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Edição 1 701 - 23 de maio de 2001
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Como funcionava o esquema Chico Lopes


"AQUELA REUNIÃO NÃO VAI ACONTECER MAIS"
De Chico Lopes, num telefonema para Luiz Augusto Bragança
Otávio Magalhães/Ag. Estado
Luiz Bragança (abaixo, à esq.), Rubens Novaes (abaixo, à dir.) e a conta do Bank of New York, de onde uma subsidiária do Banco Pactual nas Bahamas mandava sair o pagamento ao esquema de Chico Lopes (foto acima): na divisão de tarefas, um recolhia dados sigilosos e outro os repassava aos clientes

Ana Araujo
Paulo Jares


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Estamos em fevereiro de 1999. Chico Lopes acaba de ser demitido da presidência do BC depois de ficar apenas 21 dias no cargo. Seu esquema de vazamento de informações privilegiadas, vendidas a preço de ouro no mercado, está enterrado. Chico Lopes, homem de talento reconhecido e comportamento tímido, recolhe-se a seu apartamento no Rio de Janeiro. Outro membro ativo do esquema, Luiz Augusto Bragança, compadre de Chico Lopes, está à vontade, tranqüilo. Naquele mês, decide trocar de carro. Na concessionária Gávea Veículos, no Rio, compra um Passat importado. Escolhe o modelo por telefone e pede ao vendedor que o veículo já saia emplacado. Chega com uma maleta de dinheiro, só com notas de 100 reais. Em quinze minutos, paga o carro e parte. O vendedor quase não teve tempo de chamá-lo de volta para lhe devolver um excesso de 1.100 reais.

Bragança embarcou para a Europa, alugou um apartamento em Paris e fez reservas no Dorchester, luxuoso hotel de Londres. Gastava muito em roupas, sapatos e bebidas. Em nada lembrava o sujeito que vivia com a ajuda da mãe e uma renda, segundo sua declaração à Receita, de pouco mais de 2.000 reais por mês. No dia 3 de março, Bragança desembarcou em Paris com sua namorada para uma lua-de-mel de dois meses. No mês seguinte, abril de 1999, seu mundo começou a cair. Do Brasil, seu irmão Sérgio Bragança, sócio de Chico Lopes numa consultoria, telefonou para avisar que a edição de VEJA daquela semana noticiava um escândalo: dizia que o dono do banco Marka, Salvatore Alberto Cacciola, comentara que Chico Lopes vazava informações privilegiadas no BC. Luiz Augusto estremeceu. "Eles sabem das fitas?", perguntou. Desligou o telefone e disse a sua namorada: "Estou liquidado".

As fitas a que Luiz Augusto Bragança se referia estavam – e estão até hoje – em poder de Cacciola. São resultado de um grampo telefônico clandestino e trazem conversas entre os participantes do vazamento: Chico Lopes, o próprio Bragança e o economista Rubens Novaes. Seu conteúdo revela como funcionava o esquema. E era de uma simplicidade atroz. Luiz Augusto habilitou três linhas de celulares. Uma ficou com ele, outra com Chico Lopes e a terceira com Novaes. A Polícia Federal suspeita que os números eram os seguintes: 9916-2833, 9983-5660 e 9995-5055. Como todas as linhas estavam em seu nome, Luiz Augusto achava que criara o esquema perfeito. "Se um dia quebrarem meu sigilo telefônico, o máximo que vão descobrir é que eu ligo para mim mesmo." E se divertia com sua própria engenhosidade, certo de que jamais seria pilhado traficando informação.

Numa das fitas, gravada em plena crise da Rússia, em meados de 1998, percebe-se como se operava a troca de informações. A Rússia, que já vinha dando sinais de fraqueza, finalmente entrara em colapso e, como sempre acontece, os países emergentes são os primeiros a sentir a instabilidade. Naquela altura, valia ouro saber quanto o Brasil subiria a taxa de juros para se proteger do furacão russo e conter a fuga de dólares do país. Num dos dias mais quentes da crise, Chico Lopes, então diretor de Política Monetária do BC, estava aguardando a hora de embarcar num avião no aeroporto de Brasília. Dali, disparou uma prosaica ligação de um telefone público. Discou para Luiz Augusto Bragança. A ligação foi a cobrar. Chico Lopes avisou que estava embarcando para o Rio e informou: "Aquela reunião não vai acontecer mais". Queria dizer que o Comitê de Política Monetária (Copom), único órgão com poder para definir taxa de juros, não iria se reunir. A mensagem era óbvia: se o Copom não iria se reunir, os juros não seriam alterados.

Luiz Augusto Bragança era a parte mais visível do esquema. Travestido de consultor, ele recebia as dicas de Chico Lopes e as repassava ao economista Rubens Novaes, o mercador do grupo. Cabia a Novaes manter contatos com Cacciola e demais clientes do vazamento. Nas fitas, descobre-se que um dos clientes era o banqueiro André Esteves, do Banco Pactual, do Rio. O Pactual recebia as informações sobre juros e câmbio e pagava ao grupo por intermédio de uma subsidiária nas Bahamas, paraíso fiscal no Caribe. A subsidiária é a Pactual Overseas Bank and Trust Limited. Às autoridades interessadas em detalhar essas transações aconselha-se que solicitem ao governo americano a quebra de sigilo da conta número 000 018 da Pactual Overseas, na agência 021 do Bank of New York.

Tudo começara com Rubens Novaes. Embora não fosse formalmente contratado pelo Pactual, Novaes tinha uma "parceria", como ele próprio dizia, com o banco. Nos termos da parceria, ele se encarregava de atrair grandes clientes para o Pactual e ganhava uma participação no negócio. Era fachada. Novaes jamais atraiu um único cliente para o banco. Sua função era repassar as informações que recebia de Luiz Augusto Bragança, que, por sua vez, as recebia de Chico Lopes. Nisso, o trabalho de Novaes foi espetacular. No primeiro semestre de 1998, o Pactual obteve ganhos da ordem de 100 milhões de dólares. No semestre seguinte, com a crise econômica em ebulição, o Pactual multiplicou seus ganhos em seis vezes. Num único mês, ganhou mais que a soma do semestre anterior. Desempenhos anômalos como esses sempre chamam a atenção no mercado financeiro. Os do Pactual não passaram despercebidos. O grau de acerto do Pactual no período foi motivo de ampla boataria em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Nem todo o alto comando do banco de investimentos sabia do esquema. Dez entre dez operadores do mercado comentam que a descoberta da fraude foi um dos motivos que levaram o então presidente do Pactual, Luiz Cesar Fernandes, a deixar a instituição. Procurado por VEJA, Fernandes, que hoje se dedica ao ramo de exportação, foi evasivo. "Estou fora do Pactual há dois anos e prefiro não falar nada sobre esse assunto." André Esteves, atual controlador do banco, admite que o assunto chegou a ser discutido pela diretoria, mas ressalva: "Nunca existiu esquema nenhum". Ele sustenta que os lucros do Pactual em 1998 foram normais, reconhece que falava com Luiz Augusto Bragança – "como falo com mais de cinqüenta pessoas do mercado" – e garante que da conta no Bank of New York nunca saiu dinheiro para remunerar vazadores de informação. "A conta é usada para as transações do Pactual no exterior", diz.

Em abril de 1999, quando todo o esquema de Chico Lopes começava a vir a público, Luiz Augusto Bragança vivia horas de desespero em Paris depois do telefonema de seu irmão. Queria saber se alguém tinha as fitas de Cacciola revelando o esquema. No mesmo dia, recebeu outra ligação. Era seu parceiro Rubens Novaes. O telefone tocou, mas Luiz Augusto não atendeu. Novaes deixou então um recado na secretária eletrônica: "Bragança, é o Novaes. O homem não tinha prova nenhuma. Fique tranqüilo e aproveite sua lua-de-mel".

 



 
 
   
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