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Internacional Na pior crise
financeira desde 1929, os EUA
No dia 29 de maio de 1961, o senhor Alderson Muncy e sua mulher dirigiram-se a um mercado em Paynesville, no estado de West Virginia, e gastaram 95 dólares em comida para abastecer sua casa, onde viviam quinze pessoas. Foi a primeira transação com os food stamps, como são chamados os vales-alimentação que o governo americano distribui aos pobres há quase meio século. De 1961 para cá, o número de americanos que recorrem à ajuda do governo para comer variou intensamente, de acordo com desastres naturais, surtos inflacionários ou recessões econômicas. Nunca, porém, tantos americanos precisaram de ajuda como agora. Neste ano, os vales serão distribuídos a 27,8 milhões de pessoas, ao custo de 34 bilhões de dólares. Para o próximo ano, o Congresso americano já prepara um orçamento de 36 bilhões de dólares, esperando que o número de beneficiários chegue a 28 milhões um recorde histórico em números absolutos. "Com a crise econômica, existe um número crescente de pessoas que nos procuram", disse a VEJA Jeff Brenn, que há quatro anos trabalha com vale-alimentação em Nevada, estado que registrou a maior procura por ajuda no país, com um aumento de estonteantes 14,4% em apenas um ano. Os Estados Unidos são o país mais pujante e rico do planeta, mas, com a economia deslizando para a recessão, os sinais do aumento da pobreza começam a pipocar por todos os lados. Nos três primeiros meses deste ano, já sumiram 232 000 empregos, o que levou os dois presidenciáveis democratas, Barack Obama e Hillary Clinton, a pedir ampliação do período máximo em que um cidadão pode ter seguro-desemprego hoje, o limite é 26 semanas e o benefício médio é de 290 dólares mensais. No fim de março, o número de americanos que, toda a semana, pede seguro-desemprego rompeu a barreira dos 400 000. Os estudos mostram que, nas recessões anteriores, em 1990 e 2001, os desempregados não ficavam mais de três meses sem conseguir um salário. Agora, esse período subiu para quatro meses. "Estamos no meio da maior crise financeira desde a Grande Depressão, em 1929", disse a VEJA o economista Edmund Phelps, que ganhou o Nobel há dois anos com seus trabalhos sobre inflação e desemprego. "Nos anos 50, tivemos uma tremenda recessão, mas não foi resultado de choque financeiro. Nos anos 70, a crise teve relação com a queda na produtividade e o choque do petróleo. De 1929 para cá, essa é a maior crise financeira, embora a intensidade seja muito menor do que a da crise de oitenta anos." Na década de 30, quando a miséria grassou pelos Estados Unidos, não havia a rede de proteção aos pobres. Criou-se, na época, um arremedo de food stamps, programa que chegou a atender quase 20 milhões de americanos, mas acabou assim que a economia voltou aos trilhos. Agora, a estrutura de amparo aos pobres é mais consistente e capaz de ajudar desempregados, famintos, sem-teto. Na atual crise, o número de sem-teto também é crescente. Só em Nova York, onde a carranca da crise ainda é quase imperceptível, todas as noites 9 500 famílias recorrem aos abrigos da cidade. Em todo o país, estima-se que haja 750 000 desabrigados, mas contá-los é uma operação mais complicada do que pacificar o Iraque. Há sem-teto que se nega a admitir que não tem casa, e muitos vivem perambulando entre cidades e estados, onde podem ser contados mais de uma vez. Três anos atrás, criou-se uma rede de 4.000 cidades que se comunicam para evitar dupla contagem. Além disso, nem todo sem-teto é pobre. Há drogados, doentes mentais e problema americaníssimo veteranos de guerra. Em 2006, 196.000 veteranos de guerra dormiram pelo menos uma noite na rua de alguma cidade dos Estados Unidos. Entre os sem-teto crônicos, assim classificados os que estão na rua faz mais de um ano, calcula-se que haja mais de 60 000 veteranos de guerra.
O desarranjo econômico jogou no centro da campanha presidencial um debate que estava adormecido: como proteger os pobres e combater a pobreza? Em 1996, o presidente Bill Clinton endureceu o sistema de proteção social. Os beneficiários passaram a ter de trabalhar e fixou-se um máximo de cinco anos para que recebessem ajuda. Os pobretólogos acusaram o governo de insensibilidade, mas o tema entrou em banho-maria porque a economia estava bombando. Desde 2000, porém, o fantasma da pobreza voltou a fazer a ronda. Naquele ano, 12,2% da população americana era considerada pobre. O último número disponível, de 2006, informa que o porcentual estava em 13,3%. Hoje, é seguramente maior e, com isso, a reforma de 1996 voltou à atenção. Obama e Hillary, fiéis à cartilha democrata, querem ampliar o atual sistema, com mais assistência à saúde, mais atenção às crianças e qualificação profissional para ajudar os pobres a entrar no mercado de trabalho. Defendem, ainda, mais benefícios aos desempregados e um novo pacote de estímulo à economia o primeiro foi de 168 bilhões de dólares e saiu em fevereiro. O republicano John McCain, igualmente fiel à cartilha de seu partido, quer redução de impostos e mais liberdade econômica, medidas que criariam emprego e, por conseqüência, reduziriam a pobreza. Com uma paisagem social que, mesmo em crise, nem de longe rivaliza com a miséria brasileira, os Estados Unidos fazem um debate maduro sobre o assunto. A questão central, sempre, é como conduzir seus depauperados para o mercado de trabalho, tirá-los da proteção estatal e dar-lhes autonomia. O programa de vale-alimentação, que fornece em média 120 dólares mensais por cabeça, tem uma mecânica distinta do Bolsa Família, por exemplo. Nele, é difícil entrar, tanto que nem o desempregado Alfredo Arroyo, que vive de catar latas e garrafas nas ruas, conseguiu ser contemplado (veja reportagem). Por outro lado, é fácil sair, já que todos podem receber uma qualificação profissional, e não há porta para a demagogia governamental. O Congresso americano é que define as regras do programa valor do benefício, condições para entrar, punições por abuso. A Casa Branca é que desembolsa os benefícios, conforme o Orçamento definido pelo Congresso. E os governos estaduais é que bancam os custos operacionais e administrativos do programa. Nesse contexto, o presidente George W. Bush não pode subir num palanque e anunciar que aumentará o valor do vale ou que facilitará a entrada de mais gente no programa. Sabe-se que não é o presidente, mas os contribuintes, quem dá ajuda aos pobres. A fórmula para ter acesso ao programa é um quebra-cabeça ininteligível, mas, em linhas gerais, os beneficiários não podem ter posses e a renda familiar tem de ser inferior a 600 dólares per capita. Os contemplados recebem um cartão magnético com o qual só podem comprar alimentos nada de bebida, refrigerante, produtos de limpeza, roupa ou remédio. É só comida mesmo. Como ninguém precisa de escândalos para entender o óbvio, o cartão paga as despesas com comida do mercado, mas não saca dinheiro em terminal bancário. Sua grande utilidade tem sido para a compra de bens básicos, como leite, ovos e pão, cujos preços sofreram aumentos intensos nos últimos tempos. Um instituto de estudos econômicos em Washington calcula que, em decorrência da inflação, a renda dos 20% mais pobres dos Estados Unidos caiu para cerca de 15.500 dólares anuais ou seja, pouco mais de 2 000 reais mensais. Como se vê pelos próprios números, nada que se assemelhe à situação brasileira. Por isso mesmo, Tereza Monteiro, 32 anos, mãe solteira de dois filhos, de 1 e 3 anos, recebe 240 dólares mensais de vale-alimentação, mas nem pensa em voltar para a sua terra natal. Nascida em Goiânia e criada em Brasília, ela está há oito anos em Nova York. Mora no Queens, região empobrecida, mas vive com dignidade. Ganha seu salário trabalhando como babá de seis crianças em sua própria casa, paga 1 200 dólares de aluguel, tem telefone fixo, celular, computador com internet e TV a cabo com transmissão da Globo Internacional, pela qual paga 30 dólares mensais e tem direito a ver as novelas. Ela contempla as paredes bem-cuidadas de seu pequeno apartamento e exclama: "Olha isso! Para quem já passou o que eu passei, estou bem, estou muito bem".
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