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Edição 2057

23 de abril de 2008
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Radical é ela

Maya, filha de Gabeira, é a melhor surfista
de ondas gigantes do mundo


Silvia Rogar

Fotos divulgação e Oscar Cabral
Maya de férias, no Rio, e em ação, no Taiti: tubo gigante de 10 metros

No dia 11 deste mês, Los Angeles amanheceu com outdoors que mostravam uma jovem deslizando sobre uma onda colossal e os dizeres: "Ela é a supermulher do surfe". Os cartazes foram criados pelo Los Angeles Times, o jornal de maior circulação da Califórnia, que, volta e meia, elege reportagens de destaque em suas páginas para chamar atenção nas ruas. Naquele dia, a publicidade foi dedicada a Maya Gabeira, ganhadora, pela segunda vez consecutiva, do título de melhor surfista de ondas gigantes do mundo, na categoria feminina. A supermulher em questão é carioca, tem 21 anos, mora no Havaí e, como entregam o sobrenome e o olhar, é filha do deputado federal Fernando Gabeira. Maya é hoje expoente de um esporte cujo objetivo é enfrentar montanhas de água que, não raro, têm a altura de um prédio de seis andares. Para se ter idéia da dificuldade, o surfista, muitas vezes, só consegue se posicionar na onda com ajuda de um jet-ski. Desce com velocidade média de 60 quilômetros por hora e, se "toma uma vaca", gíria do meio para designar a queda, fica até vinte segundos debaixo d’água antes de conseguir voltar à superfície. "Nesse momento, você tem a sensação de ser uma meia rodando na máquina de lavar", diz, com um jeito de menina que não deixa transparecer os perigos a que se expõe cotidianamente.

De férias no Brasil desde a semana passada, Maya foi consagrada a melhor do mundo em uma espécie de Oscar dos surfistas radicais. É uma turma que roda o planeta atrás de ondas gigantes, um fenômeno com dia, hora e lugar para acontecer. É por isso que, onde quer que esteja, ela se levanta antes de o sol nascer e logo confere na internet a previsão do surfe em todo o globo. No ano passado, passou dez temporadas em praias lindíssimas de países como África do Sul e Indonésia. Desses paraísos terrestres, vêm muitos dos objetos que decoram a casa de sua mãe, a estilista Yamê Reis, onde fica quando está no Rio. Mas sua maior coleção é de acidentes e cicatrizes. Já quebrou o nariz uma dezena de vezes. Também teve de abandonar um treino, na praia sul-africana de Dungeons, porque um tubarão-branco cismou em nadar debaixo de sua prancha. Três anos atrás, na Ilha de Sumatra, abriu a cabeça e foi suturada, dentro de um barco, por um surfista. Teve febre, náuseas e ficou cinco dias sem dar notícias aos pais. "Vi que preciso falar com ela todos os dias para dormir tranqüila", diz Yamê. Gabeira nunca se opôs à decisão da filha, mas confessa que o início foi de amargar. "Até os salva-vidas havaianos ficavam receosos ao ver uma menina de 17 anos enfrentando ondas gigantes", lembra. Aos poucos, Maya ganhou a confiança dos tais salva-vidas e também de surfistas experientes. Hoje, costuma ser "rebocada" de jet-ski para os paredões de água (modalidade chamada de tow-in) pelo pernambucano Carlos Burle, conhecido por ter surfado, em 2001, a maior onda registrada até então. "Muitas vezes, ela é a única mulher entre nós, no mar", diz Burle.

Até os 11 anos, Maya enfrentou o risco dos saltos de balé. Na adolescência, largou a dança e passou por uma fase de rebeldia: foi difícil aceitar a separação dos pais e o ensino das escolas tradicionais. Aos 13, deixou a casa da mãe para morar com Gabeira. Em liberdade total, a desobediência não fez mais sentido. "Meu pai deveria abrir uma clínica de reabilitação para cabeças perdidas", brinca. Maya entrou numa escolinha de surfe há sete anos. O então namorado pegava onda e ela cansou de ficar na areia. Tomou gosto pelo esporte e, aos 17, começou a passar temporadas no Havaí. Recentemente, decidiu se fixar por lá, num estúdio com vista para o mar, na Ilha de Oahu. Com o que ganha de patrocinadores, já consegue bancar suas despesas sozinha. Os brasileiros já estabelecidos na categoria de ondas gigantes costumam embolsar 10 000 dólares por mês – patamar que ela deve alcançar em breve, com a segunda premiação internacional. Lá fora, os campeões mundiais têm remuneração à altura das ondas que enfrentam: chegam a faturar milhões de dólares por ano, com prêmios, filmes, contratos publicitários e palestras em empresas.

Também de olho na exposição pública ("passo o dia de biquíni"), Maya cuida do corpo com a mesma atenção que dedica à coleção de quinze pranchas, todas cor-de-rosa. Pedala, faz musculação e pratica ioga diariamente para se manter na faixa dos 60 quilos, distribuídos por seu 1,68 metro. A cabeleira, de dar inveja apesar de submetida aos efeitos maléficos do sol e do sal, é tratada com produtos caros e religiosamente hidratada. Seu estilo despojado é elogiado por gente que entende do assunto, como Fred d’Orey, fundador da grife carioca Totem e fã confesso de Maya. Já da política, ela quer distância. Nunca leu, por exemplo, o livro de maior sucesso de Gabeira, O que É Isso, Companheiro?. "Quando tive vontade, não achei nenhum exemplar em casa", diz. Ironicamente, um detalhe de sua vida atual não a deixa esquecer o passado do pai. Gabeira não pode visitá-la no Havaí porque sua participação no seqüestro do embaixador americano Charles Elbrick o impede de obter visto para os Estados Unidos.



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