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Edição 1 701 - 23 de maio de 2001
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A Itália elege o
homem-show

Com um discurso populista e perigosa
aliança com neofascistas, o magnata
da TV italiana Silvio Berlusconi é
escolhido primeiro-ministro

Cristiano Dias

AP
Berlusconi, o homem mais rico da Itália: agora também dono do poder


Bilionário com ares de imperador romano, Silvio Berlusconi conquistou a admiração e o voto dos italianos. De cantor profissional a homem mais rico do país, ele é uma mistura perfeita de cartola de futebol, industrial, político e dono de um império financeiro. Até seus amigos mais fiéis admitem que se trata de um megalomaníaco. Com a força de suas estações, um discurso populista e uma suspeitíssima aliança com neofascistas, Berlusconi derrotou o candidato da esquerda e chegou ao poder pela segunda vez (ele foi primeiro-ministro por 226 dias, entre maio e dezembro de 1994). A vitória no domingo 13 fora prevista nas pesquisas, mas impressiona, já que quando seu governo se desfez ele havia se transformado no alvo número 1 da Justiça italiana. Denúncias de lavagem de dinheiro, evasão fiscal, cumplicidade em homicídio, suborno e até conexões com a Máfia lhe renderam vários processos que ainda podem colocá-lo na cadeia. Os italianos não se incomodaram e o elegeram assim mesmo.

Como isso é possível? Não se deve pensar, como os jornais romanos insistem em lembrar, que o país se transformou numa república bananeira. Os italianos controlam a sexta economia do mundo. Só o faturamento da Pirelli (7,4 bilhões de dólares) é maior que o PIB de quase metade dos países do mundo. O país entrou de cabeça no mundo moderno ancorado na criatividade de suas marcas, como Gucci, Armani, Fiat e Parmalat, todas com faturamento acima de 1 bilhão de dólares. Seu ponto fraco é o sistema político. Nos últimos 56 anos, houve 58 governos, a maioria de coalizões que duraram apenas alguns meses e naufragaram em meio a disputas políticas. Com mais de quarenta partidos, que vendem seu apoio em troca de um naco de poder, o sistema freqüentemente paralisa o Parlamento e enfraquece o Executivo, algo que Berlusconi conheceu nos sete meses de seu primeiro mandato. O homem-show da TV convenceu a maioria dos italianos de que sua candidatura representava a mudança, apesar das advertências feitas por celebridades como o ator Roberto Benigni, o escritor Umberto Eco e o dramaturgo Dario Fo, Prêmio Nobel de Literatura, anti-Berlusconi declarados.

"Na maior parte do tempo os italianos gostam de acreditar em mentiras e mitos", afirma o jornalista Luigi Barzini, em seu livro Os Italianos. "O estilo de showman faz sucesso onde é produzido, mas fora dali não funciona bem, como certos vinhos." O fenômeno Berlusconi está longe de ser algo inédito na vida política italiana. A ânsia de estadistas carismáticos e promessas de restauração das glórias da Roma imperial sempre arrastaram multidões na Itália (veja quadro). O mais nefasto deles, Mussolini, assim como Berlusconi, era baixinho, bom de papo e gostava de dizer que nunca dormia para que pensassem que trabalhava sem descanso. O jeito autoritário de Berlusconi também parece ter saído dos livros de história. Durante a campanha mandou cancelar a exibição da minissérie brasileira Aquarela do Brasil, transmitida por um de seus canais com o nome de Vento di Passione. O motivo? O chefão achou que o personagem de Thiago Lacerda estava tendo atitudes esquerdistas que influenciariam os eleitores.

Com mais show biz que política, sua vitória é semelhante à Itália vista nos programas de auditório dos canais de Berlusconi: muito dinheiro, pobreza intelectual e moralismo de fachada. Ele é dono de três redes de televisão da Itália e, quando assumir o governo, passará a controlar as outras três que existem na TV aberta, que pertencem à estatal RAI. Dono de uma fortuna estimada em 13 bilhões de dólares – uma das vinte maiores do mundo –, seu conglomerado se estende por tantos ramos comercias que é impossível que qualquer decisão governamental não afete seus negócios. O grupo Fininvest, fundado por ele há 25 anos para controlar seus empreendimentos, engloba o Milan, um dos mais tradicionais clubes de futebol do país, a Mondadori, maior editora da Itália, várias empresas de comunicação, bancos, seguradoras e outros negócios imobiliários.

Berlusconi vai precisar de muito mais que uma gorda conta bancária para domar os dois principais aliados da coalizão eleita. O primeiro, Gianfranco Fini, líder da Aliança Nacional, acha o ditador fascista Benito Mussolini o maior estadista que a Itália já teve. O segundo, Umberto Bossi, que controla a Liga Norte, é fã do xenófobo austríaco Joerg Haider. Esses aliados querem influir num tema quentíssimo: o tratamento dado à imigração. Se os italianos ganharam o mundo com o êxodo de 26 milhões de pessoas, no século XX, hoje o país envelheceu. Ao lado do Japão, a Itália tem a população mais velha do planeta, com média de idade de 40 anos. A fecundidade, de 1,2 filho por mulher, é das menores do mundo. Em 1999, o país registrou 570.000 óbitos e 526.000 nascimentos, um déficit de 44.000 pessoas. A ONU estima que a Itália precise abrir suas fronteiras para 7 milhões de imigrantes nos próximos 25 anos, sob pena de se tornar um país com mais inativos que ativos. A idéia causa arrepios no trio Berlusconi-Bossi-Fini, que culpa, com altas doses de racismo, os 3 milhões de imigrantes que vivem no país pelo índice de 10% de desemprego. O problema, evidentemente, está em outro lugar: o abismo socioeconômico que existe entre o norte, industrializado, e o sul, com um número de desempregados duas vezes maior e onde vivem mais de 60% da população pobre do país. A vitória dessa aliança suspeitíssima pegou a União Européia de calças na mão. No ano passado, por motivos idênticos, a Áustria sofreu sanções aprovadas por seus catorze parceiros quando a coalizão de Haider chegou ao poder. Dessa vez, os europeus preferiram outro discurso. Em parte porque esse tipo de pirraça diplomática só aumentou a popularidade de Haider, mas essencialmente porque perceberam a tempo que a Itália não é a Áustria. Nesse caso vale a pena esperar para ver quanto tempo vai durar o governo Berlusconi. A média italiana é de onze meses.

 

O FASCÍNIO ITALIANO PELAS
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