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Edição 2057

23 de abril de 2008
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Economia
O fantasma de Malthus

A alta do preço dos alimentos assusta,
mas não condena o mundo à fome


Ronaldo França


EXE Press/AFP
Mercado de peixes no Japão: o mundo ainda produz mais comida do que consome


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Quadro: Uma safra de razões

A idéia de um mundo famélico, à beira do colapso, assombra a humanidade desde que o economista e demógrafo inglês Thomas Malthus (1766-1834) previu, no século XVIII, que no futuro não haveria comida em quantidade suficiente para todos. Sua teo-ria não se confirmou, mas volta e meia assusta. Foi quase em uníssono que, nas últimas semanas, os principais organismos internacionais – a Organização das Nações Unidas (ONU), o Banco Mundial (Bird) e o Fundo Monetário Internacional (FMI) – chamaram atenção para a gravidade dos problemas decorrentes da alta dos alimentos. No último ano, os preços subiram 57%. Isso em média, porque o trigo, por exemplo, subiu 130% (veja o quadro). Para as pessoas que vivem no limiar da miséria, pode significar a fome. O Banco Mundial previu que 100 milhões de pessoas poderão submergir na linha que separa a pobreza da miséria absoluta devido ao encarecimento da comida.

O debate ecoou com força no Brasil porque, na semana passada, o representante especial da ONU para o direito à alimentação, Jean Ziegler, declarou que a culpa da fome mundial é dos biocombustíveis. Trata-se de um "crime contra a humanidade", disse Ziegler. Como o etanol é uma prioridade do governo brasileiro, o presidente Lula reagiu. Acusou Ziegler de não conhecer a realidade brasileira, o que é verdade. O sociólogo suíço é um socialista radical que há muito tempo anda dando botinadas no etanol sem compromisso com os fatos. Ele nem mesmo se aproximou do que realmente importa nessa discussão.

O ponto central, como registrou a revista inglesa The Economist, é que os alimentos alcançaram um novo patamar de preços, o mais alto dos últimos trinta anos. Eles podem baratear um pouco, mas não voltarão aos níveis do fim dos anos 70. O mundo está migrando para uma nova realidade, e a transição está sendo mais longa e difícil do que se previu. O problema tornou-se crítico agora porque vários fatores adversos ocorreram simultaneamente e afetaram a produção. Os estoques reguladores entraram então no nível mais baixo das últimas três décadas. Entre as diversas causas (como ilustra o quadro), a mais importante é que o mundo está comendo mais.

O aumento da demanda se deu principalmente na China, na Índia e no Brasil, as economias emergentes que lideram o movimento de alta no padrão de consumo de suas populações. Juntos, os três países têm mais de um terço dos habitantes do planeta. Uma mudança de padrão de consumo é suficiente, portanto, para uma alteração significativa na economia global. No ano passado, a China expandiu seu produto interno bruto (a soma das riquezas produzidas no país) em 11,4%. A Índia cresceu 9,6%. Não foi só isso. Além de comer mais, a população desses países está se tornando mais urbana. Ou seja, deixou de produzir o próprio alimento para comprá-lo no supermercado, o que torna necessário que se produza mais comida em larga escala para atender às cidades.

O crescimento da renda dos trabalhadores nesses países fez com que mudassem seus hábitos de consumo e, por conseqüência, sua dieta. Trocaram carboidratos por mais proteínas no cardápio. Basicamente carne, leite e queijos. Entra aí uma conta curiosa. Para produzir 1 quilocaloria de carne (é essa a unidade de medida de energia dos alimentos) são necessários entre 8 e 10 quilocalorias de vegetais, pois é quanto o gado precisa comer para engordar. Portanto, é um equívoco afirmar que os biocombustíveis são os vilões da situação atual. Ao generalizar, Ziegler não diferencia, por exemplo, o etanol brasileiro, produzido a partir da cana, do americano, que usa o milho como matéria-prima. "Muitos produtores de soja e trigo migraram para o milho em decorrência dos incentivos governamentais ao etanol, o que afetou os preços", afirma a economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, Ana Cecília Kreter.

Apesar de tantos fatores a empurrar para cima o preço dos alimentos, é preciso dizer que as notícias não são exatamente ruins quando se pensa no futuro da humanidade. "Em alguns países, produzem-se alimentos suficientes para toda a população nacional e para exportação. Então a questão não é o tamanho da população, mas a tecnologia que está sendo usada e o investimento que está sendo feito", disse a VEJA o diretor-geral da FAO, Jacques Diouf. As previsões catastrofistas desprezam o fato de que os avanços da tecnologia agrícola poderão prover grandes aumentos de produtividade nos próximos anos. E que as nações ricas poderão eliminar barreiras e subsídios que sufocam a produção nos países pobres. Antes de culpar os biocombustíveis, portanto, é preciso gastar energia em debater os pontos certos.





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