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23 de abril de 2008
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Mobília moral

Como o americano Henry James fez da
decoração o tema de um grande romance


Carlos Graieb

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Trecho do livro

Publicado originalmente em 1896, Os Espólios de Poynton (tradução de Onédia Célia Pereira de Queiroz; Companhia de Bolso; 219 páginas; 19,50 reais) é o melhor romance já escrito sobre a decoração de interiores. Parece pouco? Parece fútil? Acontece que o autor, o americano Henry James, era um homem sutil. As limitações de uma história que tivesse como tema mesinhas e bibelôs eram evidentes. Assim, num estilo que os franceses chamariam de démeublé – econômico nas descrições, e portanto "sem mobília" –, ele mal se ocupou de especificar as relíquias que estão no centro da intriga. Voltou-se, em vez disso, para outra questão: a maneira como as coisas de que se é dono refletem a história e o caráter de uma pessoa.

Numa casca de noz, o enredo é o seguinte: Owen vai casar-se, e com isso herdará Poynton, uma casa repleta de objetos extraordinários. Sua mãe, no entanto, é contra o casamento. Acredita que Mona, a noiva, destruirá, com sua vulgaridade, o santuário a cuja decoração ela dedicou sua vida e seus talentos. Mrs. Gereth seqüestra a mobília para criar um impasse com o filho. Ao mesmo tempo, tenta impingir a ele outra mulher, Fleda, em quem identifica um refinamento semelhante ao seu. Fleda gosta de Owen e gosta de Poynton. Além disso, tem escrúpulos, e por isso hesita sobre como agir com aquele jovem honesto e um tanto ingênuo.

A substância moral de cada personagem feminina se torna aparente na sua relação com as riquezas de Poynton. Mrs. Gereth é dominada pela paixão por sua coleção de objetos. Ela vê tudo à sua volta com olhos de colecionadora – até mesmo Fleda, descrita a certa altura como "um de seus melhores achados". Mona avalia Poynton (e também seu noivo) por lentes pecuniárias. E Fleda? Ela não é cega a nenhum desses dois aspectos, o estético e o financeiro, mas o que mais lhe interessa é sua liberdade: até que ponto a posse de bens (ou de um marido) também vai aprisioná-la e reduzir seus horizontes? Muito do drama de Os Espólios de Poynton está ligado à falta de alternativas de vida, fora do casamento, para uma mulher do século XIX. Mas o problema "filosófico" da posse e da aquisitividade, segundo as reflexões de Fleda Vetch, é igualmente essencial ao livro. Quando James escreveu Os Espólios de Poynton, a sociedade de consumo apenas engatinhava. Pode-se dizer que o tema do livro ainda não envelheceu...



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