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Roberto
Pompeu de Toledo
Variações
em torno
do mesmo tema
Embora
já estejamos
na
internet,
continuam
na
mesa velhas
questões
postas
pela
TV
Quando se
pergunta o que mais desgraçou os senadores Antonio Carlos Magalhães
e José Roberto Arruda, além, naturalmente, dos próprios
desatinos, a resposta é: a TV. Não se esquecerão
tão cedo, se é que algum dia serão esquecidas, as
duas performances opostas do senador Arruda numa negando, e chorando,
e dizendo que falava "com as vísceras"; na outra, com a mesma convicção,
a mesma teatralidade (e as mesmas vísceras), admitindo, e se mortificando,
e se desculpando. Tampouco se esquecerá a imagem, menos dramática,
mas não menos relevante, por se tratar de quem se tratava, do senador
Antonio Carlos Magalhães paralisado diante da inquirição
certeira do senador Jefferson Peres. Que azar dos dois, ter a impiedade
das câmaras a desnudar-lhes as expressões faciais, as ênfases,
as hesitações e os silêncios.
O caso deles
tem vários aspectos degradantes a prepotência, o desrespeito
às regras, a deslealdade, a mentira , mas não tem
roubo do dinheiro público, e no entanto mobilizou mais a opinião
pública, e provocou mais imediata exigência de punição,
do que os escândalos correntes de roubo do dinheiro público.
Por quê? A resposta está na câmara de TV. Enquanto
o escândalo permanece só em letras impressas, ou mesmo só
na palavra do apresentador do telejornal, sem a crueza das imagens, é
uma coisa. Outra, de teor explosivo muitas vezes potencializado, é
quando se personifica em imagens. O encontro do escândalo com suas
imagens provoca conseqüências fatais.
A
TV Senado, tão acarinhada pelos senadores, acabou por fazer a desgraça
de dois deles. Outras televisões mostraram a cena, mas a TV Senado
merece destaque, não só porque gerou as imagens, mas porque
sua presença no episódio marca outro encontro fatal. Era
uma televisão burocrática, em princípio. Estava lá
e continua a estar, em dias normais para registrar os discursos
insossos dos parlamentares e as proclamações cartoriais
do presidente da Mesa. Eis senão quando se apresenta diante de
suas lentes aquela mais ansiada das iguarias, para uma televisão
que se preza um espetáculo. O episódio da violação
do painel teve riso e lágrima, emoção e suspense.
A TV Senado, naqueles dias, até parecia uma TV de verdade.
As relações
entre TV e poder estão na ordem do dia, na Itália, com a
eleição, para primeiro-ministro, de Silvio Berlusconi, o
magnata da televisão privada no país. Dono de três
redes, Berlusconi passa a exercer controle, também, pelo menos
em tese, sobre as três da RAI, a televisão estatal. Durante
a campanha, tanto na Itália como na Europa em geral, discutiu-se
o fato de um dono de TV que além do mais possui interesses
também na imprensa escrita chefiar um governo. Tal circunstância
caracterizaria um escandaloso conflito de interesses. No Brasil, contam-se
às dezenas as emissoras nas mãos de políticos. Alguns
são, ou foram, governadores de Estado, e durante o mandato exerceram
controle também sobre a TV educativa respectiva. No entanto, a
discussão sobre conflito de interesses ainda não chegou
por estas bandas.
Às
vésperas da eleição italiana, o escritor Umberto
Eco publicou na imprensa italiana um manifesto anti-Berlusconi, republicado
pelo Jornal do Brasil do domingo, dia 13. Eco demora-se a analisar
as causas do favoritismo de Berlusconi nas pesquisas de opinião
e, entre outras, aponta a existência de um eleitorado a que chama
de "fascinado". São as pessoas que "não têm uma opinião
política definida, mas basearam seu sistema de valores na educação
rasteira promovida durante décadas pela televisão"
uma televisão "rica e colorida" que distribui dinheiro "a quem
é capaz de responder que o nome de Garibaldi era Giuseppe". Seria,
esse eleitorado, "produto de desfiles de modelos sinuosas, de mães
que finalmente voltam a abraçar o filho que emigrou para a Austrália,
de casais que recebem a solidariedade dos vizinhos porque exibiram suas
crises conjugais diante de uma câmara", prossegue Eco, citando algumas
das habituais atrações da TV. A "Itália do espetáculo",
a "ideologia do espetáculo" estariam na base do sucesso de Berlusconi.
Que
concluir das notas acima? Já se viu que elas não apontam
para uma direção única. Se a televisão, ao
potencializar um escândalo, consegue mobilizar a opinião
pública, como no caso do Senado brasileiro, tem também o
poder de iludi-la e anestesiá-la, como aflora da argumentação
de Eco. O que se pode sugerir é que, embora tenhamos passado muito
rápido para a internet, importante mesmo continua a televisão
e as questões que, há décadas, ela propõe,
continuam postas na mesa. Para voltar a Umberto Eco, uma vez ele disse
que se sentiu à vontade para escrever O Nome da Rosa porque
a Idade Média é um período que conhece na intimidade.
Quanto à época contemporânea, acrescentou, "só
me chega pela televisão".
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