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Ser
o não ser à italiana
O tema da identidade perdida
numa
obra de Luigi Pirandello
Diogo
Mainardi
Olhe-se no espelho. Olhe-se mais uma vez. Está notando que seu
nariz pende ligeiramente para a direita? Ou para a esquerda? É
normal. Difícil encontrar um nariz perfeitamente simétrico.
Ou pende para cá, ou para lá. O de Vitangelo Moscarda, protagonista
do romance Um, Nenhum e Cem Mil (tradução
de Maurício Santana Dias; Cosac & Naif; 229 páginas;
35 reais), do siciliano Luigi Pirandello (1867-1936), pendia um pouco
para a direita. Só que ele nunca se tinha dado conta disso. Quando
sua mulher faz um comentário a respeito dessa sua banalíssima
característica, sua vida entra em parafuso. É o começo
de sua loucura. Porque ele percebe que não se conhece direito.
Aquele que ele imaginava ser simplesmente não existe. E, se não
existe, ele não é ninguém. Daí o título
do livro. Mas a coisa fica ainda mais complicada. Moscarda também
não se reconhece na imagem que as outras pessoas têm dele.
Cem mil pessoas têm 100.000 imagens diferentes. E nenhuma corresponde
à realidade. Ou àquela que Moscarda considera ser a realidade.
Sua mulher, por exemplo, o vê como um bonachão idiota. Ela
ama sinceramente o bonachão idiota. Não se reconhecendo
nessa figura, porém, Moscarda sente-se traído, pois sua
mulher ama alguém que não é ele, embora esse alguém
habite em seu corpo e faça o que ele faz, como uma assombração.
No instante em que ele desmancha a figura do bonachão idiota, sua
mulher o abandona. E no momento em que decide contrariar a imagem que
as outras pessoas têm dele, como no episódio em que manda
despejar um casal de parasitas que ocupa uma propriedade sua, é
quase linchado pela população.
O tema da identidade, ou da identidade perdida, é central na literatura
de Pirandello, de O Defunto Mattia Pascal a Henrique IV.
Publicado em 1925, Um, Nenhum e Cem Mil pertence a um universo
pré-freudiano. De fato, os problemas de Moscarda soam quase insuportavelmente
ingênuos numa época em que conceitos psicanalíticos
como ego, id e superego (um, nenhum e cem mil) já entraram e saíram
do vocabulário comum. Autoconhecimento, hoje em dia, é assunto
mais para revista feminina que para a literatura. A comicidade de Pirandello
também tem seus limites. Um, Nenhum e Cem Mil inspira-se
explicitamente em Tristram Shandy, do irlandês Laurence Sterne,
só que não leva o jogo de digressões às últimas
conseqüências, como faz o original ou suas célebres
imitações, Jacques, o Fatalista e Seu Amo, de Diderot,
e Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado
de Assis. Pirandello fica mais ou menos no meio do caminho. Engraçado,
sem dúvida, mas com uma mão na rédea. Não
significa que o livro não deve ser lido. Deve, claro. Sobretudo
graças à parte em que Moscarda se conscientiza de que seu
dinheiro não é fruto da herança de um pai banqueiro,
como sempre havia pensado, e sim de um pai agiota. Quando renega esse
dinheiro, todos se voltam contra ele, internando-o num hospício
e privando-o de seus direitos de indivíduo. Moscarda só
é aceito enquanto não questiona a omertà,
ou voto de silêncio, em que vive, omitindo a si próprio a
verdade sobre a origem de sua riqueza. Assim como na Sicília, existe
muita gente como Moscarda no Brasil. Gente que tem muito dinheiro, mas
prefere não saber de onde ele vem. E, quando sabe, aceita-o alegremente
mesmo assim.
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Minhas
idéias têm um nariz
"Vivendo,
eu nunca havia pensado na forma do meu nariz... Mas agora pensava:
E os outros? Para os outros que me vêem de fora, as minhas
idéias e os meus sentimentos têm um nariz. O meu nariz.
Que relação há entre as minhas idéias
e o meu nariz? Para mim, nenhuma. Eu não penso com o nariz
nem me importo com ele ao pensar. Mas... e os outros? Para
os outros, as minhas idéias e o meu nariz têm tanta
relação que, suponhamos, se elas fossem muito sérias
e ele, por sua forma, muito cômico, todos começariam
a rir."
Trecho
de Um, Nenhum e Cem Mil
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