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Bisturi
itinerante
Em busca de mercado,
cirurgiões
plásticos desbravam o interior
Fotos Oscar Cabral
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Fotos Oscar Cabral
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| Karina,
Jorge e Alícia: plástica em família com o "estrangeiro"
Hvenegaard |
Os números
confirmam a explosão: a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica
(SBCP) tem registrados atualmente 3.500 especialistas,
um aumento de 130% em dez anos. Como a maior parte deles se formou e abriu
consultório nas capitais (823 só em São Paulo), a
oferta de profissionais nesses grandes centros atingiu níveis que
nem mesmo a paixão das brasileiras (o.k., os homens também)
pelas cirurgias estéticas consegue equiparar à procura.
A saída, movida pela eterna e invisível mão do mercado,
tem sido literalmente a estrada: cada vez mais cirurgiões plásticos
fazem viagens periódicas ao interior, onde encontram uma clientela
ávida. "A migração para pequenas cidades está
em alta porque lá existe uma demanda que não difere em nada
da das capitais", analisa o presidente da SBCP, Luiz Carlos Garcia.
"No interior
há sempre pacientes prontas para se operar", concorda, com satisfação
evidente, o cirurgião André Auersvald, que uma vez a cada
dois meses percorre de carro os 350 quilômetros que separam seu
consultório, em Curitiba, da cidade de Faxinal, no norte do Paraná.
Com ele seguem duas instrumentadoras e mais os equipamentos. No hospital
particular da cidade, atende quinze pacientes por dia e realiza cinco
cirurgias, em média. O tratamento mais comum é o de aplicação
de Botox (400 a 800 reais), para sulcos na região da testa. Seguem-se
procedimentos mais complexos, como lipoaspiração (2.500
a 4.500 reais) e lifting para rejuvenescer
o rosto (3.500 a 5.000
reais). A procura por seus serviços é tanta que ele atende
também na vizinha Ivaiporã. "Se a clientela diminui em Curitiba,
compenso aumentando o número de viagens ao interior", diz.
Joel Rocha
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| Auersvald
e equipe de partida para Faxinal: atrás do movimento |
O fato de
o médico não morar na cidade não incomoda as pacientes
pelo contrário, até lhe confere certo charme. "O
importante é saber que, se precisar, posso contar com ele", diz
Climênia Del Fraro Rabelo, 49 anos, que, depois de muito procurar,
na capital, um cirurgião de confiança para um lifting, foi
encontrá-lo em sua cidade, Varginha, sul de Minas Gerais: Marcelo
Sampaio, estabelecido em São Paulo e passageiro toda quinta-feira
do turboélice da empresa Pantanal que em cinqüenta minutos
o leva até a cidade mineira. Lá, atende cinqüenta pessoas
(consulta: 100 reais) e realiza oito cirurgias por semana, o equivalente
a 30% do movimento do consultório paulistano. Climênia, por
exemplo, voltou um ano depois para uma lipoescultura e ainda levou a irmã,
Liliana Del Fraro Mota, 45 anos, para reduzir os seios e dar uma encolhida
na barriga.
Rogério Voltan
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| As
irmãs Liliana e Climênia: lifting e lipo em Varginha |
Se a cidade visitada pelo médico da capital já conta com
cirurgiões plásticos, é inimizade na certa: por mais
gabaritado que seja o plástico local, as mulheres dão preferência
ao "estrangeiro" por acreditarem que sua técnica será mais
moderna e sofisticada. Em muitos casos, é mesmo. Radicada em Belo
Horizonte, a cirurgiã Julieta Neiva Batista especializou-se nos
Estados Unidos e aplica o que aprendeu nas consultas que oferece em Paracatu,
500 quilômetros ao norte da capital mineira. "Trazemos o que há
de mais recente em tecnologia e acabamos equipando os hospitais do interior",
explica. Além da economia de viagem, outra vantagem da plástica
perto de casa é a chance de receber cuidados da família
durante o pós-operatório. Mais uma: "Convalescer em um hospital
da capital sai caro também", diz Ana Beatriz Pacheco, professora
de 35 anos, natural de Resende, a 250 quilômetros do Rio de Janeiro.
Ana Beatriz esperou duas décadas para aumentar o sutiã do
tamanho 38 para o 42 obra do médico Paulo Hvenegaard, que
se reveza entre o consultório-sede de São Paulo e a clínica
fluminense, que visita todo fim de semana.
Mostrar
e apalpar A animada sala de espera de Hvenegaard em Resende
parece uma reunião de madames (e uns poucos cavalheiros) para o
chá das 5. "Viramos todos comadres", brinca o médico. O
tenista Jorge Luis Guimarães, 19 anos, vai retirar uma cicatriz
estampada em sua testa, resultado de um acidente de carro. "É visível
demais", diz ele. Jorge Luis chegou ao consultório levado pela
namorada, a estudante de medicina Karina Sobral Ramon, 25 anos, uma veterana
do bisturi itinerante de Hvenegaard: já fez lipoaspiração
de culote e, na contramão do modismo, redução de
mamas, trocando o sutiã 46 pelo 42. A decisão foi apoiada
pela mãe, a empresária Alícia Ramón Sobral,
58 anos outra paciente de Hvenegaard, com quem preencheu rugas
e removeu excesso de pele no abdome.
O maior
cartão de visita de um médico de fora é a propaganda
boca a boca. A paciente satisfeita vira fã: não só
elogia como faz questão de mostrar e, quando dá, oferecer
para apalpar o resultado da cirurgia. "Cada paciente é um investimento.
Primar pela qualidade é garantia de que uma vai trazer outra, numa
bola de neve", diz Hvenegaard. A chegada do médico itinerante põe
os potenciais pacientes em polvorosa. Conhecer o doutor é motivo
de orgulho social chovem convites para festas e logo, logo o médico
faz parte da alta sociedade local. "Em São Paulo, sou mais um",
compara Hvenegaard. "Aqui sou o cirurgião."

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