|
Perfil Maya, filha de Gabeira, é
a melhor surfista
No dia 11 deste mês, Los Angeles amanheceu com outdoors que mostravam uma jovem deslizando sobre uma onda colossal e os dizeres: "Ela é a supermulher do surfe". Os cartazes foram criados pelo Los Angeles Times, o jornal de maior circulação da Califórnia, que, volta e meia, elege reportagens de destaque em suas páginas para chamar atenção nas ruas. Naquele dia, a publicidade foi dedicada a Maya Gabeira, ganhadora, pela segunda vez consecutiva, do título de melhor surfista de ondas gigantes do mundo, na categoria feminina. A supermulher em questão é carioca, tem 21 anos, mora no Havaí e, como entregam o sobrenome e o olhar, é filha do deputado federal Fernando Gabeira. Maya é hoje expoente de um esporte cujo objetivo é enfrentar montanhas de água que, não raro, têm a altura de um prédio de seis andares. Para se ter idéia da dificuldade, o surfista, muitas vezes, só consegue se posicionar na onda com ajuda de um jet-ski. Desce com velocidade média de 60 quilômetros por hora e, se "toma uma vaca", gíria do meio para designar a queda, fica até vinte segundos debaixo dágua antes de conseguir voltar à superfície. "Nesse momento, você tem a sensação de ser uma meia rodando na máquina de lavar", diz, com um jeito de menina que não deixa transparecer os perigos a que se expõe cotidianamente. De férias no Brasil desde a semana passada, Maya foi consagrada a melhor do mundo em uma espécie de Oscar dos surfistas radicais. É uma turma que roda o planeta atrás de ondas gigantes, um fenômeno com dia, hora e lugar para acontecer. É por isso que, onde quer que esteja, ela se levanta antes de o sol nascer e logo confere na internet a previsão do surfe em todo o globo. No ano passado, passou dez temporadas em praias lindíssimas de países como África do Sul e Indonésia. Desses paraísos terrestres, vêm muitos dos objetos que decoram a casa de sua mãe, a estilista Yamê Reis, onde fica quando está no Rio. Mas sua maior coleção é de acidentes e cicatrizes. Já quebrou o nariz uma dezena de vezes. Também teve de abandonar um treino, na praia sul-africana de Dungeons, porque um tubarão-branco cismou em nadar debaixo de sua prancha. Três anos atrás, na Ilha de Sumatra, abriu a cabeça e foi suturada, dentro de um barco, por um surfista. Teve febre, náuseas e ficou cinco dias sem dar notícias aos pais. "Vi que preciso falar com ela todos os dias para dormir tranqüila", diz Yamê. Gabeira nunca se opôs à decisão da filha, mas confessa que o início foi de amargar. "Até os salva-vidas havaianos ficavam receosos ao ver uma menina de 17 anos enfrentando ondas gigantes", lembra. Aos poucos, Maya ganhou a confiança dos tais salva-vidas e também de surfistas experientes. Hoje, costuma ser "rebocada" de jet-ski para os paredões de água (modalidade chamada de tow-in) pelo pernambucano Carlos Burle, conhecido por ter surfado, em 2001, a maior onda registrada até então. "Muitas vezes, ela é a única mulher entre nós, no mar", diz Burle. Até os 11 anos, Maya enfrentou o risco dos saltos de balé. Na adolescência, largou a dança e passou por uma fase de rebeldia: foi difícil aceitar a separação dos pais e o ensino das escolas tradicionais. Aos 13, deixou a casa da mãe para morar com Gabeira. Em liberdade total, a desobediência não fez mais sentido. "Meu pai deveria abrir uma clínica de reabilitação para cabeças perdidas", brinca. Maya entrou numa escolinha de surfe há sete anos. O então namorado pegava onda e ela cansou de ficar na areia. Tomou gosto pelo esporte e, aos 17, começou a passar temporadas no Havaí. Recentemente, decidiu se fixar por lá, num estúdio com vista para o mar, na Ilha de Oahu. Com o que ganha de patrocinadores, já consegue bancar suas despesas sozinha. Os brasileiros já estabelecidos na categoria de ondas gigantes costumam embolsar 10 000 dólares por mês patamar que ela deve alcançar em breve, com a segunda premiação internacional. Lá fora, os campeões mundiais têm remuneração à altura das ondas que enfrentam: chegam a faturar milhões de dólares por ano, com prêmios, filmes, contratos publicitários e palestras em empresas. Também de olho na exposição pública ("passo o dia de biquíni"), Maya cuida do corpo com a mesma atenção que dedica à coleção de quinze pranchas, todas cor-de-rosa. Pedala, faz musculação e pratica ioga diariamente para se manter na faixa dos 60 quilos, distribuídos por seu 1,68 metro. A cabeleira, de dar inveja apesar de submetida aos efeitos maléficos do sol e do sal, é tratada com produtos caros e religiosamente hidratada. Seu estilo despojado é elogiado por gente que entende do assunto, como Fred dOrey, fundador da grife carioca Totem e fã confesso de Maya. Já da política, ela quer distância. Nunca leu, por exemplo, o livro de maior sucesso de Gabeira, O que É Isso, Companheiro?. "Quando tive vontade, não achei nenhum exemplar em casa", diz. Ironicamente, um detalhe de sua vida atual não a deixa esquecer o passado do pai. Gabeira não pode visitá-la no Havaí porque sua participação no seqüestro do embaixador americano Charles Elbrick o impede de obter visto para os Estados Unidos.
|
|
VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter | ![]() |
|