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Edição 1 701 - 23 de maio de 2001
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Luiz Felipe de Alencastro

Brasil, Rússia e
Estados Unidos

"Os Estados Unidos têm os problemas da riqueza.
O Brasil tem os problemas da pobreza. Mas
a Rússia, grande potência há quinhentos
anos, virou
o país do passado"


Ilustração Ale Setti


Há alguns dias foram anunciados os resultados do censo brasileiro de 2000. Na mesma época saíam os números do censo dos Estados Unidos e, pouco tempo antes, publicava-se um estudo sobre a demografia da Rússia. Três países que engendram três histórias diferentes.

Os números do IBGE mostram um retrato matizado do Brasil. A diminuição do crescimento populacional se confirma, a urbanização prossegue, surgem novos pólos de atração, mas a desigualdade social continua forte. A desaceleração demográfica é conseqüência de fatores conhecidos, como o uso de contraceptivos modernos, mas também de fenômenos mais complexos. Assim, o sociólogo Vilmar Faria demonstrou que, entre outras razões, o modelo de família com um ou dois filhos, difundido pelas novelas, contribuiu para estimular o controle voluntário de nascimentos. Quanto à urbanização, o crescimento das cidades resulta agora de deslocamentos a curta distância, no interior do mesmo Estado. Nesse contexto, os municípios interioranos crescem mais rápido que as grandes cidades. Amapá, Acre, Roraima e Distrito Federal constituem novos pólos de desenvolvimento regional. Isso não impede o aumento, em quase todas as cidades, de favelas, cuja população cresce mais rápido que a população urbana em geral. A região metropolitana de São Paulo guarda a maior concentração de favelas do país, computadas em 3.905, cifra 22,5% maior que a registrada na década 1980/90. Trata-se de uma clivagem social que continua a se acentuar.

Nos Estados Unidos, ao inverso do que sucede em outros países desenvolvidos e no Brasil, os casais estão tendo mais filhos. Paralelamente, aumenta a proporção de habitantes de origem ibero-americana, os latinos. Na Califórnia e na Flórida, eles constituem a principal comunidade étnica. Junto com o crescimento populacional dos asiáticos, o fenômeno demonstra o alargamento do multiculturalismo. A esperança de vida cresceu e situa-se em 76 anos. Para cobrir o déficit da Previdência Social, fala-se em restabelecer a idade de aposentadoria na mesma porcentagem (96%) da esperança de vida observada na criação da primeira Social Security Act, em 1935. Tal medida levaria os americanos a se aposentar aos 73 anos, em vez de 65, como ocorre atualmente. A médio prazo, esse problema poderá gerar tensão étnica. Será que a futura maioria de assalariados de origem latina, negra e asiática vai aceitar continuar pagando impostos para assegurar o nível de vida dos aposentados das gerações precedentes, formadas majoritariamente por brancos, anglo-saxões e protestantes?

O caso da Rússia é bem mais grave, como mostra a análise publicada pelo The Christian Science Monitor (22 de fevereiro de 2001). Baseado em vários estudos, esse jornal de Boston calcula que a economia russa encolheu 45% na última década. Quatro russos em dez vivem abaixo da linha de pobreza, enquanto na China essa proporção é de um em dez. Doenças, alcoolismo, desemprego e suicídio atingem todas as casas. Metade dos homens russos morre antes dos 30 anos, e as doenças tornaram estéreis 30% das mulheres em idade de procriar. A população do país caiu de 150 milhões em 1990 para 146 milhões em 2000. Nos próximos cinqüenta anos a cifra pode recuar para 100 milhões de habitantes. Citado pelo jornal, Nicholas Eberstadt, um especialista da Harvard, classifica o declínio atual da Rússia como algo sem precedentes no âmbito "das sociedades organizadas e alfabetizadas".

Os Estados Unidos têm os problemas da riqueza: o aumento da esperança de vida obriga a uma melhor gestão da Previdência Social. O Brasil tem os problemas da pobreza: a desigualdade social barra seu caminho. Mas a comparação com a Rússia é aterradora: antes que o Brasil, nascido quinhentos anos atrás, desistisse de ser o país do futuro, a Rússia, grande potência há quinhentos anos, virou o país do passado.

Luiz Felipe de Alencastro é historiador
(lfa@workmail.com)



 
 
   
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