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Verdade homérica

Mostra alemã com objetos inéditos
achados em Tróia reafirma fatos
descritos na Ilíada

Joana Calmon


Ao narrar na Ilíada a invasão de Tróia pelos gregos, Homero criou no século VIII a.C. uma das peças imortais da literatura. Nos últimos anos, graças ao trabalho dos arqueólogos, a obra começou a ganhar valor de registro histórico. Em meio às figuras mitológicas do poema épico, existe uma série de fatos verídicos. Boa parte dos achados mais significativos está reunida numa grandiosa exposição que está em cartaz na cidade de Stuttgart, na Alemanha. A mostra exibe pela primeira vez 300 peças que estavam soterradas na colina de Hissarlik, onde se localizava Tróia. Hoje a região pertence ao território turco. Tal qual nos versos, Tróia era um dos centros mais prósperos da Antiguidade e contava com uma muralha enorme para se proteger dos inimigos. "O sistema de defesa era muito sofisticado", afirmou o arqueólogo americano Brian Rose, especialista no tema. Entre os escombros dessa antiga civilização, também se encontrou uma série de objetos chamuscados, entre eles alguns muito parecidos com projéteis e pontas de lança. Para os estudiosos, são evidências de que a metrópole pode sim ter sido destruída por uma guerra de proporções semelhantes às da batalha descrita por Homero.

A possibilidade de a Ilíada conter verdades históricas foi levantada pela primeira vez em 1873. Nessa data, guiando-se por algumas descrições feitas nos versos de Homero, o explorador alemão Heinrich Schliemann conseguiu localizar em território turco as ruínas de Tróia. Deslumbrado com a descoberta, ele recolheu sem muito cuidado metodológico milhares de objetos, sobretudo jóias, do sítio arqueológico. Mesmo sem fazer estudos aprofundados, sustentou que o conjunto de peças tinha pertencido a Príamo, o rei de Tróia, um dos personagens centrais da obra de Homero. Segundo conta a Ilíada, o filho de Príamo, Páris, provocou a grande guerra ao seqüestrar na cidade de Esparta a belíssima rainha Helena.

Durante um bom tempo, as conclusões apressadas de Schliemann desacreditaram a veracidade da história. O cenário só mudou na década de 90, quando um outro time de arqueólogos, liderado pelo alemão Manfred Korfmann, dedicou-se a estudar os escombros de Tróia. Entre outros achados importantes, o grupo localizou a fortaleza que protegia a cidade. À frente da gigantesca muralha, concluiu Korfmann, havia ainda uma linha adicional de defesa formada por cercados de madeira. Segundo Homero, os gregos só conseguiram ultrapassar essa blindagem escondidos dentro de um enorme cavalo de madeira. Até hoje os cientistas não conseguiram comprovar a existência do famoso "presente de grego". Apesar disso, para relembrar essa cena marcante da Ilíada, os expositores de Stuttgart construíram uma réplica do Cavalo de Tróia. Os visitantes podem até circular dentro da peça oca – tal qual os gregos teriam feito para iludir os troianos.

 

Mito e realidade na epopéia de Tróia,
segundo os arqueólogos


AP

A exposição de Stuttgart: réplica do famoso "presente de grego"


Há indícios científicos de que tenha existido o famoso Cavalo de Tróia?
Não. Fora os relatos de poetas e alguns desenhos encontrados em objetos, não existem outras evidências da existência do "presente" que teria permitido a vitória aos gregos.

Houve realmente uma guerra entre troianos e gregos?
Sim. A maioria dos arqueólogos diz que realmente ocorreu uma batalha com dimensões parecidas com as da guerra narrada por Homero na Ilíada.

Manfred Grohe

Existem provas da existência de Príamo, o rei de Tróia, um dos personagens principais da Ilíada?
Não. Nos escombros foram encontrados objetos que pertenciam provavelmente a uma família real, mas não há nada que possa ligá-los à figura de Príamo.

A guerra acabou com a cidade de Tróia?
Sim. Há sinais claros de que, no período descrito por Homero, ocorreu uma destruição completa do local.

A Guerra de Tróia foi provocada pelo rapto de uma bela mulher?
Não. A cidade estava no meio da rota estratégica entre o Mar Negro e o Mediterrâneo e os conflitos ocorreram por motivos comerciais.

Tróia era mesmo protegida por uma grande muralha?
Sim. Em meados da década de 90 os escavadores encontraram vestígios de uma imensa barreira que circundava a cidade.

 

   
 
   
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