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Edição 1 799 - 23 de abril de 2003
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Check-up: você ainda
vai fazer um

Descobrir uma doença ainda em
fase inicial é o maior trunfo dos
médicos. E hoje eles dispõem
de um arsenal fantástico para
os seus diagnósticos

Anna Paula Buchalla

 
Fotos Claudio Rossi

CORAÇÃO SOB ESFORÇO
O teste ergométrico revela 80% dos casos de obstrução arterial. O exame está na lista dos grandes centros de check-up do país



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O corpo devassado
Exames básicos
Dos arquivos de VEJA
"Mais um exame no checkup" (14/8/2002)
"Check-up: nunca deixe de fazer" (28/3/2001)
"A cura pela prevenção" (28/6/2000)

O homem criou telescópios que vasculham galáxias a milhões de anos-luz da Terra. Também desenvolveu submarinos-robôs capazes de revelar o fundo dos oceanos, aonde a luz do Sol não chega. Mas, até bem pouco tempo atrás, o homem ainda não havia conseguido inventar aparelhos que mostrassem com nitidez e amplitude a atividade no interior de seu próprio corpo. Esse desafio tecnológico começou a ser vencido em 1998, com o lançamento de tomógrafos computadorizados que registravam o organismo em funcionamento, a uma velocidade de quatro fotos por segundo. De lá para cá, essas máquinas foram aperfeiçoadas de tal forma que as de última geração literalmente filmam, a 32 quadros por segundo, grandes extensões dentro do corpo. São os multislices (multifatias, em inglês). Uma dessas máquinas já está instalada numa clínica de Brasília, e uma segunda está prestes a ser ativada em São Paulo, no Hospital Beneficência Portuguesa. Com elas, uma boa seqüência de imagens pode ser obtida em apenas dez segundos. Outros hospitais brasileiros já dispõem de tomógrafos capazes de fazer dezesseis fotos por segundo, o que também representa um enorme progresso. Tais aparelhos são o aspecto mais vistoso de uma área da medicina preventiva que salva milhões de vidas a cada ano, ao redor do mundo – a do check-up.

A lógica do check-up é simples: se uma doença é detectada em estágio inicial, maior é a chance de ela ser curada. Evidentemente, trata-se de uma lógica produzida pelos avanços na medicina como um todo. Se houvesse algum tipo de check-up no início do século XX, ele só serviria para causar preocupação ao paciente (quando não pânico), visto que não existia tratamento para a maioria das doenças graves. As estatísticas a respeito dos benefícios do check-up são impressionantes. No caso do câncer de próstata, uma das maiores causas de morte entre os homens, entre 70% e 90% dos tumores são curados quando descobertos precocemente. Quanto ao câncer de mama, o grande pesadelo feminino, houve uma queda de 30% nos óbitos, nos últimos dez anos, com a simples popularização da mamografia (veja quadro abaixo). Os resultados positivos estimulam investimentos cada vez maiores na pesquisa de novos métodos diagnósticos e no aperfeiçoamento dos já existentes, como a tomografia.


A bateria de exames que leva o nome inglês de check-up ganhou sua primeira forma no fim da década de 50, com o início do programa espacial americano. Os candidatos a astronauta tinham de submeter-se a uma série de avaliações físicas, para verificar se eles estavam aptos ou não a enfrentar um lançamento. Dez anos depois, o check-up foi incorporado aos receituários médicos. Durante muito tempo, no entanto, só se recorria a ele quando havia dúvidas sobre o quadro de um paciente. Era uma espécie de tira-teima. A partir da década de 80, com o aprimoramento dos métodos diagnósticos e a certeza de que com isso é possível impedir a evolução de uma série de males, o check-up tornou-se um procedimento corriqueiro da medicina preventiva. Tanto que a idade média de homens e mulheres que fazem rotineiramente esses exames baixou de 45 para 35 anos. Houve ainda uma mudança na filosofia do check-up. Antes, solicitava-se a todos os pacientes uma série completíssima de testes. Hoje, vigora o check-up personalizado: há os exames básicos (veja quadro) e aqueles que variam de pessoa para pessoa. O check-up eficiente é aquele que se faz depois de o médico realizar um exame clínico minucioso e esmiuçar os hábitos de vida do paciente, bem como o histórico de saúde de sua família. O levantamento de tais dados é que indicará quais os exames mais recomendáveis, além daqueles que compõem o cardápio essencial.

Os progressos na área do check-up não se medem apenas pela maior nitidez das imagens ou pela maior precisão dos resultados laboratoriais. Deve-se levar em conta também que os exames estão cada vez menos invasivos. Não faz tantos anos assim, um paciente com suspeita de tumor cerebral tinha necessariamente de cair na faca – o crânio era serrado e a massa encefálica exposta, o que aumentava o risco de lesionar áreas sadias do cérebro. Atualmente, graças à ressonância magnética, para mapear o cérebro basta ao paciente deitar numa maca e entrar num tubo. Lá dentro, ondas eletromagnéticas permitem a visualização de fatias do cérebro, com uma perfeição incrível, possibilitando ao especialista captar anomalias sutis. Doenças que antes só eram estudadas em cérebros de cadáveres agora podem ser acompanhadas em toda a sua evolução, o que deverá ajudar na descoberta da cura para elas. Entre esses distúrbios, estão o mal de Alzheimer, o mal de Parkinson, a esclerose múltipla, a epilepsia e a esquizofrenia. A técnica é especialmente eficaz no diagnóstico de doenças em tecidos moles, como os do próprio cérebro, dos músculos, dos tendões, dos ligamentos, do fígado, da bexiga e dos rins.

 

SUPERTOMÓGRAFO
A detecção precoce de tumores e doenças cardíacas foi beneficiada pelas máquinas de última geração, que flagram nódulos de poucos milímetros e microplacas de gordura nas artérias

Até 1974, o único método de diagnóstico não invasivo era o raio X, inventado em 1895 por um físico alemão. As máquinas de raio X tradicionais só dispõem de filmes com cerca de sessenta tonalidades de cinza. Os tomógrafos mais modernos, por sua vez, contam com mais de 1 000 tons. Esse é um diferencial importantíssimo, porque na pequena variação entre um tipo de cinza e outro pode estar a indicação de um tumor com milímetros de diâmetro. Nos aparelhos de última geração, um software especial associa a cada tom de cinza uma cor. Do ponto de vista do diagnóstico, esse artifício não é importante. Mas o resultado dele é espetacular.

Um dos campos da medicina que obtiveram mais ganhos com a evolução dos exames foi a oncologia. Se atualmente seis de cada dez casos de câncer podem ser curados, muito se deve ao aprimoramento dos exames preventivos. Uma das novidades é o aparelho chamado PET/CT, que combina a tecnologia do positron emission tomograph (tomógrafo de emissão de pósitron), ou PET, com o tomógrafo de última geração, o multislice. A máquina só existe por enquanto nos Estados Unidos e em alguns países da Europa. A coisa funciona do seguinte modo: uma pequena quantidade de glicose é injetada no paciente. Em seguida, feixes de pósitron, uma antipartícula do elétron, varrem o corpo da pessoa, para determinar o consumo dessa substância pelas células. A presença de células famintas demais numa região indica a existência de um foco canceroso. A combinação com o tomógrafo multislice permite que se obtenha uma imagem anatômica do tumor em estágio muito inicial. Os especialistas agora depositam grandes esperanças no que chamam de marcadores moleculares. A idéia é fazer com que o paciente tome um comprimido composto de substâncias já batizadas de biochips, capazes de reconhecer tumores ainda na etapa molecular. Ou seja, em estruturas muito menores do que as células. As pesquisas com os biochips estão em fase avançada e devem terminar em três anos.


As antigas radiografias das mamas só eram capazes de identificar tumores com mais de 1 centímetro de diâmetro, quando a doença já estava em estágio avançado. Com a invenção da mamografia de alta definição, tumores de até meio milímetro passaram a ser identificados, o que aumentou drasticamente as chances de cura. Pois bem, os médicos já podem contar com aparelhos ainda melhores, de altíssima definição. É a mamografia digital, disponível em algumas clínicas brasileiras. Por meio dela, é possível aumentar em até vinte vezes a imagem de um nódulo. Flagra-se, assim, um tumor quando ele ainda tem o tamanho de um grão de areia. A mamografia digital também é bem menos desconfortável: a paciente faz o exame em apenas quatro minutos, contra os vinte minutos da tradicional. Além disso, com ela, não há necessidade de repetir o procedimento, o que ocorre em 30% dos casos no mamógrafo tradicional.

O toque retal e a dosagem de PSA, proteína produzida pela glândula prostática, são exames eficientes para flagrar o câncer de próstata em fase inicial. De cada 100 tumores, no entanto, seis escapam à combinação dos exames. Do ponto de vista estatístico, é pouquíssimo. Mas não, evidentemente, para os 6% de homens que se vêem às voltas com o drama de ter um câncer que cresceu por não ter sido detectado. Para tentar diminuir ainda mais esse índice, os médicos começaram a lançar mão da ressonância magnética complementada por espectroscopia, uma dosagem de determinadas substâncias presentes na próstata. A partir dessa medição é possível determinar a localização exata de um nódulo, por menor que ele seja. O inconveniente é que o exame é tão desagradável quanto o toque retal.


Os diagnósticos por imagem têm- se mostrado especialmente eficazes na cardiologia. Ao fornecer imagens tridimensionais do coração, eles possibilitam saber com precisão a localização e o tamanho das placas de gordura e do depósito de cálcio nas artérias coronárias. No ano passado, pesquisadores americanos descobriram que o acúmulo de gordura nos vasos sanguíneos suga o cálcio circulante no organismo. Estabeleceram, assim, a relação entre a calcificação das artérias e o risco de infarto. Só por meio de uma tomografia é possível identificar a concentração de cálcio nas coronárias. O uso desse tipo de exame para a identificação de doenças cardíacas é recentíssimo, data de 2000. Até então, a saúde das artérias coronárias só podia ser avaliada por intermédio do cateterismo, inventado em 1929. Como é um procedimento invasivo, o cateterismo exige a internação do paciente por, no mínimo, doze horas, além de oferecer os riscos comuns a toda intervenção cirúrgica, sobretudo infecções.

O desenvolvimento de novos equipamentos é tão rápido que deu origem a um paradoxo: não raro, os médicos ficam em dúvida sobre o que fazer com a informação pormenorizada que recebem. Ainda não há como saber, por exemplo, se um nódulo de poucos milímetros se transformará ou não num câncer. O tema causa discussões acaloradas no meio médico, sobretudo nos Estados Unidos. Há quem defenda que a invenção de novos aparelhos sofra uma desaceleração, até que se consiga entender por inteiro os dados que eles fornecem. Trata-se, claro, de uma posição retrógrada. Para efeito de comparação, é o mesmo que dizer que o telescópio espacial Hubble deveria ser desligado só porque os astrônomos não conseguem decifrar completamente as imagens de muitos fenômenos captadas por ele. O que é preciso, isso sim, é acelerar a capacidade de entendimento dos médicos, para diminuir o descompasso.

 

Fotos divulgação

TURISMO MÉDICO
Hotéis de luxo, como o Hilton do Havaí (acima, à esq.) e o Sunway Lagoon, na Malásia (acima), oferecem check-up aos hóspedes. Um pacote de sete dias e sete noites no hotel havaiano chega a 12 000 dólares

Entre os brasileiros de classe média, o check-up anual está virando rotina. No ano passado, o número de pessoas que se submeteram a uma bateria de exames cresceu 30% em relação a 2000. A grande maioria dos check-ups é bancada por empresas. A explicação é que é mais econômico investir na prevenção de problemas de saúde do que custear tratamentos de doenças já instaladas. Um bom check-up ajuda a convencer o funcionário a abandonar vícios e a adotar um estilo de vida mais saudável. Isso é também ótimo para as firmas. Um fumante gera despesas de saúde 25% maiores do que um não-fumante. Um obeso custa 8% a mais do que os que se mantêm na linha. Um sedentário, 36% a mais do que os fisicamente ativos.

A demanda por check-ups é tanta que grandes hospitais vêm inaugurando unidades inteiras dedicadas exclusivamente à realização de baterias de exames. Uma das mais portentosas do Brasil é a do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Na média, um pacote custa cerca de 1.500 reais. Criou-se até um novo modismo: o "health tourism", ou "turismo de saúde". Hotéis e spas luxuosos oferecem pacotes de check-up completo: exames de sangue e de urina, avaliações dentárias, tomografia computadorizada do corpo todo e por aí vai. A onda começou na Califórnia, nos Estados Unidos, e se espalhou pelo mundo. Pode-se fazer um check-up cinco-estrelas na Indonésia, nas Filipinas, na Índia e em Portugal, entre outros países. O Hilton do Havaí oferece três pacotes diferentes. O mais caro, que dura sete dias e seis noites, custa 12.000 dólares. Entre uma aula de surfe e uma de caiaque, o hóspede passa por uma tomografia, uma colonoscopia e uma densitometria óssea. Um programão.

 

Antes que a doença apareça

Circulou recentemente nos Estados Unidos uma campanha publicitária que tinha como slogan a seguinte frase: "Prepare-se contra o câncer". Idealizado pela empresa de biotecnologia Myriad Genetics, com sede na cidade de Salt Lake City, o anúncio convocava as mulheres com histórico familiar de câncer de mama e de ovário a se submeter a testes genéticos. O enfoque comercial dado a esses exames é o sinal mais evidente do crescimento de uma nova área da medicina preventiva, a medicina de prognóstico. A diferença em relação aos exames que compõem o check-up habitual é que estes se baseiam na medicina de diagnóstico. Ou seja, indicam a existência de uma enfermidade já instalada – ainda que em fase inicial. A partir da análise genética é possível saber se um paciente tem predisposição para desenvolver uma série de doenças hereditárias. De alguns tipos de câncer a distúrbios cardíacos. De hemofilia a doenças degenerativas do cérebro, como o mal de Alzheimer. Há quatro anos, a eficácia dos testes genéticos era de 70%. Hoje, chega a 99%. No Brasil, os hospitais e centros de diagnósticos mais modernos oferecem alguns desses exames. Os custos variam de 2.000 a 12.000 reais. Os exames mais comuns buscam a presença dos genes BRCA1 e BRCA2, associados aos cânceres de mama e de ovário. As mulheres que carregam um desses genes têm até 87% de risco de desenvolver tumores de mama e 44% de probabilidade de vir a sofrer de câncer de ovário. Quando foi colocado à disposição do público, em meados da década de 90, o exame levou algumas pacientes, principalmente nos Estados Unidos, a adotar medidas extremas. Com o resultado positivo para a presença de um desses genes, elas optaram pela extirpação total das mamas. É uma irracionalidade: a genética indica a probabilidade de se ter uma doença, mas uma simples probabilidade não significa que a pessoa vá adoecer. Os exames genéticos são importantes, isso sim, para que as pessoas redobrem os cuidados com a prevenção, eliminando ao máximo os fatores de risco para o surgimento de um distúrbio.



   
 
   
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