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Auto-retrato Jean-Luc
Naret Martin
Bureau/AFP
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O
francês Jean-Luc Naret, 56 anos, almoça e janta fora quase todo dia.
Por prazer e ofício. Como diretor dos guias Michelin, a ele
cabe o comando de uma avaliação que resulta na concessão
de estrelas a restaurantes da Europa, dos Estados Unidos e do Japão. Nenhuma
outra publicação influencia tanto o mundo da alta gastronomia
e a escolha das pessoas por um lugar para comer. Naret concedeu à editora
Monica Weinberg a seguinte entrevista.
O
senhor é muito assediado por chefs em campanha por estrelas para seus restaurantes?
Eles me procuram mais quando são rebaixados. Isso os atinge, antes de tudo,
por uma razão financeira: uma estrela a menos significa queda de algo como
25% no faturamento de um restaurante. É também um golpe na vaidade
de um chef. Pergunte a qualquer um deles qual é a melhor comida do planeta
e invariavelmente ouvirá como resposta: "A minha". O
que faz alguns dos melhores restaurantes do mundo perder estrelas? A decadência
desses restaurantes se dá, principalmente, por dois motivos. Primeiro,
o fato de os chefs se afastarem da cozinha quando começam a fazer sucesso.
Alguns se tornam burocratas, outros viram celebridades e a comida sempre
cai de nível. Um segundo problema são as crises emocionais, tão
comuns num ambiente em que os profissionais se sentem sob muita pressão. Como
é a competição na alta gastronomia? Ela chega a ser
doentia. Pegue o caso de Joël Robuchon e Alain Ducasse, primeiro e segundo
colocados no ranking de estrelas do Michelin. Em certas ocasiões,
esses grandes chefs franceses parecem dois meninos numa disputa escolar. Um vai
à imprensa e diz: "Eu tenho mais estrelas do que ele". E o outro
rebate: "Mas eu sou dono de mais restaurantes". Ao final, é bom,
porque a comida melhora. Em sua opinião,
que país oferece hoje a melhor comida do mundo? Muita gente diz
que este é o grande momento da Espanha, mas discordo. Há, evidentemente,
chefs espanhóis de talento, mas o único gênio é Ferran
Adrià. Por outro lado, nenhum outro país concentra tantos restaurantes
estrelados quanto a França o que é um indicador objetivo
da qualidade da comida. Essa história de que a culinária francesa
parou no tempo, como afirma muita gente que se pretende especialista, é
conversa de quem não entende do assunto. Por
que Tóquio tem mais estrelas do que Paris? Primeiro, porque em
nenhuma outra cidade do mundo há tantos restaurantes: são 160 000.
Isso amplia, matematicamente, as chances de uma estrela. Feita a ponderação,
é preciso ressaltar que a comida servida em Tóquio surpreen-de pelo
apreço à técnica e pela criatividade. O cardápio dos
bons restaurantes muda quase todo dia. Enquanto
na Europa e nos Estados Unidos os chefs disputam estrelas, no Japão alguns
deles se recusam a recebê-las... Foi a primeira vez que os restaurantes
de Tóquio passaram pela avaliação, e a novidade, por si só,
pode causar certa desconfiança. Mas o que importa, nesse caso, é
que os chefs mais refratários à inspeção são
também aqueles cujos restaurantes dificilmente receberiam uma estrela.
Em suma: eles se manifestavam contra algo que lhes traria exposição
negativa. Já houve injustiças
na avaliação? Como em qualquer sistema baseado no julgamento
humano, esse também pode falhar. Para reduzir o risco de erro, no entanto,
um mesmo restaurante chega a ser visitado até quarenta vezes num ano pelos
inspetores. Eles recebem treinamento para desempenhar a função e
jamais se identificam. E o senhor,
se apresenta aos chefs? Eles já me conhecem e, por isso, nunca
poderia fazer a avaliação. Quando chego aos restaurantes, sou tratado
como membro da realeza. Talvez nenhuma outra pessoa no mundo coma tão bem
quanto eu.
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