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Livros Por que o legado de Péricles
ao presente está
Ah, os gregos. Eles sabiam como tratar um político. Tome-se o caso de Péricles, o mais poderoso líder do século de ouro ateniense, o quinto antes de Cristo. Sua cabeçorra era alvo de piadas e o poeta Cratino não hesitou em apelidá-lo de "Zeus schinocéfalo" o deus da cabeça de cebola. Na vida privada, seu vício mulherengo foi denunciado sem pudor nem piedade. Ele usava a casa de um protegido para encontrar prostitutas e parece que seduziu até a mulher de Xantipo, seu filho. Péricles foi um pai relapso, exceto em relação ao seu último rebento. Esse nasceu de Aspásia, uma charmosa cortesã, e para registrá-lo como cidadão Péricles não hesitou em violar a lei. Seus estratagemas para cativar o povo atraíram a censura de filósofos como Sócrates, segundo o qual Péricles teria tornado os atenienses "preguiçosos e ávidos por dinheiro". O filósofo se referia não apenas à invenção, pelo célebre governante, da mistoforia o pagamento de salário aos ocupantes de um cargo oficial , mas também a benesses com verba pública instituídas por ele, como uma espécie de "bolsa-teatro" ou ingresso subvencionado para espetáculos artísticos. Pouco antes de morrer, Péricles foi condenado por peculato e teve de arcar com uma pesada multa. Sua carreira foi uma das primeiras a sugerir aos gregos o uso pejorativo da palavra "demagogo" não mais um simples condutor político, mas um manipulador das massas. Em sua "máquina administrativa", contudo, Atenas nada tem a ver com o mundo atual. Por isso, é de outra esfera que advém o legado de Péricles para o presente. Deve-se a ele a mais gloriosa defesa da democracia feita na Antiguidade: a Oração Fúnebre em homenagem aos primeiros mortos da Guerra do Peloponeso. Nesse discurso, Péricles fez o elogio de uma forma de vida calcada em valores como a igualdade perante a lei e a recompensa do mérito individual. Mais ainda: ele usou seu formidável talento retórico para cultivar nos seus ouvintes o sentimento cívico e o amor às instituições. Aí está o grande exemplo de Péricles para os governantes. O contrário disso é a falação política enroladora, a bravata de palanque, a sempre estéril e facciosa exaltação do "meu governo" sobre "o governo dos outros". Pior ainda: é política do primeiro parágrafo.
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