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Um
ianque na
corte francesa
A
heroína Joana d'Arc é retratada
com tintas ficcionais pelo americano
Mark Twain
Ana
Maria Machado*
Roger Viollet
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| Mark
Twain: foi difícil encontrar a "forma certa" |
Há mais de um século, o americano Mark Twain é admirado
no mundo, seja como grande humorista, seja por haver criado personagens
adolescentes inesquecíveis entre eles, Tom Sawyer. Para
escritores como Ernest Hemingway e William Faulkner, seus compatriotas,
ele foi o fundador da moderna literatura dos Estados Unidos, ao traduzir
em palavras a paisagem do Mississippi, a variedade de sua gente, a riqueza
de uma linguagem que já não era mais o inglês britânico.
Nesse quadro, Joana D'Arc (tradução de Maria Alice Máximo;
Record; 476 páginas; 45 reais), uma alentada biografia romanceada
da heroína francesa escrita por Twain, pode surpreender. Mas vale
lembrar que o autor de Huckleberry Finn também se aventurou por
romances históricos, como Um Ianque na Corte do Rei Artur. E que
a camponesa Joana não passava de uma adolescente de 16 anos
pouco mais do que tinham Tom e Huck quando saiu de sua aldeia na
Lorena, disposta a pegar em armas e lutar numa guerra contra a Inglaterra
que já durava 91 anos.
Um ano depois de tomar da espada, a audaciosa Joana já era comandante-em-chefe.
Devolveu a França aos franceses e entregou o trono ao rei. O mesmo
rei que, em seguida, cedeu às intrigas da corte e a traiu, deixando
que os ingleses a queimassem viva com a conivência da Igreja. A
mesma Igreja que, mais tarde, a canonizou, fazendo dela Santa Joana d'Arc,
a padroeira da França. Personagem fascinante, a Donzela de Orleans
já inspirou inúmeros escritores e filmes. Twain demorou
a encontrar a "forma certa" para a narrativa, como revela em sua autobiografia.
O resultado de seus esforços foi um livro bem documentado e cheio
de peripécias.
A
história é contada na primeira pessoa pelo personagem Louis
de Conte, um companheiro de infância de Joana, que aprendeu a ler
e escrever por ser de origem nobre. Ele a acompanha em sua trajetória,
como pajem e secretário no momento de glória e, mais tarde,
conseguindo infiltrar-se nas sessões do julgamento, como auxiliar
de escrevente. O narrador, assim, está metido na história
até os cabelos e ainda pode citar trechos dos autos do tribunal.
Como só escreve o relato no fim da vida, aos 82 anos, pode também
fazer comentários e referir-se ao processo de reabilitação
de Joana d'Arc. Mas os truques narrativos não se esgotam aí.
Já que o suposto texto original de Conte seria em francês,
Twain cria um tradutor para o inglês, que intercala ao relato comentários
muito posteriores, do século XIX.
Joana D'Arc, além de saboroso e movimentado, leva a uma reflexão
inteligente. Não se limita a contar uma vida de santo ou a celebrar
feitos guerreiros. Também deixa no ar a questão da recorrente
injustiça histórica contra líderes que realizam um
sonho coletivo longamente acalentado e em seguida são sacrificados
pelos detentores de privilégios, preocupados apenas com seus interesses.
Aquilo a que Cecília Meireles aludiu quando disse de Tiradentes:
"Foi trabalhar para todos, mas por ele quem trabalha?".
*
Ana Maria Machado é escritora, autora de Para Sempre, entre
outros livros
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