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Edição 1 799 - 23 de abril de 2003
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Um caso de amor animal

Cães de estimação aprendem
truques para melhorar a
qualidade de vida – deles

Ariel Kostman

 
Oscar Cabral

Raça: shih tzu
Características:
calmo, como convém a uma raça tibetana, adora andar no colo e ser mimado. Peludo, exige tosa e escovação constantes. "Parece um bichinho de pelúcia", derrete-se a atriz Nívea Stelmann, dona de "Penélope"
Preço:
de 600 a 1 000 reais


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Select Dog: Teste on-line define a melhor raça de cão para cada usuário
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Desde que nos domesticaram, a vida deles melhorou muito – e a hipótese de que foram os ancestrais dos cães que colocaram os humanos a seu serviço, e não o contrário, vem sendo estudada a sério. Nada se compara, porém, ao notável salto de qualidade ocorrido nas últimas décadas. Os mais velhos talvez se lembrem de como era a vida de cachorro num passado não muito distante. Alimentados com os restos da comida dos donos, eles dormiam no quintal em improvisadas casinhas de madeira, tomavam banho de mangueira, e brinquedo era no máximo um osso todo roído. Chamavam-se "Duque", "Totó" e "Faísca". As mudanças no status canino acompanharam as transformações sociais entre os bípedes. Com mais pessoas morando sozinhas e carentes de afeto, as famílias tendo cada vez menos filhos, os pais se culpando por sair e deixar os pequenos em casa e os padrões de consumo se sofisticando, a cachorrada pegou carona na mordomia. Segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Alimentos para Animais (Anfal), existem atualmente no país cerca de 21 milhões de cães com endereço fixo, a segunda maior população do planeta, atrás apenas dos Estados Unidos. Destes, 34% são alimentados com ração industrializada, um indício dos cuidados diferenciados de que são objeto.

Outro sinal que salta à vista são as 15.000 lojas especializadas em cuidar deles e mimá-los, as pet shops – o inglês é praticamente o idioma oficial do mundo dos cães de companhia. É um negócio em plena expansão que no ano passado se traduziu, de acordo com as estatísticas do Conselho Regional de Medicina Veterinária (CRMV), na abertura de 813 novas lojas no Estado de São Paulo – média de 2,2 por dia. A veterinária Renata de Menezes Corigliano, que investiu 130.000 reais para abrir o Pet Life – Centro de Bem-Estar Animal no bairro do Morumbi, em São Paulo, resume o motivo da escolha: "Aqui, todo mundo tem cachorro". Como diferencial, sua pet shop oferece uma creche canina destinada a aplacar a dor de consciência de donos que trabalham o dia todo e deixam seus bichinhos em casa, roendo o pé do sofá. "É um novo conceito, que conheci em Nova York", explica. "O cão passa o dia e tem uma rotina de brincadeiras e atividades."

 
Oscar Cabral

Raça: pug
Características:
chinês na origem, é companheiro e adora passear. Apesar de forte, não é agressivo, e seu latido parece um ronco. Sofre com o calor. "Ela adora ficar no ar condicionado", diz a socialite Vera Loyola, dona de "Perepepê"
Preço: de 1 000 a 2 000 reais

A lista de mordomias animais é uma obra em permanente e criativa construção. Quem não tem tempo de passear com o cachorro pode contratar um dog walker por 5 a 10 reais a hora. A atividade vem sendo popularizada por Edwiges, a personagem de Carolina Dieckmann na novela das 8, Mulheres Apaixonadas. Quem quer viajar e não tem com quem deixar o cachorro pode levá-lo para um hotel (diárias de 25 a 60 reais, dependendo do local e das amenidades), que, se ainda mantém as indefectíveis gaiolas – que dono não fica de coração partido? –, agora dispõe de varandinha para o banho de sol e passeio diário em volta do quarteirão. No quesito ração, a diversidade é impressionante: oferecem-se alimentos para filhotes, adultos, idosos, do tipo light para obesos, hipertensos ou com problemas de colesterol, além de rações terapêuticas para cachorros cardiopatas, diabéticos ou com alterações renais. As comidinhas mais simples (leia-se: nacionais) são vendidas em supermercados. As mais sofisticadas, geralmente importadas ou artesanais, são encontradas em grandes lojas exclusivamente dedicadas a bichos e em pet shops de luxo. Um exemplo da sofisticação: aberta em dezembro do ano passado em São Paulo, a "padaria" The Dog Bakery oferece a cães de fino paladar bolos, tortas, biscoitos e pães preparados com farinha integral, sem sal nem açúcar. Entre as iguarias mais pedidas está uma inusitada torta de maçã com ameixa. Ao lado, fica um hospital 24 horas que dispõe de tratamentos convencionais e alternativos, como homeopatia e florais. Se o dono preferir alimentar seu bichinho com comida caseira, Roberta Sudbrack, a chef do Alvorada no mandato de Fernando Henrique Cardoso, lança em julho o livro É Gostoso pra Cachorro, só com receitas animais.

O comércio de produtos para bichos de estimação movimenta 14 bilhões de reais por ano, segundo a Associação Brasileira do Mercado Animal (Abma). "E o mercado tem crescido 20% ao ano", comemora o carioca Jorge Pereira, presidente da Abma e oftalmologista veterinário. "É um segmento impulsionado por novidades", diz Lilian Cotrim, dona do The Pet From Ipanema, com cinco lojas no Rio de Janeiro, uma em Curitiba e uma em São Paulo, e um leque de 4.000 produtos à venda em cada ponto. "Você precisa sempre ter coisas novas para agradar aos clientes", explica Lilian. Famosos como a poodle de Luiza Brunet, o maltês e o pug de Guilhermina Guinle, o shih tzu de Fábio Assunção e a yorkshire de Marcello Antony fazem parte da clientela. Na Le Chien, em São Paulo, 150 banhos e vinte tosas por semana representam 40% da receita da loja, impulsionados pelo serviço de transporte domiciliar à módica taxa extra de 3 reais. "Em um ano, quadruplicamos o faturamento", festeja a proprietária, Simone Keim. O resto do movimento vem da venda de mimos como ossinhos de borracha da grife Gucci (188 reais a unidade) e uma linha de perfumes e xampus franceses (150 reais o frasco).

Presentes para seu bichinho fazem parte da rotina da atriz Nívea Stelmann, a apaixonada dona de "Penélope", uma shih tzu, uma das raças mais em voga no momento, originária do Tibete e charmosíssima em sua alva pelagem. Refrescada com banhos semanais em pet shop – "Ela sofre muito com o calor do Rio" –, Penélope dorme em uma cestinha ao lado da cama da atriz. "Ela parece um bichinho de pelúcia", derrete-se Nívea. O ranking das raças da moda é de enrolar a língua. Figuram nele o elegante whippet, um cão corredor originário da Inglaterra, e o border collie, peludo parente da célebre "Lassie", também com sangue inglês. A lista continua com o jack russell terrier, simpático caçador de raposas (primo do fox terrier, raça que anda se revalorizando – a ela pertence "Michele", a cadelinha do casal Lula da Silva), o bernese mountain dog, uma fofura procedente da Suíça, e o exótico e placidamente oriental pug, a raça de "Perepepê", a cachorrinha da socialite Vera Loyola. Perepepê, 2 anos, dispensa casa própria: anda no colo e dorme na cama de Anna Thereza, a filha de Vera. A depender da dona, até seu futuro profissional está traçado. "Quero que seja garota-propaganda", anuncia Vera.

De onde vem tanta paixão animal? Estudando os marcadores genéticos dos membros da família canina (cachorros, coiotes, lobos e chacais), o biólogo Robert Wayne concluiu que eles se separaram há muito mais tempo do que se pressupõe – entre 100.000 e 130.000 anos atrás. Nossos ancestrais ainda estavam muito distantes das atividades para as quais os cachorros se tornariam úteis, como o pastoreio. É isso que sustenta a teoria segundo a qual era do interesse dos protocães aproximar-se dos bípedes, não vice-versa, possivelmente para aproveitar restos de comida – tem coisas que nunca mudam, não é? Nesses 100.000 anos de convívio, sobrou tempo para o estabelecimento de vínculos profundos. Mesmo quem sabe muito bem que os amiguinhos animais estão primordialmente interessados em comida, casa e companhia para se divertir acaba cedendo às demonstrações de afeto incondicional. "Os bichos suprem a carência de contato físico e emocional presente na sociedade", teoriza o zootecnista Alexandre Rossi, especialista em comportamento animal. Rossi atende em média 35 animais por mês, duas vezes mais que há dois anos. A um custo de 100 reais por sessão, trata de problemas como agressividade excessiva e ansiedade de separação (cachorros que, na ausência do dono, sujam e destroem a casa). "Nos casos mais graves, recorremos a antidepressivos", informa o zootecnista. Se os cães domesticaram os homens, estes os transformaram à sua imagem e semelhança.

 

Raça: jack russell terrier
Características: criado para caçar raposas, é ativo e corajoso. Se não for bem adestrado, pode se tornar agressivo. Apareceu no filme O Máskara, com Jim Carrey
Preço: de 800 a 1 200 reais

Raça: border collie
Características: o mais inteligente dos cachorros, precisa de espaço e atividade. Preso em apartamento, pode desenvolver comportamento compulsivo. Apareceu em Babe, o Porquinho Atrapalhado
Preço: de 800 a 1 500 reais

Raça: whippet
Características: corredor dos mais velozes, capaz de atingir 65 quilômetros por hora. Calmo, inteligente e carinhoso, adapta-se a casa e apartamento
Preço: de 500 a 1 200 reais

Raça: bernese mountain dog
Características: originalmente um cão pastor criado na Suíça, é forte e cheio de energia. Exige muita atenção e não se dá bem em apartamento
Preço: de 500 a 1 200 reais

 

   
 
   
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