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Como Cacciola chantageou
o governo
"CHICO
É UM PICARETA, UM SAFADO, UM LADRÃO"
De Salvatore
Cacciola, sobre o ex-presidente do BC, Chico Lopes
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O
bilhete que Cacciola escreveu a Chico Lopes, com o enigmático
"esquecer tudo" no final, e o banqueiro em Roma, onde está
foragido, assistindo à final do jogo de Gustavo Kuerten: uma
bazuca de chantagem |

Veja também |
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Estamos em
agosto de 1998. Com o colapso da Rússia, a economia brasileira
sente a turbulência e o mercado fica agitado. O banqueiro Salvatore
Alberto Cacciola, dono do Marka, desconfia que seus informantes junto
ao Banco Central andam lhe contando só metade do que sabem. Para
certificar-se, resolve apelar para um estratagema ilegal. Numa amistosa
conversa com Luiz Augusto Bragança, Cacciola sugere ao interlocutor
uma varredura em seus aparelhos para saber se estão grampeados.
"É por segurança", diz Cacciola, acrescentando
que conhece quem poderia fazer o serviço. Sem perceber o truque,
Bragança lhe dá os números de todos os telefones
fixos e celulares seus e dos parceiros no esquema de vazamento de informação.
Era a armadilha.
Cacciola
contrata a Warranty Security para fazer a varredura. Na empresa, trabalhava
um especialista em grampo. Ele mesmo: Temílson de Resende, o Telmo,
que mais tarde ganharia fama como suspeito número 1 de ter instalado
o grampo no BNDES. Com a escuta nos telefones de Bragança, Cacciola
passa a conhecer os meandros do esquema de vazamento do BC. Descobre que
os informantes tinham uma relação especial com o banqueiro
André Esteves, do Pactual, e repassavam dados sigilosos a outros
dois bancos cariocas. Fica sabendo que os clientes do esquema recebiam
informações mais completas que as suas. Mas, agora com domínio
sobre o que se passava, Cacciola aumentou seu cacife sobre os informantes.
E usou-o poderosamente.
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O
recibo ao lado derruba a argumentação de Cacciola de
que só se aproximou de Bragança em 1999 |
Em 9 de setembro
de 1998, o mercado estava em polvorosa com a crise russa. No dia seguinte,
o BC faria uma reunião para discutir a taxa de juros. Cacciola
queria saber tudo sobre a reunião. Despachou Bragança para
Brasília. Num jatinho da Líder Táxi Aéreo,
prefixo PT-WHC, Bragança levantou vôo do aeroporto Santos
Dumont às 21h35 e pousou em Brasília às 23h19. Foi
para o hotel Saint Paul e hospedou-se no apartamento 1029. Ao chegar,
ligou para Rubens Novaes, que se encarregava de repassar as informações
aos clientes do esquema. Discou o número 491-3329, no Rio. Falou
com Novaes durante cinqüenta minutos. O araponga de Cacciola também
gravou o conteúdo desse telefonema.
Antonio Milena
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| Jato
da Líder: Cacciola negou mas a nota fiscal
prova que o banco Marka pagou a viagem de
Bragança a Brasília em setembro de 1998 |
Na manhã
seguinte, 10 de setembro, Bragança encontrou-se com Chico Lopes.
Na mesma manhã, Chico Lopes tentou tranqüilizar o mercado.
Em entrevistas, disse que talvez nem fosse preciso aumentar os juros,
que já estavam elevados, 29% ao ano. À tarde, Bragança
tomou o mesmo jatinho da Líder de volta ao Rio mas antes
ligou para a namorada, Regina Bittencourt Sampaio, e avisou que não
poderia acompanhá-la, como estava combinado, na viagem à
Europa. "Problemas na bolsa", justificou. A namorada viajou
sozinha. O aluguel do avião de Bragança foi pago pelo Marka
de Cacciola: 10.500 reais detalhe que desmonta a versão
do banqueiro, mantida até hoje, de que só se socorreu de
Bragança em 1999. Com cartão Mastercard, Bragança
pagou o hotel: 222,83 reais. À noite, depois das 22 horas, o BC
anunciou um estratosférico aumento dos juros, de 29% para 49%.
Cacciola ficou deliciado.
Todos os
integrantes do esquema estavam deliciados. Em 22 de setembro, Bragança
mandou um fax à namorada, que se encontrava em Roma, explicando
que valera a pena o sacrifício de não acompanhá-la
na viagem. "Gostaria de comunicar que estou ficando rico, pelo menos
bem encaminhado. Nada na vida é gratuito. Perdi a viagem com você,
em compensação estou tendo ganhos materiais substanciais."
Depois, em outro fax, explicou: "A imagem correta é de um
bueiro após uma enchente. Só que aí a água
corre para fora. Comigo o aguaceiro está entrando. Que maravilha!!!
Vamos gastar (mas não agora), mas em tempo, ao redor do mundo..."
Os meses
seguintes seriam de intenso nervosismo. O mercado passou a especular,
cada vez com mais intensidade, que o real seria desvalorizado. Com base
em suas fontes, Bragança e Novaes apostavam que a guinada cambial
não aconteceria antes de fevereiro de 1999 e orientavam seus clientes
a manter suas posições. De fato, a idéia inicial
do governo era só desvalorizar a moeda em fevereiro, mas as turbulências
acabaram precipitando a mudança para 13 de janeiro de 1999. O Marka
não foi avisado a tempo e a virada cambial o levou ao naufrágio.
Parece paradoxal que Cacciola tenha naufragado por ter acesso a informação
privilegiada e não o contrário. O próprio
banqueiro já disse a amigos que não foi informado a tempo.
É provável. A adoção da banda larga que acabou
detonando a desvalorização foi precipitada pela fuga de
dólares. O Pactual não foi à lona porque nem toda
a direção do banco sabia do esquema de informação
privilegiada. A diretoria ficou dividida quanto a manter sua aposta na
estabilidade do real. Graças a isso, a instituição
acabou escapando do terremoto.
Com seu banco
triturado pela crise, Cacciola se desesperou. Numa reunião com
investidores que haviam perdido quase tudo, o banqueiro anunciou que iria
a Brasília com bala na agulha. "Estou indo a Brasília
com uma bazuca", disse. No dia seguinte à desvalorização,
tomou um jatinho para Brasília junto com Bragança e Novaes.
Na viagem, revelou aos dois qual era a bazuca: as fitas com as conversas
grampeadas mostrando o vazamento de informações. Ou eles
convenciam Chico Lopes a lhe ajudar, ou denunciaria todo o esquema, com
provas. Era o começo de uma operação de chantagem
que custaria 1 bilhão de reais aos cofres públicos. Outros
600 milhões seriam gastos para salvar outro banco, o FonteCindam.
Mas isso são outros quinhentos.
Em Brasília,
enquanto Cacciola conversava com técnicos do BC, Bragança
fazia sua parte com Chico Lopes. O então presidente resistia a
ajudar Cacciola, mas desmoronou quando Bragança lhe contou a novidade:
Cacciola tinha um pacote de fitas sobre o vazamento. Encerrada a conversa,
Bragança voltou ao hotel, o mesmo Saint Paul de quatro meses atrás,
e ligou para uma amiga. No diálogo, resumiu seu drama sem dar detalhes:
"Estou sendo chantageado". As negociações, que
resultariam na venda de dólar ao Marka por um preço inferior
ao de mercado, calculado na medida para que Cacciola perdesse o banco
mas preservasse seu patrimônio pessoal, foram tumultuadas. Cacciola
escreveu um bilhete a Chico Lopes. Pediu-lhe que tentasse fazer com que
os técnicos da fiscalização fossem menos rigorosos.
E concluía o bilhete dizendo que, se ajudado, iria recomeçar
sua vida e "esquecer tudo".
Cacciola
perdeu o banco, chegou a passar quase um mês na prisão e
hoje está foragido na Itália. Há três semanas,
de Roma, ele conversou com VEJA. Fiel à sua promessa de "esquecer
tudo", negou que esteja de posse das fitas, mas não se conteve
em falar mais abertamente sobre o esquema. "Todas as quintas-feiras
havia uma reunião na casa do Chico Lopes com os Bragança.
Chico é um picareta, um safado, um ladrão. Eles repassavam
as informações que recebiam. O Luiz (Augusto Bragança)
ficava com os banquinhos. O Sérgio (Bragança, irmão
de Luiz Augusto), com os bancões. O Pactual ganhou muito dinheiro
com as informações da turma do Chico. O único prejudicado
nessa história fui eu. Quem montou o esquema foi o Luiz Cesar (Fernandes,
ex-presidente do Pactual), que, depois de ganhar muito dinheiro, chantageou
seus sócios para vender sua parte no banco. Fui usado em toda essa
história. Só não dei um tiro na cabeça não
sei por quê. Tenho catorze fitas de reportagem de TV, um disquete
e 1 497 folhas de matérias publicadas. Estou juntando tudo para
um dia mostrar a verdade."

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