Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 799 - 23 de abril de 2003
Artes e Espetáculos Música
 

estasemana
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Índice
Seções
Brasil
Especial
Internacional
Geral
Guia
Artes e Espetáculos
  Um fenômeno chamado Madonna
Napoleão Bonaparte num romance histórico

Pooh, o ursinho da discórdia

colunas
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Stephen Kanitz
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo

seções
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Carta ao leitor
Entrevista

Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Arc
Gente
VEJA on-line
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Arquivo 1997-2003
Reportagens de capa
2000|01|02|03
Entrevistas
2000|01|02|03


 

Uma fera chamada
Madonna

Principal ícone da música pop,
Madonna completa
vinte anos de
carreira e lança
o CD American Life,
em que
se mostra na melhor forma

Sérgio Martins


Craig Mcde/divulgação
Veja também
Dos arquivos de VEJA
"Sexo, som e ambição" (13/06/1990)
"Ela é assim nunca pede desculpas" (25/11/1992)
Linha do tempo: os principais momentos da carreira da cantora
Estação VEJA: músicas, fotos e discografia


O tempo não costuma ser gentil com os artistas da música pop. Uns poucos, no entanto, parecem ter o dom de escapar aos seus efeitos. Mais do que todos, esse parece ser o caso da cantora americana Madonna. Ela tem 44 anos, acaba de completar duas décadas de carreira – mas não dá nenhum sinal de estar próxima de qualquer coisa como o declínio. "Estou num estado de espírito revolucionário", disse ela a VEJA, às vésperas do lançamento de seu novo álbum, American Life. Ao mesmo tempo que soa como um slogan, a frase também consegue parecer autêntica – outro dos raros dons de Madonna. E isso porque os gestos revolucionários têm sido um dos traços mais constantes na trajetória da artista. Ao longo dos anos, Madonna deixou sua marca em vários campos do comportamento e tornou-se um verdadeiro ícone – a mais perfeita encarnação do pop. Recentemente, foi eleita numa votação televisiva nos Estados Unidos a artista feminina mais influente de todos os tempos. Ela consegue mexer até mesmo com a academia, normalmente refratária a astros populares. Desde que a crítica cultural Camille Paglia escreveu os primeiros ensaios sobre ela, no começo dos anos 90, a cantora não deixou mais de ser objeto de teses que dissecam desde sua influência no movimento feminista até suas estratégias de marketing.

O campo em que Madonna mais causou polêmica, sem dúvida nenhuma, foi o da sexualidade. Ela ajudou a tirar a comunidade gay do gueto e a divulgar a filosofia do sexo sem culpa – os melhores exemplos disso estão nos clipes do CD Erotica, de 1992. Ao assumir alternadamente papéis como o da mulher-objeto e o da dominadora, Madonna também embaralhou identidades e fronteiras. "Madonna é a verdadeira feminista. Ela expõe o puritanismo e a ideologia sufocante do feminismo americano, ainda encalhado numa atitude de lamúria adolescente. Madonna ensinou as moças a ser plenamente femininas e sexuais, mantendo ao mesmo tempo controle sobre suas vidas", escreveu a crítica Camille Paglia num artigo dedicado à cantora.

Um dos principais talentos de Madonna sempre foi o de amplificar tendências e traduzir para as massas o que originalmente estava restrito a um pequeno grupo. Mais do que uma criadora, ela tem sido uma mestra em combinar influências que colhe daqui e dali – seja nas casas noturnas do underground nova-iorquino, seja no mundo das artes plásticas. Há quem diga – como o crítico Jason King, professor da Universidade de Nova York – que Madonna se comporta como uma "colonialista". Ela faria suas pesquisas, por exemplo, nos guetos negros e latinos, pilhando os elementos mais interessantes. Outros preferem acreditar, no entanto, que ela é uma semeadora de novidades. Na moda, as megaturnês da artista ajudaram a popularizar figuras como o estilista francês Jean-Paul Gaultier (os famosos sutiãs em forma de cone, usados por ela na turnê Blond Ambition, são criações dele) e os italianos Dolce & Gabbana. O gosto de Madonna pelas artes também é estimulado através de seus videoclipes. Justify My Love, de 1990, causou polêmica por causa das cenas de lesbianismo e simulação de sexo. Mas poucos notaram que o vídeo era também uma referência a O Porteiro da Noite, drama

erótico da diretora italiana Liliana Cavani. Outro bom exemplo do uso da arte por Madonna está em Frozen, de 1998. O vídeo da canção foi inspirado nos desenhos de coreografias da dançarina americana Martha Graham. Ela apoiou ainda (inclusive bancando suas exposições) importantes artistas de vanguarda, como Cindy Sherman e Tina Modotti. "O melhor do conhecimento de Madonna sobre a arte é que ela faz questão de dividir isso com o público", celebra Vince Aletti, crítico de arte do jornal Village Voice. A estratégia de Madonna emula os ensinamentos de Andy Warhol. "Warhol desenhou uma embalagem da sopa Campbell e a transformou numa obra de arte. Madonna faz o mesmo com a música pop. Mesmo sendo de alto consumo, ela vem embalada como arte fina", professa Jason King.

Madonna é um caso de artista cuja vida não pode ser separada de seu trabalho. Como diria um de seus ídolos, o escritor irlandês Oscar Wilde, ela fez da própria vida uma obra de arte – desde sempre disponível para ser consumida no mercado. A maneira meticulosa e eficiente como controlou a própria imagem fica evidente na comparação com dois artistas que, nos anos 80, disputavam com ela os primeiros postos na parada de música pop: Michael Jackson e Prince. Musicalmente, eles eram superiores a Madonna. Mas se revelaram um desastre no terreno vital das relações públicas. Jackson mergulhou numa realidade paralela para lá de esquisita e se viu envolvido até mesmo em acusações de pedofilia. Prince criou factóides como a troca do nome por um símbolo impronunciável – o que não impediu que afundasse na obscuridade e na irrelevância. O único artista pop que suporta comparação com Madonna, na maneira ao mesmo tempo esperta e ousada de conduzir a carreira, talvez seja David Bowie. O cantor inglês foi apelidado de "camaleão" por causa das viradas musicais que operou na carreira, iniciada no fim da década de 60. Madonna trilha caminhos semelhantes, mas a repercussão de seu trabalho é muito maior. "Na história da música pop, talvez não haja nenhum outro artista que soube conduzir sua carreira com tanta inteligência", diz o crítico Robert Christgau, um dos mais respeitados dos Estados Unidos. Os dois primeiros álbuns dela, Madonna (1983) e Like a Virgin (1984), foram feitos sob controle da gravadora. A partir de True Blue, lançado em 1986, ela passou a controlar todos os detalhes de produção de seus discos.

Um dos aspectos que mais chamam a atenção em Madonna é a sua capacidade de criar notícias em torno de si própria. O lançamento de American Life foi precedido por algumas delas. A primeira foi a publicação de um ensaio do fotógrafo americano Steven Klein publicado na edição de março da revista W, no qual Madonna revela toda a flexibilidade que adquiriu graças à prática da ioga. Atualmente, as fotos estão sendo expostas na Galeria Deitch, em Nova York. Depois, um vídeo politicamente agressivo – que, no entanto, não surtiu o efeito esperado. Feito com base na música American Life, o vídeo traz um sósia do presidente americano, George W. Bush, acendendo um charuto numa granada atirada pela cantora. Lançado no meio da guerra no Iraque, o clipe causou mal-estar. "Eu fiz esse trabalho antes de a guerra começar e não tive intenção de ofender ninguém. Torço pelo sucesso do Exército dos Estados Unidos", desculpou-se Madonna, que optou por tirá-lo do ar.

Para alimentar a curiosidade do público e seu apetite por polêmicas, Madonna nunca hesitou em revelar pedaços de sua intimidade – fossem histórias de seu casamento atribulado com o ator Sean Penn, nos anos 80, detalhes picantes das amizades coloridas com a humorista Sandra Bernhard e a modelo Ingrid Casares e até suas fantasias sexuais, que ela estampou em Sex, livro de 1992. Mais recentemente, contudo, os observadores notaram uma mudança nesse padrão. O relacionamento com os filhos passou a ser uma área resguardada de sua intimidade. Ela evita expô-los – e é uma mãe zelosa. Madonna não permite que Lourdes Maria e Rocco, de 6 e 2 anos, assistam à televisão ou ouçam canções cujas letras falam sobre sexo. Ainda que os hits sejam dela. "Ela resolveu assumir a persona de supermãe", diz Ann Douglas, antropóloga e professora de literatura comparada da Universidade Columbia, nos Estados Unidos. "Madonna quer mostrar que uma mulher pode ser mãe e dona-de-casa e, ainda assim, ser uma pessoa poderosa."

Há dois anos, Madonna casou-se com o cineasta inglês Guy Ritchie, com quem teve o filho Rocco. Eles dividem o ano entre a Inglaterra e os Estados Unidos. Têm casas enormes nos dois países, que custaram 3,5 milhões de dólares cada uma. Embora nos últimos tempos ela tenha derramado elogios a Londres, consta que o clima da cidade já a deixou próxima da depressão. A atmosfera ensolarada de Los Angeles agrada mais à cantora. É lá que ela tem se dedicado a seus dois principais hobbies (ou estudos) do momento: a ioga e a cabala judaica. Madonna pratica a ioga há vários anos, e já passou pelas mãos de uma série de instrutores. O atual é o guru de origem indiana Ravi Singh. O interesse pela cabala é mais recente. Aluna aplicada, Madonna tem freqüentado a sinagoga ao menos duas vezes por semana. "Ela é uma aluna muito aplicada", disse a VEJA o rabino Yehuda Berg, que dirige o centro de cabala onde a cantora tem aulas.

Madonna sempre foi elogiada por seu tino nos negócios. Uma única boa tacada rendeu-lhe 15 milhões de dólares recentemente: a venda dos direitos da canção Ray of Light para o empresário Bill Gates empregar num comercial de informática. Sua fortuna é estimada em 350 milhões de dólares – e só no ano passado ela faturou 56 milhões. A conta bancária polpudíssima não a livrou, contudo, de certas excentricidades. Numa entrevista para a revista inglesa The Face, há três anos, a cantora revelou que coleciona cupons de desconto e faz questão de entregá-los à empregada toda vez que ela sai para fazer compras. Realmente, poucos artistas têm a visão de Madonna.

Há três semanas, o jornal americano The New York Times começou um artigo sobre a cantora com a seguinte observação: "Madonna, que por vinte anos foi uma diva do pop, pode estar diante dos estágios finais de sua longa carreira". Esse pessimismo baseia-se numa impressão: a de que Madonna tem dificuldades para conquistar novos fãs entre o público dos 11 aos 25 anos, que constitui o principal contingente de consumidores de CDs. Realmente, Madonna já não vende mais como na estréia. O disco Like a Virgin, de 1984, vendeu 10 milhões de cópias nos Estados Unidos, contra 2,9 milhões de Music, lançado em 2000. Embora tenha números respeitáveis no currículo, a pop star nunca foi uma batedora de recordes de vendagem. Os Beatles e Elvis Presley, por exemplo, superaram a marca do bilhão de discos comercializados ao redor do mundo. Madonna "só" vendeu um total de 200 milhões. Mas há que levar em conta que Madonna é uma artista que, apesar de ter um trabalho comercial, nunca fez muitas concessões. Sempre quis cultivar uma imagem de independência, e isso ajuda no que realmente interessa a ela: influenciar mais no campo do comportamento do que propriamente no musical. Prova disso é o seu endeusamento pela populosa tribo tecno. Madonna é uma das artistas mais remixadas pelos DJs de todos os continentes. O seu principal trunfo junto a essa turma é a "atitude" – um termo que ela colocou em circulação como afirmação de individualidade. A tese do New York Times talvez seja correta no que diz respeito ao público de 11 a 17 anos. Afinal de contas, não se pode esperar de uma artista de quase 50 anos que ainda banque a "material girl" para propiciar a catarse da meninada espinhenta. Mas, entre os jovens de 18 a 25 anos, que justamente compõem o universo clubber, Madonna parece continuar bastante popular. Na verdade, ela chegou a um estágio em que é suficiente administrar com criatividade a imagem que construiu ao longo desses vinte anos. É uma aposta razoável que ela permanecerá no topo por mais uma década. Que ninguém subestime sua capacidade de reinventar-se.

 

O efeito Madonna

• Ela vendeu 200 milhões de discos ao redor do mundo

• Com suas muitas metamorfoses, Madonna expôs os mecanismos de criação de celebridades, e brincou com eles. Isso teve um forte impacto no mundo do showbiz

• Madonna afrontou tabus. Ajudou a tirar a cultura gay do gueto e promoveu a filosofia do "sexo sem culpa"

• Ela é uma especialista em traduzir para a massa tendências originalmente restritas a pequenos grupos.
Divulgou o trabalho dos estilistas Jean-Paul Gaultier e
Dolce & Gabbana, dos fotógrafos de moda Steven Meisel e Mario Testino e de artistas de vanguarda como Tina Modotti e Cindy Sherman

 

 

ENTREVISTA

 
Reuters

Veja – O que a ioga lhe proporciona, além da incrível flexibilidade que você tem exibido?
Madonna – O estudo da ashtanga yoga me ensinou a experimentar o momento presente de maneira plena. E a vivê-lo sem estar presa a idéias e sentimentos. Aprendi que limitações são estados mentais, de maneira nenhuma relacionadas à sua existência corpórea. Ter uma mente flexível é tudo de que você precisa para alcançar asanas (posições) flexíveis. Agora eu estou tentando convencer Guy (Ritchie, seu marido) a estudar também.

Veja – Muitos críticos a têm comparado com David Bowie, já que ambos passaram por inúmeras transformações nas respectivas carreiras. Você acha correta essa comparação?
Madonna – Para mim essas metamorfoses significam crescimento, evolução.

Veja – Você se arrepende de algum passo que deu na carreira? Existe uma música ou filme que preferia não ter lançado?
Madonna – Há uma diferença entre ter arrependimentos e questionar decisões que você tomou e valores que defendeu. Arrependimento é em relação a algo que você gostaria de anular, que você gostaria que nunca tivesse acontecido. Já questionar decisões passadas e valores que você um dia adotou é um ato de reflexão – de reavaliar o que importa na vida e dizer para si mesmo: "Muito bem, talvez aquele não tenha sido o melhor caminho, mas eu vou aprender com a experiência".

Veja – Você diz que os seus vídeos sempre têm referências artísticas escondidas. Qual seria a referência em American Life, o primeiro vídeo tirado de seu novo álbum?
Madonna – O mais importante nesse caso é a referência ao espírito revolucionário. Isso vale para o álbum todo: no atual momento, eu me sinto num estado mental revolucionário. A capa do álbum faz lembrar Che Guevara, um ícone instantaneamente identificado com um espírito de revolução.

Veja – Muito se diz que você não gosta da Inglaterra, terra natal de seu marido. Afinal, é um bom lugar para viver?
Madonna – Eu adoro a Inglaterra. Passo metade do ano lá com a minha família.

Veja – Uma das melhores canções de American Life é Mother & Father, na qual você se recorda de sua mãe. Você a tem como modelo ao lidar com seus próprios filhos?
Madonna – Essa música foi feita para que eu me livrasse da minha dor, da dor pela morte da minha mãe. Gosto da idéia de usar a música com esse tipo de objetivo. Tento ser a melhor mãe possível para meus filhos, aprendendo a perdoar os erros da minha mãe nesse processo.

 

Novo disco de Madonna prova
que seu fôlego é grande

Quem não se empolgou com Die Another Day, canção-tema da mais recente aventura de James Bond, e com o single American Life pode ficar sossegado: essas são as faixas menos interessantes do novo álbum de Madonna. As nove canções restantes são elaboradas criações tecno e mostram que, depois de uma parceria meio confusa em Music, seu disco anterior, Madonna acertou perfeitamente os ponteiros com o produtor franco-afegão Mirwais. Os vocais alterados por computador, por exemplo, estão bem mais discretos e ao ponto: não há aquele excesso no uso do vocoder, ferramenta que deixa a voz humana parecida com a de um robô. As batidas eletrônicas também são contrabalançadas com o bom uso de guitarras e violões. Hollywood, I'm So Stupid (em que Madonna mostra ter tirado bom proveito de seus estudos de ioga ao entoar um mantra) e Easy Ride são faixas com grande potencial para estourar nos clubes. Com seu belo coro gospel, Nothing Fails tem tudo para virar antológica. No quesito letras, pode-se dividir as canções em dois grupos. Num deles, Madonna fala sobre suas buscas religiosas e espirituais e sobre as constantes transformações por que passou na vida. O segundo grupo é o das letras "políticas", que criticam o modo de vida americano. Aqui, o discurso não é dos mais inspirados. Não funcionaria num palanque – mas ninguém vai reclamar nos palcos e pistas de dança. Com American Life, Madonna mostra que tem fôlego para muitos anos de carreira.

 



   
canaldecompras
O que é canal de compras
CDs DVDs Vídeos
Saraiva.com.br
 
Livros
Saraiva.com.br
Livraria Nobel
 
Ingressos
Ingresso.com.br
 
   
  voltar
   
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS