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Edição 1 701 - 23 de maio de 2001
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Um campo de futebol
a cada 8 segundos

Ritmo atual de destruição da
Amazônia é um dos maiores
registrados em todos os tempos

Christian Schwartz, de Belém


Janduari Simões

A agonia da floresta: 20 000 quilômetros devastados


Depois de um brevíssimo período de estabilidade, a Amazônia voltou à UTI ambiental. Dados divulgados na semana passada pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que a região sofreu entre agosto de 1999 e agosto de 2000 o segundo maior processo de devastação da década de 90 – o maior dos últimos cinco anos. Por meio da análise de fotos de satélites, os especialistas concluíram que sumiu do mapa um total de 20.000 quilômetros quadrados de mata. O assustador ritmo de destruição é de um campo de futebol a cada oito segundos. Nos últimos anos, as perdas de nacos da área da maior floresta tropical do planeta ocorriam a uma média anual de 17.000 quilômetros quadrados. Muito longe do ideal, é verdade, mas o número autorizava os especialistas a ter esperança de que a destruição fosse revertida. Agora, o cenário voltou a adquirir contornos catastróficos. Na história recente da Amazônia, só aconteceu uma devastação maior, em 1995, quando a região perdeu um gigantesco pedaço de 29.000 quilômetros quadrados.

Os últimos dados do Inpe idicam que o avanço da destruição ocorreu nas bordas da Amazônia, ou seja, nas áreas que compõem o chamado "arco do desmatamento". Esse é o nome do semicírculo que se estende de Rondônia à divisa do Maranhão com o Pará, cortando todo o norte de Mato Grosso. Os quatro Estados lideram o ranking das unidades da federação que mais detonam a região (veja quadro). Ali, a floresta não é tão densa e úmida, e por isso é mais fácil de ser explorada. A preocupação dos ambientalistas é que as motosserras avancem em direção ao núcleo da mata. Nos últimos meses, começaram a surgir evidências de que o processo já teve início, o que torna o quadro divulgado na semana passada ainda mais preocupante.

As informações do Inpe apontam para um novo tipo de inimigo da floresta. São os pequenos produtores rurais assentados na região pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). As fotos dos satélites mostram que 40% das clareiras abertas na selva amazônica têm até meio quilômetro quadrado de área. De acordo com dados do Incra, foram assentadas na região mais de 80.000 famílias de sem-terra entre 1998 e 2000. Após a divulgação dos números do desmatamento, o assunto virou foco de tensão entre o ministro do Meio Ambiente, José Sarney Filho, e do Desenvolvimento Agrário, Raul Jungmann. "Houve influência dos assentamentos no aumento da devastação", acusou Sarney Filho. Ao se dar conta de que as más notícias sobre a Amazônia estavam recaindo sobre seu ministério, Jungmann reclamou. "Estou fazendo a minha parte", afirmou ele, numa referência a uma norma conjunta firmada pelos dois ministérios que proíbe novos assentamentos em áreas de floresta. Jungmann diz não ter instalado uma única família perto de mata nativa depois de outubro de 1999, quando o acordo foi firmado. Mas existe a forte suspeita de que muitos madeireiros, impossibilitados de derrubar grandes áreas, passaram a subornar os pequenos proprietários para retirar árvores de suas propriedades.

 
Fotos Ricardo Stuckert/Luis Eduardo Tostes/Lumen/Carlos Goldgrub
Os ministros Jungmann (no alto) e Sarney Filho e o exuberante visual de um trecho ainda intacto da floresta: desentendimento amazônico

Após um breve período de baixa atividade, as madeireiras também voltaram a trabalhar forte e bateram o recorde de produtividade da última década. Como a fiscalização sobre a atividade dessas empresas na região é uma verdadeira peneira furada, a festa foi completa. Os satélites do Inpe contabilizam apenas o total devastado, sem apontar quais propriedades são responsáveis pela derrubada da mata. Em breve, o Ministério do Meio Ambiente promete usar a mesma tecnologia para ajudar os agentes do Ibama a checar se cada uma das fazendas está de acordo com os limites impostos pelo Código Florestal Brasileiro.

Cerca de 28% da área da Amazônia forma um cinturão de 1,4 milhão de quilômetros quadrados, dividido entre terras indígenas, áreas militares e reservas de proteção. Nesses locais, em tese, nenhuma árvore pode ser derrubada. O restante da cobertura florestal da região divide-se entre propriedades privadas e terras públicas. Para as particulares, vale o limite de desmatamento previsto no Código Florestal, que atualmente é de 20% da área total de cada propriedade. Há um projeto no Congresso Nacional que propõe o aumento desse porcentual. O deputado federal Moacir Micheletto (PMDB-PR), membro da bancada ruralista e relator da comissão que examina o assunto, já chegou a defender que possam ser desmatados até 80% em cada fazenda. A idéia gerou tamanha polêmica que os ruralistas foram obrigados a recuar. O assunto continua em discussão no Congresso. Na opinião dos ambientalistas, o novo percentual será decisivo para o futuro da floresta.




   
 
   
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