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O ursinho da discórdia
Pooh
é adorado pelas crianças.
Mas já causou brigas em família
e entre governos
Isabela Boscov
Divulgação
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e Leitão, em cena do novo desenho: destino dos bonecos gerou
mal-estar entre o ex-prefeito de Nova York Giuliani e o premiê
inglês Tony Blair |

Veja também |
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A Disney
de Leitão O Filme (Piglet's Big Movie,
Estados Unidos, 2003) é aquela que hoje existe quase que só
na memória de gerações passadas de crianças:
a Disney dos traços e cores que lembram aquarelas, da animação
caprichosa e dos enredos simples, sobre a importância da amizade.
Leitão, o protagonista do desenho que está desde quinta-feira
em cartaz no país, é um dos personagens da turma do Ursinho
Pooh que inclui ainda o Coelho, o Tigrão, a Coruja, o burrico
Ió, a marsupial Can e seu filhote Guru. Já na primeira cena,
vê-se qual a razão dos problemas de Leitão: enquanto
seus amigos bolam um plano para roubar mel de uma colméia, ele
é posto de lado, por ser pequenino demais. Leitão salva
a investida do desastre, mas seus companheiros (que não são
exatamente brilhantes) nem notam. Quando Leitão some na floresta,
porém, são atingidos pela culpa. Decididos a encontrá-lo,
usam como guia o livro de desenhos do porquinho. E, à medida que
rememoram os episódios representados ali, vão-se dando conta
do significado de Leitão em suas vidas. É um filme gracioso
e que faz muito mais justiça ao legado de A.A. Milne, o criador
de Pooh & companhia, do que o anterior da série, protagonizado
por Tigrão. O mais curioso a respeito dele, contudo, é o
que não se vê na tela: a tumultuada história que Pooh
(Winnie the Pooh no original, Winnie Puff na tradução brasileira
da editora Martins Fontes e até três anos atrás Ursinho
Puff para a Disney do Brasil) vem acumulando desde sua criação,
em 1926.
No início
dos anos 20, o escritor inglês Alan Alexander Milne (1882-1956)
levou o filho pequeno, Christopher Robin (1920-1996), ao zoológico
de Londres para ver a fêmea de urso "Winnipeg". Milne depois descreveria
a amizade instantânea que se formara entre o menino e o animal,
com direito a brincadeiras no interior da jaula. Não só
a situação parece improvável, como um relato de um
amigo de Milne a contradiz frontalmente. Esse senhor alegou ter sido ele
a levar Christopher ao zôo, e disse que o pequeno havia ficado tão
assustado com o urso que tivera de ser rebocado, às pressas e às
lágrimas, de volta para casa. A única certeza é que
Christopher se impressionou com Winnipeg, tanto que rebatizou seu ursinho
de pelúcia de Winnie, e depois de Winnie the Pooh sendo
Pooh o nome de um cisne que vivia no lago próximo à casa
dos Milne, na floresta de Ashdown, a cerca de 70 quilômetros de
Londres.
Milne não
só aproveitou os bichos de pelúcia do filho para povoar
suas histórias infantis, como as ambientou na floresta ao lado
e transformou o próprio Christopher em personagem. Mas não
fez isso para divertir o menino. Christopher foi educado por uma babá,
que o apresentava em breves visitas aos pais três vezes por dia.
Milne era um pai distante, e sua mulher mais ainda tanto que, depois
da morte de Milne, Christopher nunca mais tornaria a ver a mãe.
Seu ressentimento pelo pai também era notório. "Ele furtou
meu nome e me condenou à fama vazia de ser seu filho", disse certa
vez. Desde a primeira edição das aventuras, os personagens
viraram febre na Inglaterra em pequena, a rainha Elizabeth II tomava
chá num serviço decorado com eles. Verdade seja dita, o
escritor não poderia prever o sucesso de Pooh e também sofreu
com ele, amargurado por todo o restante de seus escritos ter caído
no esquecimento.
Pooh passou
à categoria de fenômeno quando Walt Disney, cujas filhas
adoravam a turma da floresta, comprou os direitos sobre o personagem,
nos anos 60. Hoje Pooh é mais rentável para a Disney do
que Mickey, e estima-se que os negócios com sua marca movimentem
pelo menos 100 milhões de dólares ao ano. Em 2001, o ursinho
foi o protagonista do maior contrato literário da história
da Inglaterra. A Disney pagou aos detentores do espólio 350 milhões
de dólares para garantir seu direito total sobre a marca até
2026, quando ela deve passar ao domínio público. Hoje, Pooh
serve para vender de tudo e não só para crianças.
O personagem estrela livros sobre administração empresarial,
boa forma e até taoísmo.
Essa indústria
gera outros desdobramentos polêmicos. Meio de brincadeira, meio
a sério, pesquisadores canadenses publicaram, há dois anos,
um artigo em que aplicam os critérios de diagnóstico psiquiátrico
a Pooh e seus amigos e concluem que eles personificam várias psicopatias.
O ursinho sofreria de síndrome de déficit de atenção
e de transtorno obsessivo-compulsivo. O burrico Ió seria vítima
de depressão e o Leitão, de ansiedade generalizada
e por aí vai. O artigo provocou um número recorde de cartas
para o Jornal da Associação Médica Canadense,
na maioria de leitores enfurecidos. Também fizeram sucesso duas
coleções de ensaios apócrifos lançados por
um estudioso da universidade californiana de Berkeley, em que os amigos
da floresta são analisados segundo os métodos das grandes
teorias filosóficas, do marxismo ao desconstrutivismo.
Nada se
compara, porém, ao ataque de patetice coletiva que Pooh provocou
nos governos de Londres e Washington, em 1998. Desde 1987, os bichinhos
de pelúcia de Christopher Robin estão expostos na Biblioteca
Pública de Nova York. Há cinco anos, uma parlamentar inglesa
foi visitá-los e saiu dizendo que eles estavam tristes e ansiosos
por voltar à pátria. Foi um deus-nos-acuda. O então
prefeito de Nova York, Rudolph Giuliani, bradou que os bonecos não
sairiam dali e foi "conversar" com eles relatando depois que a
turma garantira estar muito bem, obrigado. O bafafá só terminou
quando o primeiro-ministro Tony Blair, que estava com o presidente Bill
Clinton em Washington, divulgou um comunicado oficial (logo secundado
pela Casa Branca) no qual reafirmava sua crença na capacidade dos
americanos de zelar pelos bichinhos. Não à toa, Christopher
Robin de carne e osso passou a encarar a fama de Pooh como seu inferno
pessoal. A exemplo do que seu pai fizera com ele, Christopher nunca usou
suas histórias para embalar a filha pequena. Dava preferência
aos livros do também inglês P.G. Wodehouse, que não
contêm nada nem remotamente similar a um urso.
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