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Edição 1 701 - 23 de maio de 2001
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A câmara de Barretão

As belas imagens captadas
pelo repórter fotográfico
Luiz Carlos Barreto



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Barreto e Pelé, em 1959: coberturas esportivas para a revista O Cruzeiro

Luiz Carlos Barreto é o principal produtor do cinema nacional. Nas últimas quatro décadas, ele viabilizou 77 filmes, entre os quais alguns marcos, como Memórias do Cárcere, de Nelson Pereira dos Santos, e Dona Flor e Seus Dois Maridos, dirigido por seu filho, Bruno Barreto. O que nem todo mundo sabe é que, antes de se dedicar ao cinema, Barreto foi fotógrafo – e dos bons. Do início dos anos 50 a meados da década de 60, ele trabalhou como repórter de O Cruzeiro, a revista semanal de maior circulação na época. Durante esse período, fez registros históricos. Fotografou a final da Copa do Mundo de 1950, no Maracanã, a condecoração do guerrilheiro Che Guevara pelo então presidente Jânio Quadros, em 1961, e o exílio do ex-presidente Juscelino Kubitschek na Europa. Dois meses atrás, algumas dessas imagens foram expostas no Museu de Arte de São Paulo e em seguida reunidas no livro Passagem – A Memória Visual de Luiz Carlos Barreto. Impressa em edição não-comercial, a obra, de 223 páginas, deverá ser posta à venda no começo de julho pela editora Objetiva.

Durante os quase quinze anos em que trabalhou como fotojornalista, Barreto flagrou políticos, esportistas, estrelas do show biz e uma série de cenas cotidianas que soube transformar em imagens de inegável valor estético. Entremeadas por homenagens de amigos e admiradores, como Arnaldo Jabor e Armando Nogueira, as fotos do livro são organizadas de acordo com esses temas. Em 1964, Barreto decidiu largar o jornalismo. Naquele ano, ele havia sido incumbido de fotografar a chegada do presidente francês Charles De Gaulle ao Rio. "Inexplicavelmente, fomos agredidos a pontapés pelos seguranças do aeroporto, que apreenderam a câmara e confiscaram o filme", conta ele. O episódio fez com que Barreto se sentisse "velho demais" para o ofício – no entanto, ele tinha apenas 35 anos. Foi então que resolveu trabalhar com cinema. Ele já havia atuado na área, como diretor de fotografia de filmes como Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos. "Hoje, uso apenas aquelas câmaras automáticas que até um cego pode operar", brinca.

Na seção do livro dedicada a celebridades, destacam-se fotos de beldades do cinema, como Marlene Dietrich, Marilyn Monroe e Grace Kelly. Barreto fotografou Marlene no camarim do hotel Copacabana Palace antes de uma apresentação da atriz, em 1960. Segundo ele, a diva nunca havia se deixado fotografar nessa situação. "Ela permitiu a minha entrada porque, veja você, me achou um homem bonito", lembra. Marilyn, por sua vez, foi clicada em Hollywood, num jantar de gala oferecido pelos estúdios Fox. Visivelmente alcoolizada, ela flertou com as lentes de maneira um pouco desajeitada – mas ainda assim sensualíssima. Já Grace Kelly aparece, diáfana, depois da cerimônia de seu casamento com o príncipe Rainier, de Mônaco. Barreto diz que só obteve as imagens de um bom ângulo porque chegou atrasado ao evento. Minutos antes, ele estava num hotel à cata da atriz Ava Gardner, que estaria dando um escândalo de ciúmes naquela hora. Não encontrou Ava, mas acabou fotografando os noivos de uma posição que havia sido vetada a todos os outros profissionais.

Barreto também fez muitas imagens políticas e esportivas. Entre essas últimas, o forte fica por conta da cobertura da Copa de 1958, na Suécia. Cenas conhecidas, como a do capitão Bellini levantando a taça ou as comemorações de Pelé em campo, foram registradas por ele com uma proximidade impactante. Na parte política, chama a atenção o semblante desolado de Juscelino Kubitschek, que amargava na Europa o exílio imposto pelos militares. Poucas horas antes da festa de Ano-Novo, em 1969, ele apresenta-se amargurado, num parque em Paris. É também notável o registro da entrevista coletiva de Fidel Castro, em sua primeira visita ao Rio de Janeiro, em 1959. Na ocasião, Barreto se lembra de ter ouvido o ditador cubano dizer que, depois de tanto esforço revolucionário, merecia ir à forra com as belas garotas cariocas. "Fidel tinha queda pelas burguesinhas da Zona Sul", afirma.

As fotos de anônimos – velhos, crianças, trabalhadores e mendigos de vários países – são também muito expressivas. A preocupação de imortalizar o homem comum e os "excluídos", Barreto extraiu da cartilha da Magnum, a célebre agência fundada por Robert Capa e Henri Cartier-Bresson, papas do fotojornalismo que deixaram discípulos no mundo inteiro. Segundo essa escola, o fotógrafo tinha de ser um sujeito discreto, disfarçado no meio da multidão e pronto para captar o "momento decisivo" que servisse como registro universal. Para tanto, uma mudança no equipamento era fundamental. Em vez das pouco práticas Rolleiflex, era preciso usar câmaras mais leves, com lentes de 35 milímetros, que davam maior mobilidade e obrigavam o fotógrafo a chegar mais perto da cena. No Brasil, Barreto esteve entre os primeiros seguidores dessa nova maneira de exercer o ofício. E poucos até hoje se igualaram a ele.

 

CÉLEBRES

Flagrantes de estrelas de cinema, revolucionários, presidentes e príncipes

 
A atriz alemã Marlene Dietrich no camarim do Copacabana Palace e Marilyn Monroe flertando com a câmara num jantar de gala: ícones em momentos de descontração

 

O ditador cubano Fidel Castro em entrevista coletiva, durante sua primeira visita ao Brasil, em 1959: "Fidel tinha uma queda pelas burguesinhas da Zona Sul carioca"

 

A atriz Grace Kelly e o príncipe Rainier depois da cerimônia de casamento, em Mônaco, em 1956: por chegar atrasado, Barreto fez a foto de um ângulo que nenhum outro profissional conseguiu

 

O ex-presidente Juscelino Kubitschek no exílio europeu, em 1969: a solidão de um ídolo

 

ANÔNIMOS

Inspirado por Bresson e Capa, ele tentou imortalizar o homem comum

 

Criança trabalhando num mercado e outras na pesca do xaréu, fotografadas na Bahia em 1957 (acima).
Um personagem encontrado durante uma viagem ao norte do Brasil, em 1958: retratar os "excluídos" era uma das preocupações de Luiz Carlos Barreto

 

Cidadãos descansando numa praça em Milão, em 1961: na melhor tradição da agência francesa Magnum, ele andava com o equipamento a tiracolo, pronto para captar o "momento decisivo"

 

Mendigo carioca (1956, ao lado ) e um clochard parisiense (1954, acima): o francês saiu correndo atrás de Barreto depois que a foto foi feita. Queria cobrar direitos de imagem pelo flagrante

 

   
 
   
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