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Penso em mudar
"A
inibição, a
vergonha e o
sentimento de
inferioridade
são
os fundamentos da
civilização"
Estou morando
há tempo demais na mesma cidade. Quase quinze anos. O certo seria
mudar a cada dez. Mudar de cidade é a melhor coisa que alguém
pode fazer na vida. Tudo na mudança é salutar. É
uma oportunidade para se desfazer das amizades supérfluas, das
idéias arraigadas, dos maus hábitos. Quando fico muito à
vontade numa cidade, começo a largar as meias sujas na sala. Por
isso é bom mudar. Longe do próprio habitat, a gente se sente
mais inibido, mais envergonhado, mais inferiorizado. E a inibição,
a vergonha e o sentimento de inferioridade são os fundamentos da
civilização. Muito mais importantes do que a cultura ou
o avanço tecnológico, por exemplo. Se eu fosse o prefeito
de São Paulo, tentaria estabelecer um acordo com o de uma cidade
como Sydney. Todos os paulistanos mudariam para Sydney e todos os moradores
de Sydney mudariam para São Paulo. Enquanto eles consertassem nossa
cidade, nós destruiríamos a deles. Depois de dez anos, trocaríamos
novamente. Italo Calvino, no livro As Cidades Invisíveis, tem
um episódio semelhante.
Eu dizia
que moro há quase quinze anos na mesma cidade. É a quarta
da minha vida. Pensei que nunca mais iria mudar. Enganei-me. Por uma série
de circunstâncias, estou considerando a possibilidade de uma nova
mudança. Pelo menos por alguns meses ao ano. As opções
são Nova York, Roma ou Rio de Janeiro. Neste momento, estou em
Nova York. Vim dar uma cheirada. Preocupa-me sobretudo o aspecto financeiro.
Custa muito caro morar aqui. Acho que não tenho cacife. Uns amigos
moravam num quarto-e-sala no West Village. Pagavam 3.000
dólares de aluguel por mês. Agora foram despejados porque
a atriz Liv Tyler comprou o predinho em que o apartamento se situa por
4 milhões de dólares. No último número da
revista Time Out, há uma reportagem contando que os nova-iorquinos
do mundo das artes e da moda estão sendo forçados a morar
cada vez mais longe, por causa do preço dos aluguéis. Vão
para bairros como Bushwick, no Brooklyn, ou Marble Hill, no Bronx. Não
é a minha. Só venho para Nova York se puder morar ao lado
de Liv Tyler.
Além
da Time Out, tenho outros sete jornais e revistas esparramados
aqui na mesa, descrevendo as atrações culturais de Nova
York. Com uma caneta cor de laranja, assinalo escrupulosamente tudo o
que não vou fazer nesta semana, por falta de interesse, ou por
já ter feito no passado, ou por preguiça, ou por preferir
ver as finais do campeonato de basquete, ou porque sou tolo e vivo comendo
barriga. Não vou à exposição do Vermeer, no
museu Metropolitan. Não vou ao leilão de arte contemporânea
da Christie's, com a escultura do papa atingido por um meteoro, de Maurizio
Cattelan. Não vou assistir ao filme mexicano Amores Perros,
por mais elogios que um amigo tenha feito. Não vou ao show de David
Byrne, infelizmente. Não vou comprar o último livro de Paul
Theroux. Não vou à liquidação de sapatos John
Fluevog. Não vou experimentar o restaurante que serve batata-doce
japonesa com creme de amendoim. Uma cidade com tantas coisas para não
fazer só pode ser uma grande cidade. Nesse ponto, Nova York é
imbatível. Um a zero para Nova York.
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