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Roberto
Pompeu de Toledo
Sobre
antiamericanismo
e antibrasilismo
Suponhamos
que,
depois do Iraque,
fosse a vez do Brasil. Qual seria
a reação a uma
tropa invasora?
O
conceito de antiamericanismo convém sob medida aos interesses de
George W. Bush. Sempre que se vive uma circunstância como a presente,
em que a maioria da opinião pública mundial reprova uma
iniciativa dos Estados Unidos, ele é sacado, rápido, do
estoque dos bordões de ocasião. Denúncias de antiamericanismo
se multiplicam, a propósito da guerra no Iraque. Intelectuais vão
buscar suas causas psicológicas e suas raízes históricas.
Nada mau, para quem está no comando das operações,
em Washington. A opinião pública se levanta não porque
se trata de um empreendimento sangrento, embora destinado a abater um
ditador. Não porque se trata de uma guerra desencadeada fora da
legalidade internacional, e ainda por cima tisnada por propósitos
dúbios como o de possibilitar um exercício de neocolonialismo
numa terra assentada sobre a segunda maior reserva de petróleo.
Não. É porque é "antiamericana". Com isso se atribui
aos críticos uma espécie de racismo. Eles são contra
os americanos por um desvio de personalidade. As políticas de George
W. Bush nada têm com isso.
O conceito de anti-semitismo trabalha, de forma similar, em favor de Ariel
Sharon. Não é que se critique o atual governo de Israel
por seu belicismo ou sua intolerância. É porque se é
"anti-semita", acusação aliás bem mais pesada do
que a de antiamericano, porque atinge não só um país,
mas todo um povo, e um povo que merece solidariedade pelas injustiças
e atrocidades que sofreu na história. Os muçulmanos também
aprenderam a se refugiar no conceito de "antiislamismo" para descredenciar
os críticos, mas nem precisaríamos ir tão longe
no Brasil da ditadura também, quem era contra era contra o Brasil.
"Brasil ame-o ou deixe-o" era um famoso slogan da época. A indústria
do "anti", se bem azeitada, em vez de "anti", funciona a favor.
E por falar em ame-o ou deixe-o...
Suponhamos que a vez do Brasil tenha chegado. Além do Afeganistão
e do Iraque, já foram a Síria e o Irã, a Coréia
do Norte e, de quebra, para matar a saudade e ajustar velhas contas, o
Vietnã. Donald Rumsfeld levanta então, numa de suas conferências
de imprensa no Pentágono, a questão da Tríplice Fronteira.
Por mais que se tenha advertido o Brasil da infiltração
de terroristas na região, não há sinal de um espírito
realmente cooperativo das autoridades locais. Dick Cheney, no dia seguinte,
argúi que a Amazônia continua desprotegida: "É uma
terra da promissão para a narcoguerrilha". Condoleezza Rice, no
programa Meet the Press, declara ter informações
de que armas de destruição em massa estariam sendo estocadas
pelas torcidas organizadas do Brasil, para utilização contra
potenciais rivais na Copa do Mundo. Enfim, Paul Wolfowitz, sempre mais
contundente, lembra que o Brasil, além de se ter mostrado recalcitrante
nas negociações da Alca, é governado por um presidente
barbudo, ao qual, como se isso não bastasse, falta um dedo. "A
situação é intolerável", reclama. George W.
Bush vai à televisão e avisa que os dias do Brasil estão
contados: "Tem de haver uma mudança de regime".
Se a guerra se iniciasse com uma "Operação Decapitação",
as chances de sucesso seriam maiores que no Iraque. No Brasil só
há duas residências presidenciais, o Alvorada e o Torto.
Se um Tomahawk mirasse bem na churrasqueira do Torto, nem precisaria destruir
o resto. O palácio já estaria desativado. As principais
cidades do país são submetidas aos bombardeios a que o mundo
já se habituou. Aviões B-52 e helicópteros Apache
dominam os céus. Quando chegar a hora dos combates em terra, especula
a imprensa americana, o mais difícil será superar a resistência
dos Dragões da Independência. Provavelmente, eles serão
concentrados em Brasília, e defenderão a capital esquina
a esquina. Ocorre que Brasília não tem esquinas, entre outras
bizarrias, e, também por isso, a invasão revela-se um passeio.
As demais cidades já estão tomadas, e os marines têm
uma agradável surpresa ao se dar conta de que os nomes das lojas
são em inglês. Sentem-se em casa. Tudo foi muito rápido
e fácil, mais do que se poderia esperar, mas aí...
Aí é que queríamos chegar. Como seria o final de
uma história dessas? Turbas saudando nas ruas os vencedores? As
periferias das grandes cidades e as favelas jubilosas por uma mudança
que lhes acena com uma melhoria de vida? A população de
Guaribas rasgando os cartões do Fome Zero, na convicção
de que a promessa de um tempo de progresso e de empregos já os
descarta como obsoletos? Ou, ao contrário, teríamos a multidão
de deserdados quietos e desconfiados enquanto as classes médias,
estas, sim, confraternizam com os invasores, embriagadas pela perspectiva
de mais shopping centers e de a festa de Halloween se tornar oficial?
Qual seria o cenário, num caso desses, no Brasil? Começamos
com um exercício de ficção, do gênero macabro,
e terminamos por convidar a um exame de consciência. Qual seria
a reação, no nosso caso?
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