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Edição 2057

23 de abril de 2008
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Economia
A força da credibilidade

Ao elevar os juros, o BC fez a coisa
certa e provou que tem autonomia


Ronaldo França

Edu Andrade/AE
Henrique Meirelles: ele sinalizou que o país manterá seu compromisso com a estabilidade

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Perguntas e respostas: Taxa de juros

A economia brasileira funciona como o organismo de um paciente que passou por uma grave enfermidade. Fala-se aqui da inflação. O Brasil saiu da crise em 1994, com o Plano Real, e ruma para uma vida normal. Mas não se pode relaxar nos cuidados. Foi essa a preocupação que moveu o Banco Central na semana passada, quando o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu aumentar em 0,5 ponto por-centual a taxa básica de juros da economia, a Selic. Foi o primeiro aumento desde maio de 2005, quando a taxa chegou a 19,75%. A partir de então, iniciou-se uma gradual queda dos juros (veja o quadro). Os analistas de mercado esperavam que o aumento fosse de apenas 0,25 ponto porcentual. Ao ministrar o remédio, o BC dobrou a dose. O principal argumento foi que com isso estaria não só garantindo a eficácia do tratamento como também fazendo com que ele seja mais curto. Isto é, permitindo que os juros voltem a baixar num futuro mais próximo. Em um país que vem trabalhando duro, desde maio de 2005, para baixar sua taxa de juros, e que ainda assim é o recordista mundial em juros altos, isso pode parecer um retrocesso. Não é. O Brasil ganhou com isso, por duas razões. A mais óbvia é a ação firme contra a pressão inflacionária que vem ocorrendo neste momento. Ela é decorrente da falta de produtos no mercado para tanta gente querendo comprar – o que em economia se chama inflação de demanda. A taxa de juros mais elevada torna o crédito mais caro e, portanto, dificulta as compras. Esse foi o alvo mais imediato da medida do Banco Central.

Mas a decisão do BC tem um efeito colateral que é, em certa medida, até mais importante. Ao adotar uma elevação maior dos juros, o BC demonstrou fidelidade a seu papel de guardião da moeda, cujo maior inimigo é a inflação. Os melhores instrumentos de que um banco central dispõe são credibilidade e autonomia. Elas dão ao mercado a certeza de que as medidas, quando necessárias, serão tomadas independentemente do humor do governo e dos partidos. O aumento definido na semana passada elevou o BC brasileiro ao patamar das instituições que dispõem desses dois atributos. Não se pode esquecer que alguns dos principais críticos do BC estão no próprio governo e, mais especificamente, no PT, o partido do presidente. "Esse pode ter sido um passo importantíssimo para que o Brasil alcance o almejado status de ‘grau de investimento’.", afirmou o ex-ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega. "Grau de investimento" é a classificação atribuída àqueles países ou empresas mais confiáveis aos olhos dos investidores internacionais.


Germando Luders
O consumo sob vigilância: o BC quer pôr um freio nas compras

Apesar de ter provocado a gritaria de sempre, o aumento da Selic era inevitável, a julgar pelos sinais vitais da economia brasileira. O que eles indicam é que a pressão dos compradores começou a superar a capacidade da indústria de aumentar a produção. Há uma forma de medir isso, segundo o economista José Julio Senna. Ela compara a capacidade de crescimento do país com a demanda doméstica (que soma o consumo das famílias, os investimentos das empresas e os gastos do governo). E essa conta preocupa. As projeções mais otimistas indicam que o crescimento do produto interno bruto (conjunto de riquezas que o país produz) não passará de 5%. Do outro lado, o ritmo de crescimento da demanda doméstica anda na casa dos 9% ao ano. "Por mais que o país importe mercadorias para cobrir essa diferença, chega uma hora em que se bate no teto. E o teto chama-se inflação", afirma Senna. E da inflação o Brasil não pode experimentar sequer o primeiro gole. O país já foi usuário pesado, a ponto de ter criado a correção monetária, um mecanismo cuja função era permitir a convivência com a inflação.

Ao definir a Selic em 11,75% ao ano na semana passada, o BC também levou em consideração o que se antevê no horizonte mundial. Especialmente a alta do preço dos alimentos. Ela é o elemento novo em uma lista que já incluía a elevação da renda e o aquecimento do consumo interno provocado pela expansão do crédito; o aumento do preço do petróleo no mercado mundial e a alta dos produtos industrializados no mercado interno. O preço dos alimentos no Brasil subiu 11% nos últimos doze meses. O fenômeno é mundial. A inflação de alimentos na China foi de 23%; na Argentina, de 7,7%; e no Chile, para citar o país sul-americano de economia mais arrumada, a inflação está em 8,5%. Antes da crise dos alimentos, estava em 2,5%. O mais preo-cupante é que a alta ainda não terminou. O Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea) já detectou aumentos de preço na produção que ainda não se refletiram no comércio. Por isso, as medidas adotadas agora foram importantes. "Elas confirmam o compromisso com a estabilidade", afirmou o ex-presidente do Banco Central Carlos Langoni. Os aplausos ao Copom são justos. Mas é importante lembrar que o grande fator de pressão sobre a inflação são os gastos governamentais. Eles têm de ser reduzidos. O BC não pode fazer tudo sozinho.

 



 
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