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Edição 1 701 - 23 de maio de 2001
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Pronto para a renúncia

ACM admite renunciar, mas sua
Bahia não é mais a mesma

Malu Gaspar, de Brasília


Ana Araujo
ACM: em caso de renúncia, decidirá se disputa o governo da Bahia ou se tenta voltar ao Senado em 2002

Está decidido. Se os aliados e orixás não reverterem a tendência à cassação, o senador Antonio Carlos Magalhães renunciará a seu mandato nesta semana e tomará o avião de volta para a Bahia. A decisão, que vinha sendo amadurecida nos últimos dias, ganhou corpo na semana passada com a apresentação do relatório do senador Saturnino Braga. Relator do caso da violação do painel eletrônico do Senado, Saturnino redigiu trinta páginas sobre o assunto e pediu a abertura de um processo de cassação do mandato de ACM e de José Roberto Arruda, o tucano e líder do governo que virou ex-tucano, ex-líder e também está a um passo de virar ex-senador. O relatório será apreciado pelos dezesseis membros do Conselho de Ética do Senado nesta quarta-feira. Será a data-limite para que ACM e Arruda renunciem sem perder os direitos políticos até 2011, como acontecerá caso venham a ser cassados.

"Vou até o limite", comentava ACM na semana passada. O limite inclui visitas a senadores que, até pouco tempo atrás, eram seus desafetos escancarados. Tentando convencer seus pares de que sua falta foi menor, e que a pena de cassação é exagerada, ACM telefonou até para o gabinete do peemedebista Ney Suassuna, um dos membros do Conselho de Ética, com quem chegou a trocar sopapos no plenário do Senado há cinco anos e a quem costumava referir-se como "aquele idiota". No telefone, pediu para ser recebido pelo senador para uma conversa pessoal. Suassuna concordou em recebê-lo, ouviu os argumentos e, logo depois, começou a espalhar – com toda a discrição possível, é claro – que recebera um ACM "humilde e alquebrado". O peemedebista não revelou se a conversa mudou seu voto. "Digamos que fiquei sensibilizado de ver um homem como o Antonio Carlos passando por essa situação", relata Suassuna.

Na trilha de seu calvário, ACM aparenta ser apenas um espectro do trator que até alguns meses atrás trocava impropérios com o rival Jader Barbalho no Senado e disparava sua metralhadora contra o governo. Os olhos estão fundos, as palavras saem balbuciadas, quase que aos sussurros, numa conseqüência das doses de insulina que ele mesmo se aplica para controlar o diabetes. Em conversas com alguns senadores, tem-se emocionado às lágrimas e diz que, depois da morte de seu filho Luís Eduardo, nada de bom lhe aconteceu. Seus périplos pelos corredores do Senado, que antes eram acompanhados por um séquito de assessores, repórteres e curiosos em geral, agora não atraem mais do que meia dúzia de pessoas. O abatimento já o levou a algumas confusões. Na semana passada, o senador deu uma entrevista à televisão afirmando que poderia, sim, renunciar ao mandato. Um dia depois, em nova entrevista à TV, negou ter alguma vez admitido a renúncia, contrariando a irretorquível evidência de uma fita de vídeo com sua imagem e sua voz.

Batalha perdida – Para salvar a pele, ACM corre contra o tempo. Com o senador Jorge Bornhausen, presidente do PFL, dividiu a tarefa de negociar sua salvação. Bornhausen tem procurado lideranças do PMDB e do PSDB para tentar abrandar a pena do baiano. Como ACM conta com os votos de quatro dos cinco senadores do PFL que participam do Conselho de Ética, Bornhausen precisa convencer apenas outros quatro senadores. Na hipótese de Bornhausen ser bem-sucedido, ainda assim ACM não escapa da punição: seria suspenso e ficaria alguns meses de molho, mas não passaria pelo vexame da renúncia. O problema de ACM é que nem seus aliados mais próximos acreditam ser possível virar a mesa. "Ele deve renunciar quanto antes para evitar mais desgaste", diz um amigo. "Essa é uma batalha perdida." Na semana passada, VEJA ouviu onze dos dezesseis membros do conselho, nenhum deles integrante da tropa de choque de ACM. Apenas um deixou dúvida sobre como votará. Os outros dez disseram que concordam com o pedido de cassação.

Se os dezesseis senadores do conselho aprovarem o relatório de Saturnino, instalando o processo de cassação, o país assistirá a um espetáculo raríssimo: a queda, por meio da renúncia, de um dos políticos mais poderosos do país nas últimas décadas e dono de uma carreira ambígua, que a uns provoca paixão e a outros causa repulsa. Em caso de renúncia, ACM tem dito que decidirá se disputa o governo da Bahia ou se tenta voltar ao Senado em 2002. "O que eu não posso é privar a Bahia de um representante no Senado ou no governo do Estado", diz. "E a Bahia me quer eleito para um desses dois cargos." Será?

Apesar de ter 70% das intenções de voto para o governo do Estado, segundo pesquisa do Vox Populi, ACM não terá paz em seu reduto eleitoral. Na semana passada, a Bahia, que antes só reunia multidão para aplaudir e louvar o senador, vivia um rebuliço. Na quinta-feira, 20.000 pessoas voltaram às ruas de Salvador para pedir a cassação de ACM. Foi a terceira manifestação do gênero nos últimos quinze dias, mas a primeira sem nenhum incidente. As pancadarias nas ruas de Salvador vinham causando constrangimento e erodindo a imagem que ACM sempre passou ao país de que era uma unanimidade em seu Estado. Tanto que o senador até pediu ao governador que a polícia aliviasse na repressão aos atos públicos, para não dificultar ainda mais sua situação. As outras duas manifestações haviam sido reprimidas pela polícia baiana a golpes de cassetete e com bombas de gás lacrimogêneo. Tudo para evitar que os manifestantes chegassem à frente do prédio de ACM em Salvador – o que mostra que, pelo menos com a PM da Bahia, o senador ainda continua com o prestígio nas nuvens.

 
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