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Edição 1 701 - 23 de maio de 2001
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Bisturi itinerante

Em busca de mercado, cirurgiões
plásticos desbravam o interior

 

Fotos Oscar Cabral
Fotos Oscar Cabral
Karina, Jorge e Alícia: plástica em família com o "estrangeiro" Hvenegaard

Os números confirmam a explosão: a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) tem registrados atualmente 3.500 especialistas, um aumento de 130% em dez anos. Como a maior parte deles se formou e abriu consultório nas capitais (823 só em São Paulo), a oferta de profissionais nesses grandes centros atingiu níveis que nem mesmo a paixão das brasileiras (o.k., os homens também) pelas cirurgias estéticas consegue equiparar à procura. A saída, movida pela eterna e invisível mão do mercado, tem sido literalmente a estrada: cada vez mais cirurgiões plásticos fazem viagens periódicas ao interior, onde encontram uma clientela ávida. "A migração para pequenas cidades está em alta porque lá existe uma demanda que não difere em nada da das capitais", analisa o presidente da SBCP, Luiz Carlos Garcia.

"No interior há sempre pacientes prontas para se operar", concorda, com satisfação evidente, o cirurgião André Auersvald, que uma vez a cada dois meses percorre de carro os 350 quilômetros que separam seu consultório, em Curitiba, da cidade de Faxinal, no norte do Paraná. Com ele seguem duas instrumentadoras e mais os equipamentos. No hospital particular da cidade, atende quinze pacientes por dia e realiza cinco cirurgias, em média. O tratamento mais comum é o de aplicação de Botox (400 a 800 reais), para sulcos na região da testa. Seguem-se procedimentos mais complexos, como lipoaspiração (2.500 a 4.500 reais) e lifting para rejuvenescer o rosto (3.500 a 5.000 reais). A procura por seus serviços é tanta que ele atende também na vizinha Ivaiporã. "Se a clientela diminui em Curitiba, compenso aumentando o número de viagens ao interior", diz.

 
Joel Rocha
Auersvald e equipe de partida para Faxinal: atrás do movimento

O fato de o médico não morar na cidade não incomoda as pacientes – pelo contrário, até lhe confere certo charme. "O importante é saber que, se precisar, posso contar com ele", diz Climênia Del Fraro Rabelo, 49 anos, que, depois de muito procurar, na capital, um cirurgião de confiança para um lifting, foi encontrá-lo em sua cidade, Varginha, sul de Minas Gerais: Marcelo Sampaio, estabelecido em São Paulo e passageiro toda quinta-feira do turboélice da empresa Pantanal que em cinqüenta minutos o leva até a cidade mineira. Lá, atende cinqüenta pessoas (consulta: 100 reais) e realiza oito cirurgias por semana, o equivalente a 30% do movimento do consultório paulistano. Climênia, por exemplo, voltou um ano depois para uma lipoescultura e ainda levou a irmã, Liliana Del Fraro Mota, 45 anos, para reduzir os seios e dar uma encolhida na barriga.


Rogério Voltan
As irmãs Liliana e Climênia: lifting e lipo em Varginha


Se a cidade visitada pelo médico da capital já conta com cirurgiões plásticos, é inimizade na certa: por mais gabaritado que seja o plástico local, as mulheres dão preferência ao "estrangeiro" por acreditarem que sua técnica será mais moderna e sofisticada. Em muitos casos, é mesmo. Radicada em Belo Horizonte, a cirurgiã Julieta Neiva Batista especializou-se nos Estados Unidos e aplica o que aprendeu nas consultas que oferece em Paracatu, 500 quilômetros ao norte da capital mineira. "Trazemos o que há de mais recente em tecnologia e acabamos equipando os hospitais do interior", explica. Além da economia de viagem, outra vantagem da plástica perto de casa é a chance de receber cuidados da família durante o pós-operatório. Mais uma: "Convalescer em um hospital da capital sai caro também", diz Ana Beatriz Pacheco, professora de 35 anos, natural de Resende, a 250 quilômetros do Rio de Janeiro. Ana Beatriz esperou duas décadas para aumentar o sutiã do tamanho 38 para o 42 – obra do médico Paulo Hvenegaard, que se reveza entre o consultório-sede de São Paulo e a clínica fluminense, que visita todo fim de semana.

Mostrar e apalpar – A animada sala de espera de Hvenegaard em Resende parece uma reunião de madames (e uns poucos cavalheiros) para o chá das 5. "Viramos todos comadres", brinca o médico. O tenista Jorge Luis Guimarães, 19 anos, vai retirar uma cicatriz estampada em sua testa, resultado de um acidente de carro. "É visível demais", diz ele. Jorge Luis chegou ao consultório levado pela namorada, a estudante de medicina Karina Sobral Ramon, 25 anos, uma veterana do bisturi itinerante de Hvenegaard: já fez lipoaspiração de culote e, na contramão do modismo, redução de mamas, trocando o sutiã 46 pelo 42. A decisão foi apoiada pela mãe, a empresária Alícia Ramón Sobral, 58 anos – outra paciente de Hvenegaard, com quem preencheu rugas e removeu excesso de pele no abdome.

O maior cartão de visita de um médico de fora é a propaganda boca a boca. A paciente satisfeita vira fã: não só elogia como faz questão de mostrar e, quando dá, oferecer para apalpar o resultado da cirurgia. "Cada paciente é um investimento. Primar pela qualidade é garantia de que uma vai trazer outra, numa bola de neve", diz Hvenegaard. A chegada do médico itinerante põe os potenciais pacientes em polvorosa. Conhecer o doutor é motivo de orgulho social – chovem convites para festas e logo, logo o médico faz parte da alta sociedade local. "Em São Paulo, sou mais um", compara Hvenegaard. "Aqui sou o cirurgião."

 
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