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As
duas reformas
Com governadores, Lula
avança na
previdenciária,
mas empaca na tributária
Maurício
Lima
Reuters
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| Lula,
com os governadores: onze horas de reunião, moqueca e acordos
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A
história política ensina que encontros de governadores com
o presidente em Brasília costumam produzir só um resultado
concreto: a fotografia. Na semana passada, Luiz Inácio Lula da
Silva reuniu-se com os governadores na Granja do Torto, com o objetivo
de alcançar um consenso sobre duas questões centrais
as reformas previdenciária e tributária, que precisam ser
aprovadas no Congresso Nacional, sobre o qual os governadores têm
influência sensível. Ao fim de onze horas de reunião,
apareceu a tradicional fotografia e um saldo notável. Pela primeira
vez, produziu-se um consenso sobre a reforma da Previdência, essa
instituição pródiga na produção de
rombos bilionários. Com a chancela dos governadores, Lula vai enviar
ao Congresso o projeto cujo conteúdo VEJA antecipou na edição
passada: taxação de servidores inativos em 11%, fixação
de teto único de 2.400 reais para aposentadorias nos setores público
e privado e aumento de sete anos na idade mínima para aposentadoria
pública. Se aprovada no Congresso, a reforma economizará,
já no próximo ano, 3,1 bilhões de reais.
A reunião só não foi um sucesso por inteiro porque,
depois de almoçarem uma moqueca capixaba, os governadores se engalfinharam
ao discutir a reforma tributária. Sem consenso, o governo teve
de ceder e evitar os temas mais polêmicos entre eles o local
de cobrança do imposto sobre circulação de mercadorias
e serviços (ICMS), filé da receita dos Estados. A questão,
se o ICMS deve ser cobrado na origem ou no destino da mercadoria, foi
adiada para daqui a dois anos ou, segundo os mais realistas, para as
calendas gregas. Hoje, na maioria dos casos, o imposto é cobrado
na origem, com cada Estado estipulando sua própria legislação
e suas próprias alíquotas. O máximo que o governo
conseguiu, na semana passada, foi um acordo para unificar a legislação
do ICMS. Lula tem se inclinado a manter a cobrança do ICMS como
está, ou seja, na origem da mercadoria, de modo a evitar perdas
para dois gigantes na produção São Paulo e Minas
Gerais. O problema é que, na baderna tributária do país,
energia e petróleo têm legislação inversa.
Nesses casos, o ICMS é cobrado no destino da mercadoria.
A inclinação de Lula, que ficou visível no encontro,
irritou governadores do Nordeste e do Paraná, que exportam energia,
e do Rio de Janeiro, que exporta petróleo. Coube à governadora
Rosinha Garotinho, do Rio, encenar o momento mais tenso da reunião.
Com batidas na mesa, ela reclamou que o sistema atual prejudica seu Estado.
Lula teve de interferir para serenar os ânimos, lembrando que ele
próprio está contrariando sua base eleitoral, os servidores
públicos, para implementar a reforma da Previdência, e pediu
algum sacrifício também dos governadores na questão
tributária. Em seguida, para desanuviar o ambiente, fez uma brincadeira
com o governador de Minas Gerais, Aécio Neves. "Aécio, eu
sei que Minas está quebrada, mas é preciso ter paciência.
Eu sei bem o que é isso. O governo federal também enfrenta
dificuldades, e o pior é que nós não podemos nem
falar mal dos nossos antecessores." Apesar das divergências, ficaram
acertadas a prorrogação da CPMF, talvez dividindo um pedaço
da receita com os Estados, e a partilha com os Estados do imposto sobre
a gasolina, hoje integralmente retido pelo governo federal. Não
é grande coisa, mas é alguma coisa. Se todos se comportassem
como Rosinha, em vez de acordos prévios, a reunião seria
um imenso batuque na mesa.
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