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Luiz
Felipe de Alencastro
Brasil, Rússia
e
Estados Unidos
"Os
Estados Unidos têm os
problemas da riqueza.
O Brasil tem os problemas da pobreza. Mas
a Rússia, grande potência há quinhentos
anos, virou o país do passado"
Ilustração Ale Setti
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Há alguns dias foram anunciados os resultados do censo brasileiro
de 2000. Na mesma época saíam os números do censo
dos Estados Unidos e, pouco tempo antes, publicava-se um estudo sobre
a demografia da Rússia. Três países que engendram
três histórias diferentes.
Os números
do IBGE mostram um retrato matizado do Brasil. A diminuição
do crescimento populacional se confirma, a urbanização prossegue,
surgem novos pólos de atração, mas a desigualdade
social continua forte. A desaceleração demográfica
é conseqüência de fatores conhecidos, como o uso de
contraceptivos modernos, mas também de fenômenos mais complexos.
Assim, o sociólogo Vilmar Faria demonstrou que, entre outras razões,
o modelo de família com um ou dois filhos, difundido pelas novelas,
contribuiu para estimular o controle voluntário de nascimentos.
Quanto à urbanização, o crescimento das cidades resulta
agora de deslocamentos a curta distância, no interior do mesmo Estado.
Nesse contexto, os municípios interioranos crescem mais rápido
que as grandes cidades. Amapá, Acre, Roraima e Distrito Federal
constituem novos pólos de desenvolvimento regional. Isso não
impede o aumento, em quase todas as cidades, de favelas, cuja população
cresce mais rápido que a população urbana em geral.
A região metropolitana de São Paulo guarda a maior concentração
de favelas do país, computadas em 3.905,
cifra 22,5% maior que a registrada na década 1980/90. Trata-se
de uma clivagem social que continua a se acentuar.
Nos Estados
Unidos, ao inverso do que sucede em outros países desenvolvidos
e no Brasil, os casais estão tendo mais filhos. Paralelamente,
aumenta a proporção de habitantes de origem ibero-americana,
os latinos. Na Califórnia e na Flórida, eles constituem
a principal comunidade étnica. Junto com o crescimento populacional
dos asiáticos, o fenômeno demonstra o alargamento do multiculturalismo.
A esperança de vida cresceu e situa-se em 76 anos. Para cobrir
o déficit da Previdência Social, fala-se em restabelecer
a idade de aposentadoria na mesma porcentagem (96%) da esperança
de vida observada na criação da primeira Social Security
Act, em 1935. Tal medida levaria os americanos a se aposentar aos 73 anos,
em vez de 65, como ocorre atualmente. A médio prazo, esse problema
poderá gerar tensão étnica. Será que a futura
maioria de assalariados de origem latina, negra e asiática vai
aceitar continuar pagando impostos para assegurar o nível de vida
dos aposentados das gerações precedentes, formadas majoritariamente
por brancos, anglo-saxões e protestantes?
O caso da
Rússia é bem mais grave, como mostra a análise publicada
pelo The Christian Science Monitor (22 de fevereiro de 2001). Baseado
em vários estudos, esse jornal de Boston calcula que a economia
russa encolheu 45% na última década. Quatro russos em dez
vivem abaixo da linha de pobreza, enquanto na China essa proporção
é de um em dez. Doenças, alcoolismo, desemprego e suicídio
atingem todas as casas. Metade dos homens russos morre antes dos 30 anos,
e as doenças tornaram estéreis 30% das mulheres em idade
de procriar. A população do país caiu de 150 milhões
em 1990 para 146 milhões em 2000. Nos próximos cinqüenta
anos a cifra pode recuar para 100 milhões de habitantes. Citado
pelo jornal, Nicholas Eberstadt, um especialista da Harvard, classifica
o declínio atual da Rússia como algo sem precedentes no
âmbito "das sociedades organizadas e alfabetizadas".
Os Estados
Unidos têm os problemas da riqueza: o aumento da esperança
de vida obriga a uma melhor gestão da Previdência Social.
O Brasil tem os problemas da pobreza: a desigualdade social barra seu
caminho. Mas a comparação com a Rússia é aterradora:
antes que o Brasil, nascido quinhentos anos atrás, desistisse de
ser o país do futuro, a Rússia, grande potência há
quinhentos anos, virou o país do passado.
Luiz
Felipe de Alencastro é historiador
(lfa@workmail.com)
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