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O próximo jogo econômico"Estamos
sempre atolados e discutindo
Imagine-se técnico da seleção da economia brasileira.
O Brasil está perdendo o jogo da globalização por
4 a zero. Você se reúne com seus assistentes para analisar
as opções.
Outra opção seria criar uma enorme confusão no meio-de-campo, provocar a expulsão de adversários como a Alca e o FMI e anular a partida, já que as regras foram inventadas por eles. Essas são basicamente as únicas opções discutidas pela maioria dos especialistas e partidos políticos. Existe ainda uma terceira opção, pouco analisada, que parte da percepção de que temos perdido a maioria dos jogos econômicos porque ficamos o tempo todo tentando entender ou então mudar as regras. Quando finalmente aprendemos os truques e os macetes, as regras já mudaram, e os que querem mudá-las nem sabem como. A verdade é que nunca vamos ganhar jogos com regras escritas por outros. Jogos econômicos são ganhos muito antes de o time entrar em campo, nos meses de treinamento intensivo, na organização e administração do time. O Brasil sempre entra em campo anos depois de o jogo ter começado. Precisamos nos preparar para o próximo jogo internacional. Precisamos nos preparar para os jogos e as regras que estarão por vir, e até criar nossos jogos com nossas regras. Tudo isso pode parecer muito óbvio, mas nunca foi feito. Estamos sempre atolados e discutindo os problemas econômicos do passado, sem tempo para discutir as tendências do futuro. Perdemos anos corrigindo o passado, como fizemos na Constituição de 1988, e não discutindo as possibilidades do futuro. Pior, nossos políticos e nossa imprensa só ouvem aqueles que explicam o presente, e não aqueles que se preocupam com o futuro. Por definição, o futuro não é notícia, porque ainda não aconteceu. "Qual será o próximo jogo econômico internacional?" é portanto a pergunta cuja resposta vale ouro. Infelizmente, não tenho espaço nem competência para me estender convincentemente nesse assunto. Por isso, vou dar um exemplo dos jogos possíveis, um exemplo didático, não uma proposta concreta. Um dos jogos que imagino é o turismo da terceira idade de média renda. O mundo está envelhecendo e, com os progressos da ciência, a população do Primeiro Mundo estará vivendo cada vez mais. Lugares como Miami, Costa Brava e Lisboa ficarão pequenos para acolher os milhões de velhinhos e velhinhas aposentados dos Estados Unidos e da Europa, que fogem dos rigores de seu inverno. Se estivermos preparados, eles poderão escolher cidades mais quentes e mais baratas, como Salvador, Fortaleza, Natal e Maceió, cidades com a tradicional hospitalidade brasileira. Um milhão de velhinhos com aposentadoria anual média de 20.000 dólares para gastar nos trariam 20 bilhões de "exportações" por ano. Dois milhões de velhinhos resolveriam para sempre nossos problemas cambiais. Mas, para que o Brasil participasse desse jogo, precisaríamos nos preparar desde já. Em vez de construir hotéis de luxo, teríamos de erguer milhares de flat services. Em vez dos cassinos que muitos querem criar, teríamos de construir dezenas de campos de golfe, se o MST permitir. Em vez de boates, precisaríamos de bingos, quadras de bocha e piscinas térmicas, além de resolver nossos problemas de segurança. Mais importante seria a construção de centros ortopédicos e geriátricos de qualidade internacional, o que nos traria ainda mais divisas. E aqui, caro leitor, vem o ponto crucial. Esses investimentos levam tempo para ser feitos. E, uma vez construído, um hospital cardiológico ou ortopédico leva no mínimo dez anos para ganhar reputação internacional. Ou seja, já estamos atrasados e podemos perder também esse barco, porque nunca pensamos nos jogos do futuro, somente nos erros do passado.
Stephen Kanitz é administrador |
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