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Receita moderna
para arranha-céus

Técnicas usadas numa nova
geração de edifícios revolucionam
a construção civil brasileira

Juliana Saboia

 


Prédio do BankBoston em construção (em maquete de computador): obra de 300 milhões de reais

A nova geração de grandes prédios de escritórios à beira do Pinheiros, o rio cercado de vias expressas na Zona Sul de São Paulo, não apenas vem mudando a paisagem da cidade. Também está provocando uma revolução tecnológica na construção civil brasileira como não se vê desde a chegada do concreto armado, há setenta anos. A nova receita – que é a mesma utilizada nas grandes cidades dos países ricos – permite construir arranha-céus de forma mais rápida e eficiente. Dentro da obra, uma das mudanças mais perceptíveis é que o acabamento da fachada e do interior pode ser feito nos andares inferiores enquanto a construção continua nos superiores. Pelos métodos tradicionais, é preciso primeiro terminar toda a estrutura antes de pensar em acabamento. Por fora, chama a atenção a abundância de vidro, granito, peças de alumínio e aço inoxidável. O uso de concreto de alta resistência elimina colunas e permite grandes áreas livres internas, o que abre espaço para os sistemas avançados de refrigeração e para a instalação do emaranhado de fios da era da informática.

A nova tecnologia resolve com sucesso uma série de entraves que os construtores brasileiros aceitavam como fatos da vida. Qualquer prédio alto é um desafio à força dos ventos. Como é difícil avaliar com exatidão o grau de resistência necessário, tradicionalmente exagera-se nas estruturas. Na construção do Torre Norte, um dos edifícios mais altos do Brasil, a resistência exata foi encontrada com a ajuda de testes realizados com uma maquete num túnel de vento, no Canadá. Nessas provas, além de calcular o impacto dos ventos nas condições climáticas específicas da cidade, mediu-se o grau de proteção oferecido pelos prédios vizinhos. "Com o uso do túnel de vento, descobrimos que o projeto tinha mais pilares de sustentação que o necessário", diz Hugo Marques da Rosa, sócio da construtora Método, que ergueu o edifício, inaugurado em 1999. "Cortamos o número de pilares pela metade e economizamos 6 milhões de reais." O prédio custou 100 milhões de reais.

Germano Luders
Arranha-céus na Zona Sul de São Paulo: o novo lar do capitalismo brasileiro

O exterior do prédio do BankBoston, de 28 andares e ainda em construção, ao lado do Torre Norte, exibirá cerca de 1 600 caixilhos com 13 metros quadrados de área cada um, nos quais serão instalados painéis de vidro. Essas estruturas, colocadas com o auxílio de guindastes, substituirão as paredes externas do edifício. Só esse recurso significa redução de 50% na mão-de-obra em relação aos métodos construtivos tradicionais. Pode-se dizer também que as novas construções são as primeiras globalizadas. Parcerias com empresas internacionais facilitam o acesso a materiais que não existiam por aqui. Os engenheiros do Birmann 29, prédio da Avenida Faria Lima, encomendaram vidros de grossura extra para resistir ao ruído do heliponto instalado na cobertura. Peças pré-moldadas reduziram a menos de 10% o índice de desperdício. Em geral, de tudo o que entra numa construção tradicional, 40% vai para o lixo, em forma de entulho.

O planejamento das obras e o uso de estruturas modelares acabaram com o velho problema de prumo dos prédios nacionais. A dificuldade em obter uniformidade causa defeitos grosseiros. É comum que os elevadores só sejam encomendados depois que os prédios estão prontos, pois só então os engenheiros podem saber com exatidão as dimensões do fosso. No método tradicional, o revestimento externo é usado para corrigir as diferenças de alinhamento entre o topo e a base. Com as peças pré-moldadas, o prumo é exato e tanto a instalação de revestimentos como a encomenda dos elevadores podem ser feitas com a obra ainda em pleno andamento. O resultado é um acabamento impecável, sem remendos ou improvisações. A revolução na tecnologia de construção civil brasileira é reflexo de outra mudança, a origem do dinheiro.

No passado, quando os financiamentos bancários vinham a conta-gotas, a construção vagarosa dava tempo ao incorporador para ir fazendo caixa com a venda de escritórios. Atualmente, as obras são bancadas por investidores, fundos de pensão e seguradoras com recursos para investir pesado e ansiosas para recuperar rapidamente o capital aplicado. "Eles sabem que, terminada a obra, terão rendimentos superiores a 20% sobre o capital investido, um dos negócios mais seguros do mercado", diz um empreiteiro. A morosidade da obra tradicional multiplica os gastos com pedreiros, engenheiros e arquitetos. "Hoje, a quantidade de mão-de-obra é menor e acaba sendo utilizada por um período menor de tempo", diz Teodoro Sousa Andrade, engenheiro da construtora Hochtief, responsável pelo prédio do BankBoston, obra orçada em 300 milhões de reais.

Nos últimos cinco anos, pelo menos 25 grandes prédios de escritórios foram construídos em São Paulo com tecnologia parecida com a do Torre Norte e a do BankBoston. Quase todos na mesma região próxima ao Rio Pinheiros, na Zona Sul. "São o resultado de mais um deslocamento do centro financeiro da cidade", diz o urbanista Luiz Carlos Costa, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. Nos anos 30 e 40, a maioria das empresas, bancos e escritórios estava no centro histórico. Nos anos 60, o capitalismo brasileiro transferiu-se para a Avenida Paulista. Os espigões da Paulista envelheceram e já não oferecem o que as empresas precisam. O que se quer atualmente num prédio comercial é área útil por andar superior a 800 metros quadrados. Tal fartura de espaço só é possível porque o concreto de alta resistência nas lajes e estruturas eliminou os pilares internos. Pé-direito alto, com no mínimo 3 metros, é necessário para permitir o piso elevado, sob o qual estão instalações elétricas e telefônicas, e o forro que esconde os dutos de ar-condicionado e iluminação. A nova tecnologia não barateou o custo das obras, só as tornou mais eficientes. O aluguel do metro quadrado nos novos prédios chega a ser 40% mais alto que na Avenida Paulista. Até 2004, outros treze edifícios similares serão construídos na mesma região, num investimento de mais de 2 bilhões de reais. Serão ocupados por empresas que querem prédios grandes, vistosos e, principalmente, com o prumo impecável.

 
Leo Feltran
MAIS FÁCIL, MAIS RÁPIDO

As novas tecnologias de construção permitem que o prédio do BankBoston, com 28 andares e 145 metros de altura, em São Paulo, seja erguido em três anos. Levaria quase quatro anos com técnicas convencionais

1. ESTRUTURA

Agora: concreto de alta resistência injetado em moldes previne fissuras e infiltrações. Como se obtém resistência com menor quantidade, permite formas mais esbeltas
Convencional: a resistência é obtida com quantidades maiores de concreto comum. Sujeito a desgaste, encarece a manutenção

2. FACHADAS

Agora: peças pré-moldadas são fixadas com ajuda de guindastes à medida que o prédio sobe
Convencional: é preciso esperar que toda a estrutura esteja pronta antes de iniciar o acabamento externo

3. PARTE INTERNA

Agora: dutos de ar-condicionado e paredes divisórias começam a ser instalados com o prédio ainda em construção
Convencional: esperava-se a conclusão da obra para só então dar início ao trabalho interno

4. VIDROS

Agora: produzidos com câmaras de ar entre as lâminas, facilitam o isolamento acústico e ajudam a reduzir o gasto com ar-condicionado
Convencional: lâminas comuns sem isolamento acústico ou térmico

5. CAIXILHOS

Agora: içados já montados por guindastes, são encaixados diretamente na estrutura de concreto
Convencional: montados um a um,
o que toma tempo e exige abundância de mão-de-obra

 

COM AS CORES DO ARCO-ÍRIS



Prédio no Japão: aço dourado

Combinado com vidro ou concreto, o aço inoxidável sempre imprimiu um tom de modernidade às fachadas dos edifícios. Essa característica tornou-se mais evidente nos últimos anos, com o surgimento de processos químicos que permitem colorir as superfícies espelhadas das chapas de aço. No Japão, maior consumidor mundial de aço inoxidável, cerca de 1% do aço usado em construções já é na versão colorida. Com algum atraso, o Brasil também está entrando na era do inox colorido. O uso do produto em projetos arquitetônicos e de decoração foi impulsionado com a recente inauguração da primeira fábrica nacional desse material, a Inoxcolor, em Minas Gerais. A tecnologia, desenvolvida pela Fundação Centro Tecnológico de Minas Gerais (Cetec-MG), consiste num banho eletroquímico nas chapas de aço inoxidável, a partir de descargas elétricas de alta voltagem. O processo cria uma película na superfície da lâmina de aço e, de acordo com a intensidade da corrente elétrica, as cores vão aparecendo, em tonalidades de bronze, azul, dourado, púrpura, verde, marrom, preto e grafite.

O principal atrativo é o preço: 1 metro quadrado de aço inox colorido nacional custa 140 reais – cerca de um quarto do valor do produto importado. "O aço inoxidável colorido abriu um formidável leque de opções para os arquitetos", diz Sérgio Parada, diretor do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB). O material também é amplamente utilizado na decoração de ambientes e até em peças de arte. A mostra que festeja os 50 anos da Bienal de Arte de São Paulo exibe uma sala em inox colorido, batizada de "Cityscape". A obra nada mais é que uma sala de espera com cadeiras, de onde será possível contemplar a paisagem do Parque do Ibirapuera refletida no grande espelho verde formado pelas paredes revestidas com aço inoxidável. "O aço reflete e absorve tudo que está a sua volta", diz a artista plástica e professora do departamento de Artes Plásticas da USP Ana Tavares, que assina a obra.

 

   
 
   
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