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Apartheid
no Caribe
Fora da vista dos turistas, ilha
do reggae é
um dos lugares
mais violentos do mundo
Divulgação
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| Cenário
de ilha da fantasia na parte norte da Jamaica: 1 milhão de turistas
por ano |
Para
mais de 1 milhão de turistas que a visitam anualmente, a Jamaica
é um paraíso de praias deslumbrantes e hotéis luxuosos,
rastafáris com roupas coloridas, longas tranças nos cabelos
e fartura de marijuana. Isso tudo é fachada, como se um
grande outdoor escondesse as mazelas da ilha caribenha. Enquanto os turistas
se esbaldam no cenário de ilha da fantasia, ao som do reggae, a
maioria dos 2,6 milhões de jamaicanos sofre um regime de apartheid
social que se arrasta desde a independência, em 1962. A indústria
do turismo, principal fonte de renda do país, concentra-se nas
praias do norte, bem longe da miséria da capital, Kingston, no
sul da Jamaica, onde vivem quase dois terços da população.
O desemprego, que nas estatísticas oficiais é de 15%, sobe
para 60% nas favelas que circundam a capital. Com mais de 900 homicídios
por ano, Kingston tem uma média de sessenta assassinatos por grupo
de 100.000 habitantes, uma das taxas mais altas do mundo. A brasileira
é de 25 por 100.000 habitantes.
Pisco del Gaiso
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| A
vida real na capital, Kingston: desemprego chega a 60% nas favelas |
A pauta de exportações se resume à bauxita e ao café.
Mesmo com os dólares do turismo, a renda per capita é igual
à do Paraguai, e o país detém um recorde assustador:
segundo a Anistia Internacional, sua polícia é, proporcionalmente,
a que mais mata no mundo. Pelo menos 140 mortos anualmente significa
5,3 cidadãos por grupo de 100.000 habitantes, próximo da
média total de homicídios dos Estados Unidos, que é
de 5,6 por grupo de 100.000. As autoridades alegam que tais mortes ocorrem
em tiroteios na periferia de Kingston, controlada por gangues. Mas a maior
parte dos mortos recebeu tiros nas costas, claro sinal de execução.
A matança policial é tão corriqueira que parentes
das vítimas criaram uma organização, Famílias
contra o Estado Terrorista, para denunciar os crimes dos fardados.
Os jamaicanos tiveram de se acostumar à violência, seja do
governo, seja das gangues. Até o final dos anos 70, os dois lados
se misturavam, pois os principais partidos políticos, o Trabalhista
e o Nacional do Povo, controlavam seus redutos com milícias armadas.
Estas impuseram a lei do terror num reduto que antes pertencia aos rastafáris,
os criadores do reggae, que cultuam o imperador etíope Hailé
Selassié, morto em 1975, como o único Deus. Nos anos 80,
os cartéis colombianos passaram a investir na Jamaica como escala
para o tráfico de cocaína para os Estados Unidos. As milícias
foram seduzidas pelos narcodólares e se armaram até os dentes.
Nesse clima, é natural que Francis Forbes, o chefe da força
policial de 7.000 homens, tenha bons argumentos a seu favor. De 1988 para
cá, 114 policiais foram mortos em ação. Um massacre
ocorrido há dois meses em Braeton, distrito miserável de
Kingston, demonstra que não há nada de respeitável
nas atitudes da polícia. Os vizinhos viram quarenta soldados invadir
um barraco e fuzilar sete jovens entre 15 e 20 anos de idade. Um deles
era acusado de ter assassinado um policial dias antes. Oficialmente, a
polícia diz que os jovens morreram após um "tiroteio". Um
legista indicado pela Anistia Internacional constatou que eles foram executados
com tiros na cabeça à queima-roupa. Longe dos hotéis
e das belas praias, a lei é outra.
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