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Edição 1 799 - 23 de abril de 2003
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Roberto Pompeu de Toledo

Sobre antiamericanismo
e antibrasilismo

Suponhamos que, depois do Iraque,
fosse a vez do Brasil. Qual seria
a reação a
uma tropa invasora?

O conceito de antiamericanismo convém sob medida aos interesses de George W. Bush. Sempre que se vive uma circunstância como a presente, em que a maioria da opinião pública mundial reprova uma iniciativa dos Estados Unidos, ele é sacado, rápido, do estoque dos bordões de ocasião. Denúncias de antiamericanismo se multiplicam, a propósito da guerra no Iraque. Intelectuais vão buscar suas causas psicológicas e suas raízes históricas. Nada mau, para quem está no comando das operações, em Washington. A opinião pública se levanta não porque se trata de um empreendimento sangrento, embora destinado a abater um ditador. Não porque se trata de uma guerra desencadeada fora da legalidade internacional, e ainda por cima tisnada por propósitos dúbios como o de possibilitar um exercício de neocolonialismo numa terra assentada sobre a segunda maior reserva de petróleo. Não. É porque é "antiamericana". Com isso se atribui aos críticos uma espécie de racismo. Eles são contra os americanos por um desvio de personalidade. As políticas de George W. Bush nada têm com isso.

O conceito de anti-semitismo trabalha, de forma similar, em favor de Ariel Sharon. Não é que se critique o atual governo de Israel por seu belicismo ou sua intolerância. É porque se é "anti-semita", acusação aliás bem mais pesada do que a de antiamericano, porque atinge não só um país, mas todo um povo, e um povo que merece solidariedade pelas injustiças e atrocidades que sofreu na história. Os muçulmanos também aprenderam a se refugiar no conceito de "antiislamismo" para descredenciar os críticos, mas nem precisaríamos ir tão longe – no Brasil da ditadura também, quem era contra era contra o Brasil. "Brasil ame-o ou deixe-o" era um famoso slogan da época. A indústria do "anti", se bem azeitada, em vez de "anti", funciona a favor.

•••

E por falar em ame-o ou deixe-o...

Suponhamos que a vez do Brasil tenha chegado. Além do Afeganistão e do Iraque, já foram a Síria e o Irã, a Coréia do Norte e, de quebra, para matar a saudade e ajustar velhas contas, o Vietnã. Donald Rumsfeld levanta então, numa de suas conferências de imprensa no Pentágono, a questão da Tríplice Fronteira. Por mais que se tenha advertido o Brasil da infiltração de terroristas na região, não há sinal de um espírito realmente cooperativo das autoridades locais. Dick Cheney, no dia seguinte, argúi que a Amazônia continua desprotegida: "É uma terra da promissão para a narcoguerrilha". Condoleezza Rice, no programa Meet the Press, declara ter informações de que armas de destruição em massa estariam sendo estocadas pelas torcidas organizadas do Brasil, para utilização contra potenciais rivais na Copa do Mundo. Enfim, Paul Wolfowitz, sempre mais contundente, lembra que o Brasil, além de se ter mostrado recalcitrante nas negociações da Alca, é governado por um presidente barbudo, ao qual, como se isso não bastasse, falta um dedo. "A situação é intolerável", reclama. George W. Bush vai à televisão e avisa que os dias do Brasil estão contados: "Tem de haver uma mudança de regime".

Se a guerra se iniciasse com uma "Operação Decapitação", as chances de sucesso seriam maiores que no Iraque. No Brasil só há duas residências presidenciais, o Alvorada e o Torto. Se um Tomahawk mirasse bem na churrasqueira do Torto, nem precisaria destruir o resto. O palácio já estaria desativado. As principais cidades do país são submetidas aos bombardeios a que o mundo já se habituou. Aviões B-52 e helicópteros Apache dominam os céus. Quando chegar a hora dos combates em terra, especula a imprensa americana, o mais difícil será superar a resistência dos Dragões da Independência. Provavelmente, eles serão concentrados em Brasília, e defenderão a capital esquina a esquina. Ocorre que Brasília não tem esquinas, entre outras bizarrias, e, também por isso, a invasão revela-se um passeio. As demais cidades já estão tomadas, e os marines têm uma agradável surpresa ao se dar conta de que os nomes das lojas são em inglês. Sentem-se em casa. Tudo foi muito rápido e fácil, mais do que se poderia esperar, mas aí...

Aí é que queríamos chegar. Como seria o final de uma história dessas? Turbas saudando nas ruas os vencedores? As periferias das grandes cidades e as favelas jubilosas por uma mudança que lhes acena com uma melhoria de vida? A população de Guaribas rasgando os cartões do Fome Zero, na convicção de que a promessa de um tempo de progresso e de empregos já os descarta como obsoletos? Ou, ao contrário, teríamos a multidão de deserdados quietos e desconfiados enquanto as classes médias, estas, sim, confraternizam com os invasores, embriagadas pela perspectiva de mais shopping centers e de a festa de Halloween se tornar oficial? Qual seria o cenário, num caso desses, no Brasil? Começamos com um exercício de ficção, do gênero macabro, e terminamos por convidar a um exame de consciência. Qual seria a reação, no nosso caso?

 
 
   
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