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Edição 1 701 - 23 de maio de 2001
Entrevista: NOBUYUKI IDEI

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O pai da invenção

Sucessor de Morita na Sony promete
revolucionar o conceito de lazer e
criar robôs para ser amigos eletrônicos
das pessoas

Carlos Rydle

 

AP

"Isto não é um brinquedo. Esta máquina é um tipo de companheiro, comprada por adultos"

A Sony é responsável por três dos cinco eletrônicos que arrasaram nas prateleiras das lojas nos últimos cinqüenta anos. São eles o walkman, a câmara portátil de vídeo e o CD, produtos que mudaram de forma radical hábitos de consumo e lazer no planeta. Hoje, essa corporação gigantesca, com 180 000 funcionários em sessenta países e faturamento anual de 58,5 bilhões de dólares, é comandada por Nobuyuki Idei, de 63 anos. Na presidência da Sony desde o ano passado, ele é o sucessor de um mito, Akio Morita, fundador da empresa, morto em 1999. Formado em letras, Idei está na companhia desde 1960, quando deixou a faculdade. Amante de carros velozes e de jazz (a ponto de conhecer pelo nome os músicos de Tóquio), ele está lançando a empresa numa nova revolução tecnológica – aquela que unirá o universo dos aparelhos eletrônicos ao mundo da informática, conectando celulares, consoles de jogos, TVs e computadores numa rede, pela qual possam circular filmes, músicas, games e serviços. "Vamos nos transformar e crescer na nova sociedade que será interligada pela tecnologia da banda larga", diz. A seguir a entrevista concedida de Tóquio a VEJA:

Veja – Como se cria um produto para arrasar no mercado global?
Idei – Mais do que satisfazer as necessidades dos consumidores, o importante é que esse produto crie uma idéia completamente nova de entretenimento. Foi o que aconteceu com o walkman. Ele estabeleceu um novo conceito de lazer em que as pessoas puderam movimentar-se e ouvir música em lugares e situações novas. A câmara de vídeo portátil, a handycam, fez algo semelhante. Permitiu que qualquer pessoa pudesse manusear uma tecnologia nova. Também revolucionou hábitos e expectativas dos consumidores. Na verdade, incorporou parte do princípio da mobilidade do walkman, mas associado ao registro de imagens.

Veja – Que produto poderá causar impacto equivalente ao do walkman e das câmaras portáteis?
Idei – Acredito que essa nossa tradição em inovar permanece viva em produtos como o airboard. Trata-se de um monitor portátil de 26 centímetros. É bastante leve e permite que as pessoas assistam a programas de televisão, naveguem pela internet e enviem e recebam e-mails. A conexão com a rede não necessita de fios. O mais fantástico é a mobilidade, a exemplo do que ocorreu com o walkman e as handycams. As pessoas fazem tudo isso circulando dentro de casa.

Veja – Como nascem as idéias que se transformam em ícones entre os consumidores?
Idei – No nosso caso, é uma questão de cultura. O que fizemos foi estruturar a empresa com base em dois princípios: inovação e criatividade. Em grande parte, esse modo de produzir traduz a visão dos fundadores da companhia, Masaru Ibuka e Akio Morita. Eles idealizaram um modelo de gestão em que os empregados têm a liberdade de sonhar e perseguir idéias e sonhos. Esse é o nosso DNA corporativo. É assim que se consegue inovar permanentemente. É por isso também que continuamos sendo a empresa mais popular entre os jovens recém-formados no Japão. Também nos preocupamos em mostrar com clareza para todos os funcionários qual é o nosso DNA. Como resultado, eles são extremamente ativos em apresentar idéias, muitas inovadoras, para seus superiores e colegas.

Veja – O que um conglomerado com 180 000 funcionários faz para evitar que o dia-a-dia se transforme em algo burocrático?
Idei – De fato, as grandes corporações correm esse risco. Nós perseguimos um modelo de administração que seja ao mesmo tempo integrada e descentralizada. A empresa fornece as estratégias mais abrangentes, mas as divisões têm considerável autonomia. Como a Sony reúne diversas culturas de negócios, como equipamentos eletrônicos, entretenimento e jogos, tentamos permitir que essas culturas se desenvolvam livremente e, ao mesmo tempo, queremos conectá-las de forma criativa e lucrativa. Fazer isso funcionar é um desafio permanente.

Veja – Qual o perfil do empregado ideal para uma empresa cujo negócio é a inovação?
Idei – Estar aberto a mudanças é um atributo-chave para qualquer empregado que trabalha na Sony. Também espero que as pessoas dêem suas opiniões de forma franca e que não tenham medo de discordar de seus superiores se elas acreditam fortemente em alguma coisa.

Veja – E quanto ao perfil de um líder de um conglomerado como a Sony?
Idei – Para o verdadeiro líder de uma corporação, eu acredito que a coisa mais importante é oferecer uma visão clara do que se pretende alcançar. É essencial saber comunicar a mesma coisa para todos os integrantes da companhia e de uma maneira educada. Em uma era como a que vivemos, com rápidas e dramáticas mudanças, expor com clareza sua visão para os outros é algo importantíssimo. Outra coisa igualmente fundamental é encorajar as pessoas a aceitar novos desafios.

Veja – Como é substituir um mito como Akio Morita?
Idei – Para começar, tenho de lhe dizer que não existe substituto para o senhor Morita. Sua alegria e seu espírito de aventura continuam a animar a Sony. Agora, a empresa está se movendo para mergulhar na era da rede de comunicações. Acredito que essa mudança é necessária para consolidar a marca monumental que ele criou.

Veja – É verdade que o senhor dirige um Porsche 911 em alta velocidade, deixando em pânico seus acompanhantes?
Idei – Eu me dei um Porcshe 911 vermelho no meu sexagésimo aniversário. Eu nunca havia tido um carro tão divertido e fácil de dirigir. Todos sabem que um Porsche não é um veículo para levar você a algum lugar. É um veículo para ser dirigido apenas pelo prazer de guiar.

Veja – Os fabricantes de eletrônicos parecem apostar cada vez mais na estratégia "dois em um". É o caso de um telefone que também pode ser usado como walkman. Isso é uma tendência?
Idei – Nós estamos vendendo com sucesso produtos multifuncionais, mas nossa principal meta é mesmo desenvolver a conectividade dos eletrônicos. Queremos nos transformar até 2005 numa nova empresa que ofereça soluções para as pessoas por meio de uma rede.

Veja – A banda larga é fundamental para o funcionamento eficiente dessa rede que o senhor imagina, pois a circulação de arquivos maiores, como o conteúdo de filmes, seria lenta sem esse recurso. A disponibilidade desse meio de transmissão não é algo muito remoto?
Idei – Novos serviços vão surgir com o desenvolvimento da infra-estrutura de banda larga. No Japão, cabos de fibra óptica estão se espalhando rapidamente por toda a nação. Acredito que nos próximos anos a era da banda larga vai florir no país. É por isso que a Sony está promovendo essas mudanças.

Veja – As oscilações abruptas e as constantes quedas da Nasdaq não indicam que a nova economia e seus rebentos ainda precisam aprender a engatinhar?
Idei – É verdade que havia uma exuberância irracional nesse mercado, comandada por uma supervalorização das companhias pontocom. Mas é preciso observar que os efeitos essenciais da revolução da internet e da tecnologia da informação não vão desaparecer. Não importa o valor das empresas. E eles também já mudaram radicalmente o jeito de fazer negócios. Todos passam hoje pela rede.

Veja – O Aibo, o cachorrinho eletrônico que tira fotos, brinca e aprende o nome do dono, é um dos últimos grandes sucessos da Sony. Que brinquedo vai sucedê-lo?
Idei – Antes, preciso fazer uma observação. O Aibo não é um brinquedo, por mais estranho que isso possa parecer. A primeira geração custava 2 500 dólares e a segunda custa 1 500 dólares. A vasta maioria de consumidores desse cachorrinho é formada por adultos, fascinados por essa nova forma de interatividade com computadores. A máquina torna-se um tipo de companheiro. Por isso, nós estamos muito interessados em desenvolver robôs para o entretenimento. Queremos criar um ramo de negócios totalmente novo. Já temos até o protótipo de um humanóide, um robô com aspecto humano. Por enquanto, ele ainda se chama SDR-3X e não está pronto para ser colocado no mercado.

Veja – Depois de tentar acordos com a Microsoft para a transmissão de filmes pela internet, o senhor chegou a definir a companhia de seu amigo Bill Gates como uma empresa sem visão de futuro. O senhor acha que Gates carece de visão a longo prazo?
Idei – A Sony mantém uma relação muito próxima com a Microsoft em várias áreas. Nosso computador, o VAIO, usa seu sistema operacional. Em outras áreas, nós competimos diretamente. Eu defino nosso relacionamento como algo do tipo "competição e colaboração cibernéticas". Essas duas condições são simultâneas. Mas o fato é que tenho tremendo respeito pela Microsoft como companhia. Dez anos atrás, meu amigo e competidor Bill Gates me disse que o negócio dele acabaria com o meu. Ele se esqueceu de um detalhe: os 30 graus. Quem está na frente do computador fica numa posição desconfortável. Quem está se divertindo diante de uma televisão pode recostar-se a 30 graus na poltrona. A posição é mais confortável.

Veja – E quanto aos novos sistemas que permitem a transmissão de imagens pelo celular?
Idei – Já existe no Japão algo do gênero. Temos planos de lançar um telefone, com tecnologia de terceira geração, usando a banda larga como suporte. Isso deve ocorrer até o fim do ano. Mas, para ser franco, esse tipo de serviço ainda está num estágio experimental. É preliminar. O que fizemos foi lançar um telefone móvel com walkman acoplado. Atualmente, é o maior sucesso nesse tipo de aparelho no Japão.

Veja – Qual foi o passo errado que levou o Japão à estagnação que já dura uma década?
Idei – Para mim, a explicação também está na tecnologia da informação. O país não mudou com a rapidez necessária para fazer um melhor uso desse importante instrumento e entrou em recessão. Ao mesmo tempo, a economia dos Estados Unidos passou por um imenso aumento de produtividade, baseado na revolução tecnológica. Os anos 90 foram a década perdida para o Japão. Um verdadeiro colapso para a economia.

Veja – Há esperança para a economia japonesa?
Idei – O otimismo cresceu no último ano. As companhias japonesas aprenderam com americanos e europeus a tomar decisões de forma mais rápida e aberta. Aprenderam também a utilizar os novos recursos tecnológicos para tornar suas indústrias mais eficientes. As empresas eram excessivamente protegidas pelo governo. Hoje, a economia está mais aberta e liberalizada. Veja que o Japão já é líder mundial em comunicações móveis pela internet. Está aumentando o número de usuários de computador, que eram poucos. É bem capaz que o Japão ultrapasse os Estados Unidos no desenvolvimento de infra-estrutura e serviços em banda larga. São sinais de melhoria.

Veja – A perda de fôlego da economia americana ajuda ou atrapalha a recuperação do Japão?
Idei – Uma recessão nos Estados Unidos causaria impacto negativo nos negócios da Sony e de todas as outras empresas japonesas. Já estamos começando a assistir à queda na venda de produtos em várias áreas. Por outro lado, não creio que a perspectiva de recessão nos Estados Unidos seja muito clara. Além do mais, estou confiante em nossa capacidade de adaptação e inovação. A partir dela, conseguiremos um ritmo de crescimento razoável e sustentável em todos os produtos e serviços. Por via das dúvidas, já alertei nossos executivos em todo o mundo para monitorar cuidadosamente os estoques e fortalecer o desenvolvimento das linhas mais atrativas de produtos.

Veja – A Sony está se preparando para criar eletrônicos interligados numa rede global. Como isso vai funcionar?
Idei – Queremos criar o que chamamos de Sony Dream World. Essa rede vai oferecer produtos de entretenimento e serviços. Por ela, vão circular filmes, músicas e jogos, os chamados games. Para que as pessoas possam acessar essa rede, teremos quatro portais: o console PlayStation 2, a televisão digital, os telefones celulares e o computador VAIO, que tem versões portátil e de mesa. Já estamos criando alguns serviços. A Sony Pictures, por exemplo, vai lançar em breve nos Estados Unidos o Movie Fly, que permitirá o acesso a filmes. A Sony Music vai possibilitar a distribuição on-line de música. Já temos um jogo com distribuição on-line, o EverQuest, extremamente popular.

Veja – A rede oferecerá apenas produtos de entretenimento?
Idei – Vai incorporar o comércio eletrônico e, no Japão, serviços bancários e seguros. O banco começará a operar em junho oferecendo serviços completos para os clientes, que serão pessoas físicas. Vai ser o que se pode chamar de um puro banco da internet, sem nenhum tipo de infra-estrutura física. O que fizemos foi um acordo com outra instituição financeira, o Sakura Bank, para permitir o acesso dos clientes a caixas eletrônicos. Vamos também colocar uma rede de terminais em lojas de conveniência que ficam abertas 24 horas.

 
 
   
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