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Edição 2057

23 de abril de 2008
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O rei do discurso

Por que o legado de Péricles ao presente está
naquilo que ele disse, e não naquilo que ele fez


Carlos Graieb

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Trecho do livro

Ah, os gregos. Eles sabiam como tratar um político. Tome-se o caso de Péricles, o mais poderoso líder do século de ouro ateniense, o quinto antes de Cristo. Sua cabeçorra era alvo de piadas e o poeta Cratino não hesitou em apelidá-lo de "Zeus schinocéfalo" – o deus da cabeça de cebola. Na vida privada, seu vício mulherengo foi denunciado sem pudor nem piedade. Ele usava a casa de um protegido para encontrar prostitutas e parece que seduziu até a mulher de Xantipo, seu filho. Péricles foi um pai relapso, exceto em relação ao seu último rebento. Esse nasceu de Aspásia, uma charmosa cortesã, e para registrá-lo como cidadão Péricles não hesitou em violar a lei. Seus estratagemas para cativar o povo atraíram a censura de filósofos como Sócrates, segundo o qual Péricles teria tornado os atenienses "preguiçosos e ávidos por dinheiro". O filósofo se referia não apenas à invenção, pelo célebre governante, da mistoforia – o pagamento de salário aos ocupantes de um cargo oficial –, mas também a benesses com verba pública instituídas por ele, como uma espécie de "bolsa-teatro" ou ingresso subvencionado para espetáculos artísticos. Pouco antes de morrer, Péricles foi condenado por peculato e teve de arcar com uma pesada multa. Sua carreira foi uma das primeiras a sugerir aos gregos o uso pejorativo da palavra "demagogo" – não mais um simples condutor político, mas um manipulador das massas.

Tudo isso se sabe de Péricles. E, se depois de tudo isso ele ainda sobrevive com honra para a posteridade, é sinal de que teve méritos reais. Um bom retrato do homem e de sua época está no livro da historiadora francesa Claude Mossé Péricles – O Inventor da Democracia (tradução de Luciano Vieira Machado; Estação Liberdade; 261 páginas; 47 reais). O subtítulo expressa a tese central da autora: Péricles completou o desenho institucional da democracia ateniense. Sua principal contribuição foi justamente a mistoforia, aquela prática execrada por Sócrates: longe de constituir uma forma de enriquecer aliados (já que a rotação nos cargos públicos estava assegurada por lei), ela permitiu que os cidadãos pobres pudessem se ausentar do trabalho para se envolver, ao menos temporariamente, nas questões políticas.

Em sua "máquina administrativa", contudo, Atenas nada tem a ver com o mundo atual. Por isso, é de outra esfera que advém o legado de Péricles para o presente. Deve-se a ele a mais gloriosa defesa da democracia feita na Antiguidade: a Oração Fúnebre em homenagem aos primeiros mortos da Guerra do Peloponeso. Nesse discurso, Péricles fez o elogio de uma forma de vida calcada em valores como a igualdade perante a lei e a recompensa do mérito individual. Mais ainda: ele usou seu formidável talento retórico para cultivar nos seus ouvintes o sentimento cívico e o amor às instituições. Aí está o grande exemplo de Péricles para os governantes. O contrário disso é a falação política enroladora, a bravata de palanque, a sempre estéril e facciosa exaltação do "meu governo" sobre "o governo dos outros". Pior ainda: é política do primeiro parágrafo.

 

A voz da democracia

"Nosso regime político não se propõe tomar como modelo as leis de outros: antes somos modelo que imitadores. Como tudo nesse regime depende não de poucos, mas da maioria, seu nome é democracia. Nela, enquanto no tocante às leis todos são iguais para a solução de suas divergências particulares, no que se refere à atribuição de honrarias o critério se baseia no mérito e não na categoria a que se pertence; inversamente, o fato de um homem ser pobre não o impede de prestar serviços ao Estado."

Trecho da Oração Fúnebre, de Péricles, segundo o livro
A Guerra do Peloponeso, do historiador Tucídides



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