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Um campo de futebol
a cada 8 segundos
Ritmo atual de
destruição da
Amazônia é um dos maiores
registrados em todos os tempos

Christian
Schwartz, de Belém
Janduari Simões

A agonia
da floresta: 20 000 quilômetros devastados |
Depois de um brevíssimo período de estabilidade, a Amazônia
voltou à UTI ambiental. Dados divulgados na semana passada pelo
Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que a região
sofreu entre agosto de 1999 e agosto de 2000 o segundo maior processo
de devastação da década de 90 o maior dos
últimos cinco anos. Por meio da análise de fotos de satélites,
os especialistas concluíram que sumiu do mapa um total de 20.000
quilômetros quadrados de mata. O assustador ritmo de destruição
é de um campo de futebol a cada oito segundos. Nos últimos
anos, as perdas de nacos da área da maior floresta tropical do
planeta ocorriam a uma média anual de 17.000
quilômetros quadrados. Muito longe do ideal, é verdade, mas
o número autorizava os especialistas a ter esperança de
que a destruição fosse revertida. Agora, o cenário
voltou a adquirir contornos catastróficos. Na história recente
da Amazônia, só aconteceu uma devastação maior,
em 1995, quando a região perdeu um gigantesco pedaço de
29.000 quilômetros quadrados.
Os últimos
dados do Inpe idicam que o avanço da destruição ocorreu
nas bordas da Amazônia, ou seja, nas áreas que compõem
o chamado "arco do desmatamento". Esse é o nome do semicírculo
que se estende de Rondônia à divisa do Maranhão com
o Pará, cortando todo o norte de Mato Grosso. Os quatro Estados
lideram o ranking das unidades da federação que mais detonam
a região (veja quadro).
Ali, a floresta não é tão densa e úmida, e
por isso é mais fácil de ser explorada. A preocupação
dos ambientalistas é que as motosserras avancem em direção
ao núcleo da mata. Nos últimos meses, começaram a
surgir evidências de que o processo já teve início,
o que torna o quadro divulgado na semana passada ainda mais preocupante.
As informações
do Inpe apontam para um novo tipo de inimigo da floresta. São os
pequenos produtores rurais assentados na região pelo Instituto
Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).
As fotos dos satélites mostram que 40% das clareiras abertas na
selva amazônica têm até meio quilômetro quadrado
de área. De acordo com dados do Incra, foram assentadas na região
mais de 80.000 famílias de sem-terra
entre 1998 e 2000. Após a divulgação dos números
do desmatamento, o assunto virou foco de tensão entre o ministro
do Meio Ambiente, José Sarney Filho, e do Desenvolvimento Agrário,
Raul Jungmann. "Houve influência dos assentamentos no aumento da
devastação", acusou Sarney Filho. Ao se dar conta de que
as más notícias sobre a Amazônia estavam recaindo
sobre seu ministério, Jungmann reclamou. "Estou fazendo a minha
parte", afirmou ele, numa referência a uma norma conjunta firmada
pelos dois ministérios que proíbe novos assentamentos em
áreas de floresta. Jungmann diz não ter instalado uma única
família perto de mata nativa depois de outubro de 1999, quando
o acordo foi firmado. Mas existe a forte suspeita de que muitos madeireiros,
impossibilitados de derrubar grandes áreas, passaram a subornar
os pequenos proprietários para retirar árvores de suas propriedades.
| Fotos Ricardo Stuckert/Luis
Eduardo Tostes/Lumen/Carlos Goldgrub |
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| Os
ministros Jungmann (no alto) e Sarney Filho e o exuberante
visual de um trecho ainda intacto da floresta: desentendimento amazônico |
Após
um breve período de baixa atividade, as madeireiras também
voltaram a trabalhar forte e bateram o recorde de produtividade da última
década. Como a fiscalização sobre a atividade dessas
empresas na região é uma verdadeira peneira furada, a festa
foi completa. Os satélites do Inpe contabilizam apenas o total
devastado, sem apontar quais propriedades são responsáveis
pela derrubada da mata. Em breve, o Ministério do Meio Ambiente
promete usar a mesma tecnologia para ajudar os agentes do Ibama a checar
se cada uma das fazendas está de acordo com os limites impostos
pelo Código Florestal Brasileiro.
Cerca de
28% da área da Amazônia forma um cinturão de 1,4 milhão
de quilômetros quadrados, dividido entre terras indígenas,
áreas militares e reservas de proteção. Nesses locais,
em tese, nenhuma árvore pode ser derrubada. O restante da cobertura
florestal da região divide-se entre propriedades privadas e terras
públicas. Para as particulares, vale o limite de desmatamento previsto
no Código Florestal, que atualmente é de 20% da área
total de cada propriedade. Há um projeto no Congresso Nacional
que propõe o aumento desse porcentual. O deputado federal Moacir
Micheletto (PMDB-PR), membro da bancada ruralista e relator da comissão
que examina o assunto, já chegou a defender que possam ser desmatados
até 80% em cada fazenda. A idéia gerou tamanha polêmica
que os ruralistas foram obrigados a recuar. O assunto continua em discussão
no Congresso. Na opinião dos ambientalistas, o novo percentual
será decisivo para o futuro da floresta.
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