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Edição 1 701 - 23 de maio de 2001
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Apartheid no Caribe

Fora da vista dos turistas, ilha
do reggae
é um dos lugares
mais violentos do mundo

 
Divulgação
Cenário de ilha da fantasia na parte norte da Jamaica: 1 milhão de turistas por ano

Para mais de 1 milhão de turistas que a visitam anualmente, a Jamaica é um paraíso de praias deslumbrantes e hotéis luxuosos, rastafáris com roupas coloridas, longas tranças nos cabelos e fartura de marijuana. Isso tudo é fachada, como se um grande outdoor escondesse as mazelas da ilha caribenha. Enquanto os turistas se esbaldam no cenário de ilha da fantasia, ao som do reggae, a maioria dos 2,6 milhões de jamaicanos sofre um regime de apartheid social que se arrasta desde a independência, em 1962. A indústria do turismo, principal fonte de renda do país, concentra-se nas praias do norte, bem longe da miséria da capital, Kingston, no sul da Jamaica, onde vivem quase dois terços da população. O desemprego, que nas estatísticas oficiais é de 15%, sobe para 60% nas favelas que circundam a capital. Com mais de 900 homicídios por ano, Kingston tem uma média de sessenta assassinatos por grupo de 100.000 habitantes, uma das taxas mais altas do mundo. A brasileira é de 25 por 100.000 habitantes.


Pisco del Gaiso
A vida real na capital, Kingston: desemprego chega a 60% nas favelas


A pauta de exportações se resume à bauxita e ao café. Mesmo com os dólares do turismo, a renda per capita é igual à do Paraguai, e o país detém um recorde assustador: segundo a Anistia Internacional, sua polícia é, proporcionalmente, a que mais mata no mundo. Pelo menos 140 mortos anualmente – significa 5,3 cidadãos por grupo de 100.000 habitantes, próximo da média total de homicídios dos Estados Unidos, que é de 5,6 por grupo de 100.000. As autoridades alegam que tais mortes ocorrem em tiroteios na periferia de Kingston, controlada por gangues. Mas a maior parte dos mortos recebeu tiros nas costas, claro sinal de execução. A matança policial é tão corriqueira que parentes das vítimas criaram uma organização, Famílias contra o Estado Terrorista, para denunciar os crimes dos fardados.

Os jamaicanos tiveram de se acostumar à violência, seja do governo, seja das gangues. Até o final dos anos 70, os dois lados se misturavam, pois os principais partidos políticos, o Trabalhista e o Nacional do Povo, controlavam seus redutos com milícias armadas. Estas impuseram a lei do terror num reduto que antes pertencia aos rastafáris, os criadores do reggae, que cultuam o imperador etíope Hailé Selassié, morto em 1975, como o único Deus. Nos anos 80, os cartéis colombianos passaram a investir na Jamaica como escala para o tráfico de cocaína para os Estados Unidos. As milícias foram seduzidas pelos narcodólares e se armaram até os dentes.

Nesse clima, é natural que Francis Forbes, o chefe da força policial de 7.000 homens, tenha bons argumentos a seu favor. De 1988 para cá, 114 policiais foram mortos em ação. Um massacre ocorrido há dois meses em Braeton, distrito miserável de Kingston, demonstra que não há nada de respeitável nas atitudes da polícia. Os vizinhos viram quarenta soldados invadir um barraco e fuzilar sete jovens entre 15 e 20 anos de idade. Um deles era acusado de ter assassinado um policial dias antes. Oficialmente, a polícia diz que os jovens morreram após um "tiroteio". Um legista indicado pela Anistia Internacional constatou que eles foram executados com tiros na cabeça à queima-roupa. Longe dos hotéis e das belas praias, a lei é outra.

 
 
   
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