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Pronto para a renúncia
ACM admite
renunciar, mas sua
Bahia não é mais a mesma
Malu Gaspar,
de Brasília
Ana Araujo
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| ACM:
em caso de renúncia, decidirá se disputa o governo da
Bahia ou se tenta voltar ao Senado em 2002 |
Está
decidido. Se os aliados e orixás não reverterem a tendência
à cassação, o senador Antonio Carlos Magalhães
renunciará a seu mandato nesta semana e tomará o avião
de volta para a Bahia. A decisão, que vinha sendo amadurecida nos
últimos dias, ganhou corpo na semana passada com a apresentação
do relatório do senador Saturnino Braga. Relator do caso da violação
do painel eletrônico do Senado, Saturnino redigiu trinta páginas
sobre o assunto e pediu a abertura de um processo de cassação
do mandato de ACM e de José Roberto Arruda, o tucano e líder
do governo que virou ex-tucano, ex-líder e também está
a um passo de virar ex-senador. O relatório será apreciado
pelos dezesseis membros do Conselho de Ética do Senado nesta quarta-feira.
Será a data-limite para que ACM e Arruda renunciem sem perder os
direitos políticos até 2011, como acontecerá caso
venham a ser cassados.
"Vou até
o limite", comentava ACM na semana passada. O limite inclui visitas a
senadores que, até pouco tempo atrás, eram seus desafetos
escancarados. Tentando convencer seus pares de que sua falta foi menor,
e que a pena de cassação é exagerada, ACM telefonou
até para o gabinete do peemedebista Ney Suassuna, um dos membros
do Conselho de Ética, com quem chegou a trocar sopapos no plenário
do Senado há cinco anos e a quem costumava referir-se como "aquele
idiota". No telefone, pediu para ser recebido pelo senador para uma conversa
pessoal. Suassuna concordou em recebê-lo, ouviu os argumentos e,
logo depois, começou a espalhar com toda a discrição
possível, é claro que recebera um ACM "humilde e
alquebrado". O peemedebista não revelou se a conversa mudou seu
voto. "Digamos que fiquei sensibilizado de ver um homem como o Antonio
Carlos passando por essa situação", relata Suassuna.
Na trilha
de seu calvário, ACM aparenta ser apenas um espectro do trator
que até alguns meses atrás trocava impropérios com
o rival Jader Barbalho no Senado e disparava sua metralhadora contra o
governo. Os olhos estão fundos, as palavras saem balbuciadas, quase
que aos sussurros, numa conseqüência das doses de insulina
que ele mesmo se aplica para controlar o diabetes. Em conversas com alguns
senadores, tem-se emocionado às lágrimas e diz que, depois
da morte de seu filho Luís Eduardo, nada de bom lhe aconteceu.
Seus périplos pelos corredores do Senado, que antes eram acompanhados
por um séquito de assessores, repórteres e curiosos em geral,
agora não atraem mais do que meia dúzia de pessoas. O abatimento
já o levou a algumas confusões. Na semana passada, o senador
deu uma entrevista à televisão afirmando que poderia, sim,
renunciar ao mandato. Um dia depois, em nova entrevista à TV, negou
ter alguma vez admitido a renúncia, contrariando a irretorquível
evidência de uma fita de vídeo com sua imagem e sua voz.
Batalha
perdida
Para salvar a pele, ACM corre contra o tempo. Com o senador Jorge Bornhausen,
presidente do PFL, dividiu a tarefa de negociar sua salvação.
Bornhausen tem procurado lideranças do PMDB e do PSDB para tentar
abrandar a pena do baiano. Como ACM conta com os votos de quatro dos cinco
senadores do PFL que participam do Conselho de Ética, Bornhausen
precisa convencer apenas outros quatro senadores. Na hipótese de
Bornhausen ser bem-sucedido, ainda assim ACM não escapa da punição:
seria suspenso e ficaria alguns meses de molho, mas não passaria
pelo vexame da renúncia. O problema de ACM é que nem seus
aliados mais próximos acreditam ser possível virar a mesa.
"Ele deve renunciar quanto antes para evitar mais desgaste", diz um amigo.
"Essa é uma batalha perdida." Na semana passada, VEJA ouviu onze
dos dezesseis membros do conselho, nenhum deles integrante da tropa de
choque de ACM. Apenas um deixou dúvida sobre como votará.
Os outros dez disseram que concordam com o pedido de cassação.
Se os dezesseis
senadores do conselho aprovarem o relatório de Saturnino, instalando
o processo de cassação, o país assistirá a
um espetáculo raríssimo: a queda, por meio da renúncia,
de um dos políticos mais poderosos do país nas últimas
décadas e dono de uma carreira ambígua, que a uns provoca
paixão e a outros causa repulsa. Em caso de renúncia, ACM
tem dito que decidirá se disputa o governo da Bahia ou se tenta
voltar ao Senado em 2002. "O que eu não posso é privar a
Bahia de um representante no Senado ou no governo do Estado", diz. "E
a Bahia me quer eleito para um desses dois cargos." Será?
Apesar de
ter 70% das intenções de voto para o governo do Estado,
segundo pesquisa do Vox Populi, ACM não terá paz em seu
reduto eleitoral. Na semana passada, a Bahia, que antes só reunia
multidão para aplaudir e louvar o senador, vivia um rebuliço.
Na quinta-feira, 20.000 pessoas voltaram às
ruas de Salvador para pedir a cassação de ACM. Foi a terceira
manifestação do gênero nos últimos quinze dias,
mas a primeira sem nenhum incidente. As pancadarias nas ruas de Salvador
vinham causando constrangimento e erodindo a imagem que ACM sempre passou
ao país de que era uma unanimidade em seu Estado. Tanto que o senador
até pediu ao governador que a polícia aliviasse na repressão
aos atos públicos, para não dificultar ainda mais sua situação.
As outras duas manifestações haviam sido reprimidas pela
polícia baiana a golpes de cassetete e com bombas de gás
lacrimogêneo. Tudo para evitar que os manifestantes chegassem à
frente do prédio de ACM em Salvador o que mostra que, pelo
menos com a PM da Bahia, o senador ainda continua com o prestígio
nas nuvens.

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