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Como funcionava o
esquema Chico Lopes
"AQUELA
REUNIÃO NÃO VAI ACONTECER MAIS"
De
Chico Lopes, num telefonema para Luiz Augusto Bragança
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Otávio Magalhães/Ag.
Estado
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| Luiz
Bragança (abaixo, à esq.), Rubens Novaes (abaixo,
à dir.) e a conta do Bank of New York, de onde uma subsidiária
do Banco Pactual nas Bahamas mandava sair o pagamento ao esquema
de Chico Lopes (foto acima): na divisão de tarefas, um
recolhia dados sigilosos e outro os repassava aos clientes |
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Veja também |
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Estamos em fevereiro
de 1999. Chico Lopes acaba de ser demitido da presidência do BC depois
de ficar apenas 21 dias no cargo. Seu esquema de vazamento de informações
privilegiadas, vendidas a preço de ouro no mercado, está enterrado.
Chico Lopes, homem de talento reconhecido e comportamento tímido,
recolhe-se a seu apartamento no Rio de Janeiro. Outro membro ativo do esquema,
Luiz Augusto Bragança, compadre de Chico Lopes, está à
vontade, tranqüilo. Naquele mês, decide trocar de carro. Na concessionária
Gávea Veículos, no Rio, compra um Passat importado. Escolhe
o modelo por telefone e pede ao vendedor que o veículo já
saia emplacado. Chega com uma maleta de dinheiro, só com notas de
100 reais. Em quinze minutos, paga o carro e parte. O vendedor quase não
teve tempo de chamá-lo de volta para lhe devolver um excesso de 1.100
reais.
Bragança
embarcou para a Europa, alugou um apartamento em Paris e fez reservas
no Dorchester, luxuoso hotel de Londres. Gastava muito em roupas, sapatos
e bebidas. Em nada lembrava o sujeito que vivia com a ajuda da mãe
e uma renda, segundo sua declaração à Receita, de
pouco mais de 2.000 reais por mês. No dia 3 de março, Bragança
desembarcou em Paris com sua namorada para uma lua-de-mel de dois meses.
No mês seguinte, abril de 1999, seu mundo começou a cair.
Do Brasil, seu irmão Sérgio Bragança, sócio
de Chico Lopes numa consultoria, telefonou para avisar que a edição
de VEJA daquela semana noticiava um escândalo: dizia que o dono
do banco Marka, Salvatore Alberto Cacciola, comentara que Chico Lopes
vazava informações privilegiadas no BC. Luiz Augusto estremeceu.
"Eles sabem das fitas?", perguntou. Desligou o telefone e disse
a sua namorada: "Estou liquidado".
As fitas
a que Luiz Augusto Bragança se referia estavam e estão
até hoje em poder de Cacciola. São resultado de um
grampo telefônico clandestino e trazem conversas entre os participantes
do vazamento: Chico Lopes, o próprio Bragança e o economista
Rubens Novaes. Seu conteúdo revela como funcionava o esquema. E
era de uma simplicidade atroz. Luiz Augusto habilitou três linhas
de celulares. Uma ficou com ele, outra com Chico Lopes e a terceira com
Novaes. A Polícia Federal suspeita que os números eram os
seguintes: 9916-2833, 9983-5660 e 9995-5055. Como todas as linhas estavam
em seu nome, Luiz Augusto achava que criara o esquema perfeito. "Se
um dia quebrarem meu sigilo telefônico, o máximo que vão
descobrir é que eu ligo para mim mesmo." E se divertia com
sua própria engenhosidade, certo de que jamais seria pilhado traficando
informação.
Numa das
fitas, gravada em plena crise da Rússia, em meados de 1998, percebe-se
como se operava a troca de informações. A Rússia,
que já vinha dando sinais de fraqueza, finalmente entrara em colapso
e, como sempre acontece, os países emergentes são os primeiros
a sentir a instabilidade. Naquela altura, valia ouro saber quanto o Brasil
subiria a taxa de juros para se proteger do furacão russo e conter
a fuga de dólares do país. Num dos dias mais quentes da
crise, Chico Lopes, então diretor de Política Monetária
do BC, estava aguardando a hora de embarcar num avião no aeroporto
de Brasília. Dali, disparou uma prosaica ligação
de um telefone público. Discou para Luiz Augusto Bragança.
A ligação foi a cobrar. Chico Lopes avisou que estava embarcando
para o Rio e informou: "Aquela reunião não vai acontecer
mais". Queria dizer que o Comitê de Política Monetária
(Copom), único órgão com poder para definir taxa
de juros, não iria se reunir. A mensagem era óbvia: se o
Copom não iria se reunir, os juros não seriam alterados.
Luiz Augusto
Bragança era a parte mais visível do esquema. Travestido
de consultor, ele recebia as dicas de Chico Lopes e as repassava ao economista
Rubens Novaes, o mercador do grupo. Cabia a Novaes manter contatos com
Cacciola e demais clientes do vazamento. Nas fitas, descobre-se que um
dos clientes era o banqueiro André Esteves, do Banco Pactual, do
Rio. O Pactual recebia as informações sobre juros e câmbio
e pagava ao grupo por intermédio de uma subsidiária nas
Bahamas, paraíso fiscal no Caribe. A subsidiária é
a Pactual Overseas Bank and Trust Limited. Às autoridades interessadas
em detalhar essas transações aconselha-se que solicitem
ao governo americano a quebra de sigilo da conta número 000 018
da Pactual Overseas, na agência 021 do Bank of New York.
Tudo começara
com Rubens Novaes. Embora não fosse formalmente contratado pelo
Pactual, Novaes tinha uma "parceria", como ele próprio
dizia, com o banco. Nos termos da parceria, ele se encarregava de atrair
grandes clientes para o Pactual e ganhava uma participação
no negócio. Era fachada. Novaes jamais atraiu um único cliente
para o banco. Sua função era repassar as informações
que recebia de Luiz Augusto Bragança, que, por sua vez, as recebia
de Chico Lopes. Nisso, o trabalho de Novaes foi espetacular. No primeiro
semestre de 1998, o Pactual obteve ganhos da ordem de 100 milhões
de dólares. No semestre seguinte, com a crise econômica em
ebulição, o Pactual multiplicou seus ganhos em seis vezes.
Num único mês, ganhou mais que a soma do semestre anterior.
Desempenhos anômalos como esses sempre chamam a atenção
no mercado financeiro. Os do Pactual não passaram despercebidos.
O grau de acerto do Pactual no período foi motivo de ampla boataria
em São Paulo e no Rio de Janeiro.
Nem todo
o alto comando do banco de investimentos sabia do esquema. Dez entre dez
operadores do mercado comentam que a descoberta da fraude foi um dos motivos
que levaram o então presidente do Pactual, Luiz Cesar Fernandes,
a deixar a instituição. Procurado por VEJA, Fernandes, que
hoje se dedica ao ramo de exportação, foi evasivo. "Estou
fora do Pactual há dois anos e prefiro não falar nada sobre
esse assunto." André Esteves, atual controlador do banco,
admite que o assunto chegou a ser discutido pela diretoria, mas ressalva:
"Nunca existiu esquema nenhum". Ele sustenta que os lucros do
Pactual em 1998 foram normais, reconhece que falava com Luiz Augusto Bragança
"como falo com mais de cinqüenta pessoas do mercado"
e garante que da conta no Bank of New York nunca saiu dinheiro
para remunerar vazadores de informação. "A conta é
usada para as transações do Pactual no exterior", diz.
Em abril
de 1999, quando todo o esquema de Chico Lopes começava a vir a
público, Luiz Augusto Bragança vivia horas de desespero
em Paris depois do telefonema de seu irmão. Queria saber se alguém
tinha as fitas de Cacciola revelando o esquema. No mesmo dia, recebeu
outra ligação. Era seu parceiro Rubens Novaes. O telefone
tocou, mas Luiz Augusto não atendeu. Novaes deixou então
um recado na secretária eletrônica: "Bragança,
é o Novaes. O homem não tinha prova nenhuma. Fique tranqüilo
e aproveite sua lua-de-mel".

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