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Uma
conquista ameaçada
Vitorioso no combate à Aids, o
governo controla
mal os testes
para bancos de sangue
Marcelo Carneiro
Selmy Yassuda
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| INCQS,
o laboratório que testa os kits: nem tudo que está no mercado foi
analisado |
Nos
últimos anos, o Brasil colecionou conquistas notáveis em
uma área sensível, a saúde pública. Iniciativas
como o programa de combate à Aids e a abertura do mercado aos remédios
genéricos melhoraram o desempenho do sistema e ajudaram a projetar
no exterior a imagem de um país organizado e que sabe cuidar de
sua população carente. Na semana passada, em Genebra, durante
a Assembléia Mundial de Saúde, o Brasil experimentou o primeiro
revés na guerra contra a Aids. A proposta brasileira, idealizada
pelo ministro da Saúde, José Serra, de ampliação
do acesso a medicamentos nos países em desenvolvimento foi duramente
atacada. As maiores críticas partiram da indústria farmacêutica
mundial, que lançou suspeitas sobre a qualidade da produção
nacional de remédios, especialmente os compostos usados no ataque
à Aids. No fim, a proposta brasileira foi aprovada, mas o episódio
mostra que ainda há muitos desafios a enfrentar. Um deles é
o controle da qualidade de medicamentos e produtos de diagnóstico.
Nesse setor, o governo ainda está patinando. Nem mesmo a criação
da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, em abril
de 1999, conseguiu impor regras mais claras a um mercado que movimenta
centenas de milhões de dólares, mas permanece imune a mecanismos
de fiscalização mais rigorosos.
Durante duas semanas, VEJA fez um levantamento do controle de qualidade
dos testes de diagnóstico disponíveis no mercado brasileiro.
São produtos que detectam a presença do vírus da
Aids e de doenças graves como hepatite e mal de Chagas. Por lei,
esses testes devem ser submetidos a fiscalização severa.
Na prática, não é isso que vem acontecendo. Uma portaria
da antiga Secretaria de Vigilância Sanitária, assinada em
1996 e regulamentada em 1998, estabelece padrões rígidos
de monitoramento. Segundo a lei, todos os chamados kits de testes usados
em bancos de sangue classificados na portaria como Grupo D
deveriam passar por uma análise laboratorial antes de entrar no
mercado. Hoje, esse controle está sob a responsabilidade da agência,
que escolheu um laboratório de referência nacional, o Instituto
Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS), ligado à
Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), como o único responsável
por essas análises. Cláudio Maierovitch, diretor adjunto
da agência, garante que a partir de 1999 todos os kits para diagnóstico
de cinco doenças Aids, sífilis, hepatite B e C, Chagas
e HTLV, este último um vírus associado a uma doença
neurológica e à leucemia passaram por análise
prévia do INCQS. O levantamento de VEJA, porém, mostra que
há buracos nessa estatística. Em 1999, por exemplo, menos
de 20% dos kits que conseguiram o registro passaram por análise
prévia. Nos anos seguintes, esse índice teve uma pequena
melhora (veja
quadro).
O problema é que os registros têm validade de cinco anos.
Ou seja, um produto que não passou por análise, mas ganhou
registro em 1999, continuará livremente no mercado até 2004.
Esses
números são resultado de um cruzamento de informações.
A partir de uma listagem oficial fornecida pela empresa Stahl Informática,
que possui um banco de dados sobre saúde no país, com base
em informações publicadas no Diário Oficial,
foi possível descobrir quantos testes conquistaram registro na
Vigilância, desde 1999. Uma segunda lista, com os dados sobre as
análises feitas pelo INCQS, mostrou que esse número é
bem inferior à concessão de registros pela agência.
Cláudio Maierovitch reconhece que, no momento, a Vigilância
não tem como explicar essa diferença, especialmente em relação
a 1999. "Esse é um arquivo da antiga Secretaria de Vigilância
e não obedece a nenhuma ordem, o que torna impossível a
imediata checagem dos dados", justifica o diretor. Esse é, aliás,
um problema que pouco tem a ver com o Ministério da Saúde.
Por definição, agências reguladoras como a de vigilância
sanitária são órgãos autônomos, criados
justamente para que tenham independência na fiscalização
dos setores a que pertencem. De qualquer modo, a falha no monitoramento
dos testes coloca o governo em uma situação incômoda
e ameaça uma política que, até o momento, vem apresentando
resultados aplaudidos internacionalmente.
Lindauro Gomes/AE
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| O
ministro José Serra: embate com a indústria de remédios em Genebra |
O controle de qualidade dos kits de diagnóstico é um assunto
polêmico, inclusive entre os especialistas da área médica.
Em tese, a portaria que regula esse controle estabelece que até
mesmo os testes para indicar o tipo de sangue de uma pessoa ou uma dosagem
de colesterol deveriam passar por alguma análise. A Vigilância,
porém, restringiu o controle apenas a um grupo de doenças
de maior risco, por causa da pouca capacitação dos laboratórios
públicos brasileiros para fazer um teste completo dos produtos.
"É uma opção correta, em virtude das deficiências
do sistema", analisa Oscar Berro, ex-diretor do laboratório Noel
Nutels e atual superintendente de Saúde do Estado do Rio de Janeiro.
A estratégia, porém, é como um cobertor curto. Deixa
de fora uma série de testes que fazem parte do dia-a-dia de qualquer
pessoa que já tenha feito um exame de sangue. "Isso é muito
grave. Se o resultado de um hemograma traz um dado incorreto, isso pode
ser determinante no tratamento do paciente", explica Luiz Alberto Peregrino,
especialista na avaliação de testes de diagnóstico
e chefe do laboratório do Hospital da Universidade Federal de Santa
Catarina.
No caso específico da Aids, pelo menos 30% dos 12.000 laboratórios
no país estão aparelhados para o teste de HIV. Só
no ano passado, foram quase 3 milhões de diagnósticos na
rede pública, o que representa um gasto enorme. Uma única
licitação do Ministério da Saúde para a compra,
por parte das secretarias estaduais e municipais, de 800.000 testes de
carga viral que mede a quantidade de vírus HIV no corpo
humano pode alcançar mais de 20 milhões de dólares.
A falta de controle sobre os kits cria uma situação complicada.
"O Brasil é o único país do mundo que faz dois testes
de Aids em paralelo para detectar a infecção pelo vírus,
além do teste confirmatório. Isso é dinheiro que
poderia ser gasto no controle de qualidade", diz Orlando Ferreira, coordenador
do laboratório de doenças transmissíveis por transfusão
do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Seria um dinheiro muito
bem aplicado. Nos últimos anos, o país combateu a doença
com uma disposição invejável, reduzindo em 50% o
número de mortes em função da transmissão
pelo HIV. Boa parte desse resultado deve-se ao esforço no controle
de qualidade dos bancos de sangue brasileiros, que em tempos não
muito distantes eram sinônimo de contaminação. Um
olhar mais atento sobre a qualidade dos kits de teste disponíveis
no mercado certamente tornará esses índices ainda melhores.
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