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Edição 1 701 - 23 de maio de 2001
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Penso em mudar

"A inibição, a vergonha e o
sentimento
de inferioridade
são os fundamentos da civilização"

Estou morando há tempo demais na mesma cidade. Quase quinze anos. O certo seria mudar a cada dez. Mudar de cidade é a melhor coisa que alguém pode fazer na vida. Tudo na mudança é salutar. É uma oportunidade para se desfazer das amizades supérfluas, das idéias arraigadas, dos maus hábitos. Quando fico muito à vontade numa cidade, começo a largar as meias sujas na sala. Por isso é bom mudar. Longe do próprio habitat, a gente se sente mais inibido, mais envergonhado, mais inferiorizado. E a inibição, a vergonha e o sentimento de inferioridade são os fundamentos da civilização. Muito mais importantes do que a cultura ou o avanço tecnológico, por exemplo. Se eu fosse o prefeito de São Paulo, tentaria estabelecer um acordo com o de uma cidade como Sydney. Todos os paulistanos mudariam para Sydney e todos os moradores de Sydney mudariam para São Paulo. Enquanto eles consertassem nossa cidade, nós destruiríamos a deles. Depois de dez anos, trocaríamos novamente. Italo Calvino, no livro As Cidades Invisíveis, tem um episódio semelhante.

Eu dizia que moro há quase quinze anos na mesma cidade. É a quarta da minha vida. Pensei que nunca mais iria mudar. Enganei-me. Por uma série de circunstâncias, estou considerando a possibilidade de uma nova mudança. Pelo menos por alguns meses ao ano. As opções são Nova York, Roma ou Rio de Janeiro. Neste momento, estou em Nova York. Vim dar uma cheirada. Preocupa-me sobretudo o aspecto financeiro. Custa muito caro morar aqui. Acho que não tenho cacife. Uns amigos moravam num quarto-e-sala no West Village. Pagavam 3.000 dólares de aluguel por mês. Agora foram despejados porque a atriz Liv Tyler comprou o predinho em que o apartamento se situa por 4 milhões de dólares. No último número da revista Time Out, há uma reportagem contando que os nova-iorquinos do mundo das artes e da moda estão sendo forçados a morar cada vez mais longe, por causa do preço dos aluguéis. Vão para bairros como Bushwick, no Brooklyn, ou Marble Hill, no Bronx. Não é a minha. Só venho para Nova York se puder morar ao lado de Liv Tyler.

Além da Time Out, tenho outros sete jornais e revistas esparramados aqui na mesa, descrevendo as atrações culturais de Nova York. Com uma caneta cor de laranja, assinalo escrupulosamente tudo o que não vou fazer nesta semana, por falta de interesse, ou por já ter feito no passado, ou por preguiça, ou por preferir ver as finais do campeonato de basquete, ou porque sou tolo e vivo comendo barriga. Não vou à exposição do Vermeer, no museu Metropolitan. Não vou ao leilão de arte contemporânea da Christie's, com a escultura do papa atingido por um meteoro, de Maurizio Cattelan. Não vou assistir ao filme mexicano Amores Perros, por mais elogios que um amigo tenha feito. Não vou ao show de David Byrne, infelizmente. Não vou comprar o último livro de Paul Theroux. Não vou à liquidação de sapatos John Fluevog. Não vou experimentar o restaurante que serve batata-doce japonesa com creme de amendoim. Uma cidade com tantas coisas para não fazer só pode ser uma grande cidade. Nesse ponto, Nova York é imbatível. Um a zero para Nova York.

 
 
   
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