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Cuíca
de Santo Amaro Escrevi este artigo para um "estudo" sobre o assunto. Como, acho, nunca foi publicado, publico agora. "...
nem se deve pensar que uma coisa é verdadeira porque dita com eloqüência.
Nem falsa porque enunciada sem harmonia. Nem também verdadeira só
por ser proferida rudemente. Ou falsa porque a linguagem é rica. Sabedoria
e tolice são como alimentos saudáveis ou maléficos. Frases
simples ou pomposas são como pratos elegantes ou rústicos; qualquer
espécie de iguaria pode ser servida em qualquer qualidade de prato."
Ao contrário do que eu tinha pensado, o livro não é um estudo da poética popular (bastante duvidosa mesmo em termos populares) de José Gomes, o CUÍCA, mas fala de sua extraordinária capacidade de comunicação e de como usava isso intelectual, social, moral e last, mas absolutamente não the least, financeiramente. Intelectualmente CUÍCA tirava minhoca do asfalto com paupérrima instrução e poucos dados formulava lá suas redondilhas, com muito pé quebrado e muita rima pobre, mas (aqui não há o que discutir) sempre atingia seu alvo: comunicar. Comunicar pra punir quem não se compunha com ele e/ou pra insinuar (e bota insinuação nisso!) que se compusesse. Comunicar buscando, instintivamente, prestígio social no seu picoIo mundo, atemorizando ou bajulando os semipoderosos e até mesmo uns poucos grandes poderosos. Comunicar para invectivar mazelas morais da sociedade, vistas preconceituosamente pela própria sociedade que as praticava, e também por ele, que é natural achava o fim da picada qualquer tipo de prática sexual que fugisse à norma. Não me perguntem qual é a norma. O livro: ensaio competente do tempo baiano em que viveu CUÍCA, não está apenas falando de um poeta popular lutador por causas justas algumas vezes e achacador quase sempre, mas da própria imprensa na Bahia e por extensão também de Chateaubriand, de Hearst, de Pulitzer e, em nossos dias, de Murdock. E, mais longe, fala de Gould, Nobel, Frick, Gulbelkian e... Ponzi! O ítalo-americano Ponzi, sem dúvida o maior vigarista do século XX, que agitou o submundo econômico financeiro dos Estados Unidos e veio acabar como indigente num leito do Hospital São Sebastião no Rio de Janeiro, declarando ao morrer: "A diferença entre mim e o Pierpont Morgan é que ele deu certo". É isso aí. Chateaubriand construiu, sem nenhum pudor, um império de comunicação baseado em campanhas humanitárias (leite pras crianças), movimentos progressistas (criou a mentalidade aeronáutica no Brasil distribuindo aviões Paulistinha em municípios do interior) e gigantescas promoções artísticas (o grande Museu de Arte de São Paulo, belo exemplo). Tudo, o clã Ermírio de Morais que o lembre, pretextos-gazuas pro aumento do Império. Hearst, o Cidadão Kane de Orson Welles, fundou a "imprensa amarela", com todo o seu corolário de vilificações, chantagem e até estímulo ao assassinato político (foi denunciado por Theodore RooseveIt em seu discurso de posse). Sensacionalistas, falsas, explorando o crime e a credulidade pública, suas publicações acabaram, por reação, renovando a imprensa americana outros jornais, não podendo concorrer no estilo, obrigaram-se a mais seriedade editorial, pesquisas mais profundas, e busca de imparcialidade*. Pulitzer concorria com Hearst na corrida valendo tudo pelas tiragens dos jornais. Se transformou num dos maiores prêmios de jornalismo do mundo. E, em nosso tempo, o aventureiro Murdock, depois de comprar jornais na Austrália, Estados Unidos e Inglaterra (nem o vetusto Times escapou de suas garras) usando os métodos mais discutíveis (discutíveis, Millôr?), acabou responsável pela renovação da imprensa inglesa entravada por reivindicações bastante reacionárias dos sindicatos. E por aí vai**. Fui longe demais? É o que pretendi. A modesta canalhice de um poeta popular imperativa pela necessidade de sobrevivência e contrabalançada por momentos em que é insopitável a defesa de interesses alheios e/ou populares é a mesma dos órgãos de imprensa e comunicação, criados e ampliados por todos os métodos disponíveis, numa luta livre em que, ocasionalmente, vale até a defesa do bem público. Para manutenção de uma imagem mínima de dignidade. Só que, além de lutar contra a sociedade como um todo, o poeta CUÍCA ainda tinha contra ele a mesma imprensa (essa sociedade) de que era mero reflexo e que, claro, não queria, repudiava se reconhecer nele. E por isso ou o atacava, ou o desprezava, ou pura e simplesmente o ignorava. E o esquecia. Pra sempre.
* Uma revelação: o ódio votado por Hearst a Orson Welles tem razão freudiana. Um tycoon como Hearst estava acostumado a tudo quanto é ataque e Cidadão Kane, bem analisado, até lhe é lisonjeiro. Acontece, porém, que a chave do filme, seu Ieitmotiv, a palavra rosebud/botão de rosa, não tinha sentido assim tão inocente. Era a maneira carinhosa, extremamente íntima (e que Hearst julgava desconhecida de todos), com que ele se referia à pudenda, periquita de sua eterna amante Marion Davies. ** Em nossos dias não convém esquecer o admirável Berlusconi.
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