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Música Ça Ira,
composição "erudita" de Roger Waters,
ex-Pink
Às 14 horas da terça-feira passada, o músico inglês Roger Waters chegou ao Teatro Amazonas, em Manaus, com um bom repertório de vivências "típicas" da região. Ele havia pescado tucunarés. Havia feito passeios de barco para nadar com botos e avistar macacos. E também tinha apreciado um pôr-do-sol no Rio Negro, com um copo de gim-tônica nas mãos. Faltava descobrir o peculiar senso de tempo dos amazonenses, assim descrito pelo romancista Milton Hatoum, nativo do estado: "O fluxo do tempo é tão lento que a vida pode se arrastar sem pressa". Ansioso para conferir detalhes da montagem de sua ópera Ça Ira, Waters não encontrou ninguém no teatro. Só depois de vinte minutos, pontuados por bufos e imprecações ("Bastards!"), ele pôde se enfurnar numa sala ao lado do palco, de onde testou uma série de efeitos sonoros. Bem mais ao seu gosto foi a pontualidade com que, naquela noite, aconteceu a estréia do espetáculo. Às 20 horas, o músico subiu ao palco e agradeceu às autoridades do estado, em português, pela iniciativa de produzir Ça Ira. Estava aberto oficialmente o 12º Festival Amazonas de Ópera. A esta altura, o leitor talvez esteja perguntando: Roger Waters? Sim, é ele mesmo, o baixista do Pink Floyd, uma das bandas de rock mais cultuadas de todos os tempos. Ça Ira (algo como "agora vai") é uma parceria de Waters com os compositores franceses Étienne e Nadine Roda-Gil. Em 1988, eles apresentaram ao roqueiro um libreto que mostrava a história da Revolução Francesa contada por uma trupe de circo. De acordo com Waters, o presidente francês François Mitterrand teria adorado a idéia e queria apresentá-la na Ópera da Bastilha no ano seguinte, durante as comemorações do bicentenário da revolução. Uma série de problemas impediu que isso acontecesse, mas Waters não desistiu. Sete anos depois, retomou a idéia. Como não sabia escrever para orquestra, lançou mão de um programa de computador que lhe permitia simular o toque de cada instrumento. Depois, chamou o maestro inglês Rick Wentworth para dar forma final a suas idéias musicais. "Rick dizia: O solo de oboé é lindíssimo, mas o instrumento não pode soar tão alto, caso contrário o oboísta estaria com os lábios sangrando depois de tocá-lo.", conta Waters. O Festival Amazonas de Ópera já se consagrou como um dos principais eventos do mundo erudito brasileiro. Traz espetáculos de excelente nível, comandados pelo maestro Luiz Fernando Malheiro e pela Amazonas Filarmônica. Entre as óperas já apresentadas em seu palco, e antes inéditas no Brasil, contam-se, por exemplo, a tetralogia O Anel dos Nibelungos, do alemão Richard Wagner, e Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk, do russo Shostakovich. Em novembro passado uma produtora de São Paulo procurou o diretor Caetano Vilela. Disse que tinha adquirido os direitos de Ça Ira e gostaria que ele ajudasse a montar o espetáculo no Brasil. Vilela, que há dez anos trabalha no festival de Manaus, resolveu aproveitar a oportunidade para dar um toque "pop" ao evento.
O objetivo foi cumprido. Fãs do ex-grupo de Waters compareceram em peso. A paranaense Elzira Miotto, de 61 anos, gastou 1 600 reais e viajou por nove horas para assistir ao espetáculo do seu ídolo. "Pink Floyd foi a minha redenção. Eu tinha um casamento infeliz e fui salva pelos temas de The Wall", diz ela, que assistiu às montagens de Ça Ira em Roma e na cidade polonesa de Poznan, e ainda pretende vê-la em Amsterdã. Mas, como observou o colunista Rogério Pina no jornal A Crítica, de Manaus, a audiência era bem mais variada "um eclético mix que ia de senhorinhas tradicionais a roqueiros curiosos pelo novo trabalho do pink floyd Roger Waters e muitos gays, público chegado a um espetáculo do tipo". Quando informaram a Luiz Fernando Malheiro que deveria reger uma ópera de Roger Waters, ele não entendeu quem era o compositor. A menção à antiga banda de rock do compositor não ajudou muito. "Pink Floyd? Acho que meu irmão tem discos deles", disse a um dos organizadores do evento. Ao descrever Ça Ira, contudo, Malheiros foi diplomático: afirmou que se trata de "uma obra fácil de conduzir". Alguns integrantes da Amazonas Filarmônica foram bem menos condescendentes. De fato, é uma licença descrever Ça Ira como ópera. O espetáculo está mais para um musical da Broadway gênero que Waters afirma detestar. Não por acaso, os destaques do espetáculo são artistas que tinham certa experiência em musicais. É o caso do barítono brasiliense Leonardo Neiva, que trabalhou numa montagem de Les Misérables no Brasil e no México, e da soprano belenense Carmen Monarcha, parceira do holandês André Rieu (uma espécie de Kenny G do violino). Faltam à peça de Waters uma melodia mais bem estruturada e árias marcantes (a exceção é The Letter, defendida com galhardia por Leonardo Pace). Algumas seqüências são esdrúxulas a boa cantora Gabriella Pace, por exemplo, passa dois atos inteiros a dar gargalhadas na pele de Maria Antonieta. Só é redimida na cena final, quando pode mostrar sua bela voz. Os amantes do Pink Floyd podem até gostar de Ça Ira, que terá novas récitas na terça e na quinta-feira. Mas os fãs de ópera certamente jamais se interessarão por Pink Floyd se forem submetidos à obra de Roger Waters.
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