. Os especialistas são unânimes em dizer que não
existem tratamentos eficazes que durem menos de noventa dias. Os exames de neuroimagem
mostram que esse é o período de maior propensão a recaídas,
porque o cérebro permanece mais vulnerável ao longo dos três
meses seguintes à última vez em que se utilizou a droga.
Uma equipe de antropólogos
da Universidade da Califórnia defende a tese de que o uso de substâncias
psicoativas teria ajudado a humanidade a suportar a vida nos ambientes mais hostis.
Há quem acredite que o tédio e a solidão, dois dos males
da modernidade, tendem a reforçar a manifestação dessa tendência
ancestral. Tal convicção baseia-se em experimentos como o levado
a cabo, no fim dos anos 70, pelo pesquisador americano Bruce Alexander. Ele pegou
um grupo de ratos de laboratório e os colocou numa jaula com muito espaço
livre, cheio de bolas coloridas e brinquedinhos uma espécie de Disneylândia
dos ratos. A esses animais eram oferecidos água e um coquetel adocicado,
à base de morfina. O mesmo foi dado a outros ratos, isolados uns dos outros,
em jaulas escuras e diminutas. Resultado: os ratinhos do parque de diversões
mal tocaram na solução de morfina, preferiram a água. Os
animais isolados, por sua vez, se entupiram de morfina. Consumiram o coquetel
numa quantidade dez vezes superior à dos ratinhos contentes. Se parece
impossível erradicar a tendência ao vício e as suas causas,
genéticas e ambientais, que pelo menos se consiga desligar os circuitos
que levam à autodestruição.
DÁ PARA VIVER SEM FUMAR
Carol Carguejeiro
"Comecei a fumar aos 13 anos e fumava
de um maço a um maço e meio por dia. Mas, como tenho uma doença
cardíaca grave e já fui operada três vezes, não poderia
fumar jamais. Tentei parar algumas vezes, mas nunca consegui. Em março,
tive uma embolia pulmonar e minha médica disse: 'Ou você pára,
ou você morre'. A última cartada era o novo remédio. Até
agora, está dando certo. Se dependesse de mim, eu continuaria fumando.
Gosto da fumaça, do cheiro, da sensação... A diferença
é que, em comparação às outras vezes em que tentei
parar, não tenho mais vontade de fumar, apesar da saudade do hábito.
Sinto falta especialmente naquelas situações em que certamente estaria
com o cigarro nas mãos, como quando saio à noite. Sem o cigarro,
estou mais ansiosa e comendo mais. Por causa do remédio, sinto enjôos.
Mas dá para viver sem fumar." Gabriella Jorge de Moraes, 26 anos, estudante de psicologia