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Gustavo
Franco
Dióxido
de carbono
e eletricidade
"Vale
a pena observar o Protocolo
de Kioto, estabelecido
para reduzir
a emissão de dióxido de carbono.
Ele pode servir para resolver
o
problema energético
brasileiro"
Ilustração Ale Setti
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O Protocolo de Kioto, de 1997, criou um engenhoso esquema destinado a reduzir,
em escala global, a emissão de gases causadores do chamado "efeito
estufa", o principal dos quais é o dióxido de carbono (CO2).
Para nós, que estamos prestes a racionar eletricidade, vale a pena
observar de perto o mecanismo, que pode perfeitamente nos servir.
Nos termos do protocolo, 39 países se comprometeram a fazer uma
redução da ordem de uns 15% em suas emissões de CO2,
e cada um vai tratar de implementar as reduções em nível
nacional do modo como bem entender. Outros países "em desenvolvimento",
aí incluídos o Brasil, a China e a Índia, estão
liberados dessa obrigação pelo menos até 2008. A
grande novidade, todavia, consiste em permitir a negociabilidade das reduções
de emissão de CO2 entre companhias de diferentes países.
Ou seja, uma empresa que não conseguiu, ou achou caro, fazer as
reduções devidas pode apresentar a sua autoridade regulatória
nacional um "Certificado de Emissões Reduzidas" (CER) comprado
de uma outra empresa, de qualquer lugar do planeta, atestando que a vendedora
efetuou as reduções do tamanho requerido pela compradora.
Existem muitas dificuldades tanto conceituais quanto práticas na
definição de uma "redução", em cujo detalhe
não vamos entrar. O importante é ter clareza de que os incentivos
econômicos são grandes, uma vez que devem ser proporcionais
ao tamanho das reduções propostas e das multas por descumprimento.
Os empresários deste planeta, e especialmente os de fora dos 39
países obrigados a fazer reduções, facilmente descobrirão
que um CER, emitido a partir de um de seus projetos, quando atestado por
uma empresa certificadora internacional idônea, pode valer muito
dinheiro. Dessa forma, fica elevada a rentabilidade dos projetos que reduzem
emissões de CO2.
É
claro que, para o surgimento de um grande mercado mundial de CO2,
assistiremos à constituição de todas as peças
típicas de um mercado organizado: a certificação
de "qualidade" (!?) do produto, a "custódia", a segurança
da transferência de titularidade contra pagamento liquidado, o "recinto"
de negociação, os intermediários, as cotações,
os especuladores etc. Isso não ocorre do dia para a noite.
Houve certo desânimo quando o presidente Bush comunicou que os EUA
não iam aderir ao mecanismo. Todavia, o Estado de Massachusetts
resolveu implementar seu próprio programa de redução
de emissões de CO2, no que deverá ser seguido
por outros Estados americanos, provavelmente os que não são
produtores de petróleo. O Banco Mundial e também o governo
inglês resolveram constituir fundos para comprar CERs. No fim das
contas, o mercado de CO2 acabará surgindo espontaneamente,
pois já existem transações e muito dinheiro em jogo.
Bem, mas como esse mecanismo tão interessante poderia ser aplicado
no problema energético brasileiro? Tudo começa com a existência
de incentivos a quem economizar (via preço e através de
algum crédito a ser dado ao consumidor austero) combinados com
penalidades a quem gastar demais (via multa ou corte). No mecanismo de
Kioto há seletividade, ou seja, existem países isentos da
obrigação, como aqui poderíamos ter regiões
e atividades livres da obrigação de reduzir seu consumo
de energia (áreas carentes, escolas, hospitais, creches etc.) e
outras obrigadas a reduzir seu consumo, possivelmente de formas diferenciadas.
Note-se que, neste nosso caso, a "redução" é fácil
de certificar (basta ver a conta de luz), e a arte seria permitir a negociabilidade
das reduções, que passariam a ter preço. Instrumentos
semelhantes aos CERs poderiam ser comprados por quem não for capaz
de fazer seu dever de casa ou resolver pagar para não fazer. Ou
também pelo BNDES, que os trocaria, quem sabe, por cotas de um
fundo de investimento em geração de energia.
Mecanismos desse tipo podem não substituir os remédios clássicos,
e amargos, aí incluída a elevação das tarifas
e mesmo o racionamento. Mas produzem racionalização, mobilização
e economizam o dinheiro do contribuinte.
Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e
ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.inf.br)
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