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Ele jogou o BC na
lama
A
ousadia do banqueiro Cacciola, que
gravou fitas para provar a existência de
um esquema de Chico Lopes no BC e
depois as usou para chantagear e salvar
sua pele numa crise de insolvência
Policarpo
Júnior
Lindauro Gomes/Ag. Estado

O
banqueiro Cacciola: conversas gravadas para chantagear |
Lula Marques/Folha Imagem

O
economista Chico Lopes: demitido duas semanas depois da desvalorização |

Veja também |
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O
momento mais dramático do governo do presidente Fernando Henrique
Cardoso ocorreu no dia 13 de janeiro de 1999. Uma razão é
conhecida por todos: às 9 horas daquela quarta-feira, o governo
federal anunciou o enterro definitivo da política cambial de manter
o real valorizado ante o dólar, numa decisão cujos efeitos
econômicos, políticos e sociais são sentidos até
hoje. O que ninguém sabia é que, desde aquele dia, um grupo
reduzidíssimo de altos membros do governo passou a guardar um segredo
de Estado, daqueles que só se revelam vinte anos depois da morte
de um presidente. Após quatro meses de investigação
e 22 entrevistas com catorze personagens envolvidos, VEJA desvendou peças
essenciais para o esclarecimento do mistério, que resultou na inesperada,
e até hoje inexplicada, demissão do presidente do Banco
Central apenas duas semanas depois da desvalorização.
Nas
linhas a seguir, o leitor conhecerá evidências estarrecedoramente
fortes de que:
O então presidente do Banco Central, o economista Francisco Lopes,
vendia informações privilegiadas sobre juros e câmbio
e uma parte de sua remuneração saía da conta
número 000 018, agência 021, do Bank of New York. A conta
pertencia a uma empresa do Banco Pactual, a Pactual Overseas Bank and
Trust Limited, com sede no paraíso fiscal das Bahamas. Chico Lopes,
como é conhecido, repassava as informações para dois
parceiros, que se encarregavam de levá-las aos clientes do esquema.
Os contatos entre os três eram feitos por meio de aparelhos celulares.
A Polícia Federal suspeita que os números sejam os seguintes:
021-99162833, 021-99835650 e 021-99955055.
Salvatore Alberto Cacciola, então dono do banco Marka, do Rio de
Janeiro, descobriu todo o esquema por meio de um grampo telefônico
ilegal e também passou a ter as mesmas informações
privilegiadas. As fitas, que registram as conversas grampeadas, estão
guardadas num cofre no Brasil e há cópias depositadas
num banco no exterior. Cacciola chegou a custear viagens a Brasília
para que seu contato obtivesse, pessoalmente, as informações
de Chico Lopes. Numa delas, seu contato voou do Rio a Brasília
num jatinho da Líder Táxi Aéreo (o aluguel do jato
saiu por 10 500 reais) e hospedou-se no hotel Saint Paul (a conta: 222,83
reais). Quebrado com a mudança cambial, que seu informante não
conseguiu avisar-lhe a tempo, Cacciola desembarcou em Brasília
no dia seguinte, 14 de janeiro de 1999, com o que chamou de "uma bazuca".
Ela estava carregada de chantagem: ou o BC lhe ajudava ou denunciaria
ao país a existência do esquema. O BC ajudou. Vendeu dólar
abaixo da cotação e, no fim, Cacciola levou o equivalente
a 1 bilhão de reais.
Para evitar uma crise de proporções imprevisíveis,
que levaria o Brasil ao caos, o caso foi abafado. A ajuda do BC a Cacciola
foi maquiada como sendo uma operação feita pela BB Distribuidora
de Títulos e Valores Mobiliários, uma subsidiária
do Banco do Brasil, de modo que jamais se soubesse do envolvimento do
BC na arquitetura do socorro. Duas semanas depois, Chico Lopes foi demitido,
sob a alegação oficial de que administrara a virada cambial
de forma desastrosa. O desfecho benigno do caso para os responsáveis
pela ajuda sugere fortemente que Chico Lopes saiu com a promessa de que
não seria jogado às feras. Clóvis Carvalho, então
chefe da Casa Civil, foi encarregado de monitorá-lo.
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