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A Itália
elege o
homem-show
Com
um discurso populista e perigosa
aliança com neofascistas, o magnata
da TV italiana Silvio Berlusconi é
escolhido primeiro-ministro

Cristiano
Dias
AP
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| Berlusconi,
o homem mais rico da Itália: agora também dono do poder |
Bilionário com ares de imperador romano, Silvio Berlusconi conquistou
a admiração e o voto dos italianos. De cantor profissional
a homem mais rico do país, ele é uma mistura perfeita de
cartola de futebol, industrial, político e dono de um império
financeiro. Até seus amigos mais fiéis admitem que se trata
de um megalomaníaco. Com a força de suas estações,
um discurso populista e uma suspeitíssima aliança com neofascistas,
Berlusconi derrotou o candidato da esquerda e chegou ao poder pela segunda
vez (ele foi primeiro-ministro por 226 dias, entre maio e dezembro de
1994). A vitória no domingo 13 fora prevista nas pesquisas, mas
impressiona, já que quando seu governo se desfez ele havia se transformado
no alvo número 1 da Justiça italiana. Denúncias de
lavagem de dinheiro, evasão fiscal, cumplicidade em homicídio,
suborno e até conexões com a Máfia lhe renderam vários
processos que ainda podem colocá-lo na cadeia. Os italianos não
se incomodaram e o elegeram assim mesmo.
Como isso é possível? Não se deve pensar, como os
jornais romanos insistem em lembrar, que o país se transformou
numa república bananeira. Os italianos controlam a sexta economia
do mundo. Só o faturamento da Pirelli (7,4 bilhões de dólares)
é maior que o PIB de quase metade dos países do mundo. O
país entrou de cabeça no mundo moderno ancorado na criatividade
de suas marcas, como Gucci, Armani, Fiat e Parmalat, todas com faturamento
acima de 1 bilhão de dólares. Seu ponto fraco é o
sistema político. Nos últimos 56 anos, houve 58 governos,
a maioria de coalizões que duraram apenas alguns meses e naufragaram
em meio a disputas políticas. Com mais de quarenta partidos, que
vendem seu apoio em troca de um naco de poder, o sistema freqüentemente
paralisa o Parlamento e enfraquece o Executivo, algo que Berlusconi conheceu
nos sete meses de seu primeiro mandato. O homem-show da TV convenceu a
maioria dos italianos de que sua candidatura representava a mudança,
apesar das advertências feitas por celebridades como o ator Roberto
Benigni, o escritor Umberto Eco e o dramaturgo Dario Fo, Prêmio
Nobel de Literatura, anti-Berlusconi declarados.
"Na
maior parte do tempo os italianos gostam de acreditar em mentiras e mitos",
afirma o jornalista Luigi Barzini, em seu livro Os Italianos. "O
estilo de showman faz sucesso onde é produzido, mas fora dali não
funciona bem, como certos vinhos." O fenômeno Berlusconi está
longe de ser algo inédito na vida política italiana. A ânsia
de estadistas carismáticos e promessas de restauração
das glórias da Roma imperial sempre arrastaram multidões
na Itália (veja quadro).
O mais nefasto deles, Mussolini, assim como Berlusconi, era baixinho,
bom de papo e gostava de dizer que nunca dormia para que pensassem que
trabalhava sem descanso. O jeito autoritário de Berlusconi também
parece ter saído dos livros de história. Durante a campanha
mandou cancelar a exibição da minissérie brasileira
Aquarela do Brasil, transmitida por um de seus canais com o nome
de Vento di Passione. O motivo? O chefão achou que o personagem
de Thiago Lacerda estava tendo atitudes esquerdistas que influenciariam
os eleitores.
Com mais show biz que política, sua vitória é semelhante
à Itália vista nos programas de auditório dos canais
de Berlusconi: muito dinheiro, pobreza intelectual e moralismo de fachada.
Ele é dono de três redes de televisão da Itália
e, quando assumir o governo, passará a controlar as outras três
que existem na TV aberta, que pertencem à estatal RAI. Dono de
uma fortuna estimada em 13 bilhões de dólares uma
das vinte maiores do mundo , seu conglomerado se estende por tantos
ramos comercias que é impossível que qualquer decisão
governamental não afete seus negócios. O grupo Fininvest,
fundado por ele há 25 anos para controlar seus empreendimentos,
engloba o Milan, um dos mais tradicionais clubes de futebol do país,
a Mondadori, maior editora da Itália, várias empresas de
comunicação, bancos, seguradoras e outros negócios
imobiliários.
Berlusconi vai precisar de muito mais que uma gorda conta bancária
para domar os dois principais aliados da coalizão eleita. O primeiro,
Gianfranco Fini, líder da Aliança Nacional, acha o ditador
fascista Benito Mussolini o maior estadista que a Itália já
teve. O segundo, Umberto Bossi, que controla a Liga Norte, é fã
do xenófobo austríaco Joerg Haider. Esses aliados querem
influir num tema quentíssimo: o tratamento dado à imigração.
Se os italianos ganharam o mundo com o êxodo de 26 milhões
de pessoas, no século XX, hoje o país envelheceu. Ao lado
do Japão, a Itália tem a população mais velha
do planeta, com média de idade de 40 anos. A fecundidade, de 1,2
filho por mulher, é das menores do mundo. Em 1999, o país
registrou 570.000 óbitos e 526.000 nascimentos, um déficit
de 44.000 pessoas. A ONU estima que a Itália precise abrir suas
fronteiras para 7 milhões de imigrantes nos próximos 25
anos, sob pena de se tornar um país com mais inativos que ativos.
A idéia causa arrepios no trio Berlusconi-Bossi-Fini, que culpa,
com altas doses de racismo, os 3 milhões de imigrantes que vivem
no país pelo índice de 10% de desemprego. O problema, evidentemente,
está em outro lugar: o abismo socioeconômico que existe entre
o norte, industrializado, e o sul, com um número de desempregados
duas vezes maior e onde vivem mais de 60% da população pobre
do país. A vitória dessa aliança suspeitíssima
pegou a União Européia de calças na mão. No
ano passado, por motivos idênticos, a Áustria sofreu sanções
aprovadas por seus catorze parceiros quando a coalizão de Haider
chegou ao poder. Dessa vez, os europeus preferiram outro discurso. Em
parte porque esse tipo de pirraça diplomática só
aumentou a popularidade de Haider, mas essencialmente porque perceberam
a tempo que a Itália não é a Áustria. Nesse
caso vale a pena esperar para ver quanto tempo vai durar o governo Berlusconi.
A média italiana é de onze meses.
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O
FASCÍNIO ITALIANO PELAS
PROMESSAS DE GRANDEZA
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| COLA
DI RIENZO: chegou ao poder no século XIV com a promessa
de reviver a Roma imperial |
GIROLAMO
SAVONAROLA: dominicano do século XV, proclamou uma república
em Florença e declarou Deus como soberano |
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