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Nada gratuito

O austríaco Michael Haneke gosta
de chocar
e provocar a platéia.
Mas é por uma boa causa

Isabela Boscov

 
Fotos divulgação
Uma Juliette Binoche sem glamour na briga que abre Código Desconhecido: ódio social e preconceito racial

O cineasta austríaco Michael Haneke é um demolidor. Em seu filme mais conhecido, Violência Gratuita, ele submete a platéia a 108 minutos de desespero a partir de uma situação muito simples. Dois rapazes educados e bem-vestidos batem à porta de uma casa de campo e pedem alguns ovos emprestados. Anunciam-se como hóspedes dos vizinhos. São tratados com gentileza, mas logo deixam claro que não irão embora. Dirigindo-se à câmara, dão a entender que têm o melhor dos propósitos: dar ao público aquilo que ele quer – e que o título do filme promete. Por isso prendem a família em sua própria casa e torturam o casal e seu filho até a morte. Só em uma cena há de fato violência explícita. Mas o efeito da fita é devastador, principalmente porque o diretor se recusa a dar uma explicação – psicológica, sociológica, existencial ou qualquer outra – ao comportamento dos dois rapazes. As suas próprias intenções, contudo, ele já esclareceu em diversas ocasiões. Haneke detesta aquilo que Hollywood se especializou em vender: um mundo em que há solução e justificativa para tudo, e um cinema que reduz o espectador a consumidor. "Meus filmes são um apelo para que as pessoas pensem", diz. Um bom exemplo disso é o excelente Código Desconhecido (Code Inconnu, França/Alemanha/Romênia, 2000), que estréia nesta sexta-feira em São Paulo.


Cena de Violência Gratuita: "Eu sou um otimista"

Só a seqüência de abertura já é de tirar o fôlego, de tão chocante. Numa avenida movimentada de Paris, um adolescente termina de comer um doce, amassa o papel e o joga numa pedinte, como se ela fosse uma lata de lixo. Um jovem negro se atraca com o garoto, para obrigá-lo a pedir desculpas. A briga pega fogo, a cunhada do menino intervém, a polícia chega. É um caos, ao qual estão presentes os protagonistas dos três núcleos de Código Desconhecido: a atriz Anne (uma amarrotada Juliette Binoche, numa de suas melhores atuações), o professor de música Amadou e a imigrante romena Maria. Acompanhando os meses seguintes na vida desses personagens, o diretor mostra uma França em que quase não há sinal de liberdade, igualdade ou fraternidade. Pelo contrário. Como a maioria dos países europeus hoje, ela parece tomada por ódios sociais e preconceitos raciais.

Pela intransigência com que defende suas idéias e pelo vigor e inquietude de seu estilo, Haneke filma como se fosse um garotão com fome de bola. A única pista que dá dos seus bem vividos 59 anos – ele é psicólogo e filósofo, foi um respeitado diretor teatral e de televisão e só em 1989 passou a se dedicar ao cinema – é a maturidade do seu ponto de vista. Em tempo: o diretor se define como um otimista. "Se não o fosse, eu não tentaria tirar as pessoas da apatia", diz.

   
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