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A vida no apagão

Os blecautes entraram na lista das
grandes ameaças contra a humanidade,
ao lado das enchentes, incêndios,
furacões e tempestades

Guido Orgis e Patrícia Queiroz

AP
1965: blecaute em Nova York


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A culpa é deles e nós é que (a)pagamos
O mundo com fome de energia

Dois grandes apagões estão bem guardados na memória dos americanos. O maior aconteceu em novembro de 1965 e atingiu oito Estados da região nordeste do país, incluindo a cidade de Nova York. Cerca de 25 milhões de pessoas tiveram a luz cortada por doze horas. Surpreendidas, mais de 700.000 ficaram presas nos túneis do metrô. Por sorte, ninguém saiu ferido. A polícia não registrou incidentes graves e as manchetes do dia seguinte louvaram a capacidade dos nova-iorquinos de triunfar na adversidade. Em julho de 1977 outro blecaute atingiu Nova York. Dessa vez a história foi outra: as 25 horas em que faltou energia marcaram a cidade. Uma onda de saques irrompeu nos bairros pobres. Centenas de lojas foram depredadas e incendiadas. Mais de 4.000 pessoas acabaram na cadeia. Jornais dos quatro cantos do planeta falaram de caos e tragédia, o episódio virou livro (Blackout Looting!, de Robert Curvin) e filme (Summer of Sam, de Spike Lee, 1999, que passou no Brasil com o título O Verão de Sam). Pela primeira vez o mundo se deu conta dos riscos a que está submetida uma grande cidade quando a luz acaba.


AP
2001: racionamento na Califórnia


Nos últimos vinte anos os apagões entraram na lista das grandes ameaças contra a humanidade. Passaram a ser lembrados com data e hora, assim como enchentes, incêndios e tempestades. E também começaram a ser usados politicamente. Na década de 70, os mineiros ingleses fizeram greve e suspenderam a produção do carvão das usinas de eletricidade. Na Colômbia, há anos os guerrilheiros derrubam as torres de transmissão como forma de pressionar o governo. As ameaças se tornaram tão constantes que a população se viu obrigada a adaptar a vida e a rotina à falta de luz. Em 1992, o país enfrentou seu mais longo período de racionamento de energia elétrica, provocado pelo nível dos reservatórios que baixou demais durante uma seca relacionada ao fenômeno El Niño. Na ocasião, o fornecimento de energia ficou reduzido a um patamar 30% abaixo do normal. Três meses antes de começar os cortes o governo iniciou um plano de emergência. Descobriu-se que grande parte da população já tinha adquirido gerador e criado mecanismos para enfrentar a falta de luz. Foi adotado pela primeira vez o horário de verão e, durante os seis meses mais críticos, a energia era desligada diariamente às 4 da tarde. Os apagões duravam três horas. Por incrível que possa parecer, o crescimento do produto interno bruto do país não foi afetado nos quase dois anos que durou o apagão.

Quando a queda de luz é repentina, é difícil evitar o pior. Há dois anos, a cidade de Buenos Aires enfrentou um blecaute até hoje lembrado pela mídia: "o grande apagão". Mais de 200.000 pessoas ficaram sem luz durante onze dias seguidos, entre elas 50.000 idosos. Centenas de velhinhos que estavam nas ruas não puderam voltar aos apartamentos porque os elevadores estavam parados. Acabaram se hospedando em hotéis. Muitos deles ficaram presos em casa e milhares foram atendidos pelo serviço de emergência vítimas de desidratação. Houve bloqueio de ruas, panelaços e incêndios promovidos por manifestantes. Além do caos provocado no trânsito e da falta de elevadores, as pessoas ficaram sem água e sem TV. Sem conservação, supermercados e açougues jogaram toneladas de carne e comida no lixo.

Quedas repentinas no fornecimento de luz para grandes regiões, como ocorreu em Nova York e Buenos Aires, são eventos relativamente raros. Para alívio dos brasileiros, não se tem notícia de grandes tumultos quando se avisa que a luz vai acabar. A Califórnia vem enfrentando racionamento desde o começo do ano. A população mudou hábitos de compra e se preparou com geradores. O governo montou equipes especiais para atender pessoas com deficiências e a polícia se mantém de prontidão. A ocorrência mais grave relacionada aos apagões é o aumento no número de acidentes de carro. Resta o transtorno: os caixas eletrônicos param e muitos aparelhos elétricos estragam quando volta a luz.

Na semana passada o presidente George W. Bush anunciou um plano de dimensões imperiais para enfrentar a crise. O aumento no preço do petróleo está colocando sob risco de blecaute outros Estados americanos. O presidente quer abrir a possibilidade de exploração de petróleo em áreas protegidas, como o Alasca. O plano pretende, ainda, incentivar a construção de milhares de quilômetros de linhas de transmissão de energia e gasodutos, além de termelétricas e hidrelétricas, mesmo que para isso tenham de ser alteradas algumas leis ambientais. Outro ponto polêmico do projeto do governo americano é a permissão para que sejam construídas novas usinas nucleares. Seu plano ainda prevê subsídios pesados para o desenvolvimento de fontes alternativas de energia e produção de eletrodomésticos e veículos mais eficientes. O governo mostra assim que está cuidando do futuro. Pelo menos, nos Estados Unidos.

 

O apagão no Brasil...

Três décadas no limite. Desde o começo dos anos 70, o Brasil convive com o risco de apagões. Nesses trinta anos, já foram registrados mais de cinqüenta blecautes. O mais importante foi o de 1999, quando faltou luz durante quatro horas. A falta de energia por alguns minutos no ano é normal em todo o mundo. Em média, cada casa fica até dez horas sem luz por ano no Brasil.

 

...e no mundo

AP
AP
Em sentido horário, caixa automático apagado em Manila, equipe auxiliando deficiente em Los Angeles e restaurante em Buenos Aires, em 1999: pesadelo global
Editorial Perfil

 

Solução de emergência

Entre as alternativas de energia para o racionamento, muitas já requerem uma espera de até quarenta dias. Conheça as opções

Por 900 reais
Produto: uma placa de captação solar e um reservatório de 200 litros
Finalidade: abastecer de água quente uma casa com três pessoas
Custo de manutenção: zero

Por 1 700 reais
Produto: gerador de 4 000 watts
Finalidade: manter o chuveiro e a geladeira funcionando
Custo de manutenção: 1 litro de óleo diesel por hora
(preço do litro: 80 centavos)

Por 3 000 reais
Produto: oito placas solares e um reservatório para 800 litros
Finalidade:
água quente para casas com mais de quatro pessoas
Custo de manutenção: zero


Claudio Rossi


Por 5 500 reais

Produto: gerador de 7 000 watts (foto)
Finalidade: manter um chuveiro, cinco lâmpadas, uma geladeira e uma televisão
Custo de manutenção: 1,5 litro de diesel por hora

Por 10 000 reais
Produto: painéis fotovoltaicos, baterias e conversor
Finalidade: energia elétrica para manter uma geladeira por cinco horas
Custo de manutenção: zero

Por 20 000 reais
Produto: gerador de 20 000 watts
Finalidade: manter freezer, geladeira, iluminação e aquecedor
Custo de manutenção: 5 litros de diesel por hora

Por 40 000 reais
Produto: gerador de 150 000 watts
Finalidade: energia emergencial para prédio de doze andares
Custo de manutenção: 30 litros de diesel por hora

Por 100 000 reais
Produto: painéis fotovoltaicos, baterias e conversor
Finalidade: energia para uma casa com cinco pessoas
Custo de manutenção: zero

 

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