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Os poderes do super-ZéDepois
de moer os radicais do
Alexandre Oltramari
O dia de José Dirceu como pessoa comum é curtíssimo. Ele acorda cedo, lá pelas 6 da manhã, toma um café reforçado e vai ao computador. Consulta as mensagens recebidas de amigos e parentes e aproveita para responder a elas. Em seguida, cuidadoso com a pressão alta, caminha por trinta minutos numa esteira, que substituiu as caminhadas ao ar livre desde que quebrou a mão direita ao tropeçar numa calçada. Acabou o dia. Daí em diante, José Dirceu começa a incorporar a figura pública. Embarca num carro oficial e dirige-se ao Palácio do Planalto, a dez minutos de seu apartamento. Lá pelas 8 horas, está em seu gabinete, no 4º andar do palácio, um acima do gabinete do presidente, com quem terá uma reunião que acontece todos os dias às 9 horas. Assim tem início a rotina de quem, aos 57 anos, se tornou o mais poderoso ministro-chefe da Casa Civil desde que o país voltou à democracia, em 1985. José Dirceu detesta ser chamado de ministro poderoso, pelo menos da boca para fora. Acha que, no plano político, essa classificação o deixa mais vulnerável a inimizades e intrigas. No plano pessoal, impede que, sem ser importunado, possa sentar-se à mesa de seu restaurante preferido em Brasília, especializado em comida mineira, para tomar um gole da pinga favorita a mineira Havana, 15 reais a dose, relíquia artesanal feita de cana-de-açúcar triturada e farinha de milho torrada. José Dirceu, ou "Zé", como dizem os companheiros, até tem razão, numa coisa e noutra. Quase não vai ao restaurante predileto, e até entre correligionários seu poder já provoca alfinetadas. "O Zé ainda não está satisfeito com o poder que tem. Ainda falta anexar os ministérios da Justiça e da Fazenda", comenta com malícia uma estrela de primeira grandeza do universo petista. Da ala radical do PT, que José Dirceu moeu nos oito anos em que presidiu o partido, ouvem-se críticas mordazes. "Ele não é um inimigo, mas é um adversário", diz o deputado João Batista, o Babá, notável pelo longo cabelo liso e pelas idéias encaracoladas. A força de José Dirceu no PT e no governo é facilmente explicada. Manifestou-se no comando do partido e saltou aos olhos na campanha presidencial. Em meados do ano passado, num episódio até hoje pouco conhecido, o então candidato Lula cogitava até nomeá-lo ministro da Fazenda caso fosse eleito. A idéia surgiu depois que Dirceu voltou de uma viagem aos Estados Unidos, destinada a acalmar a Casa Branca e o mercado. Por meio do empresário Mário Garnero, cujo trânsito no poder do império americano é tal que ele pode assistir a uma partida de beisebol no sofá da família Bush, Lula soube que Dirceu causara impressão altamente positiva, e passou a considerá-lo para a Fazenda. "Na época, falei com Stanley Fischer, que foi do FMI, com James Wolfensohn, do Banco Mundial, com David Rockefeller, e todos ficaram impressionados com a credibilidade que Dirceu passou e seu conhecimento de economia", disse Garnero a VEJA na semana passada, enquanto viajava pela Itália. Mesmo preterido em favor de Antonio Palocci, que encantou Lula com seu desempenho na equipe de transição, Dirceu teve a deferência exclusiva de escolher seu posto. Não foi fácil. Um amigo do peito sugeriu-lhe que ficasse no Ministério da Justiça, cuja importância cresceria com o caos da violência urbana. Outro recomendou que fosse presidir a Câmara dos Deputados. "É o terceiro posto na hierarquia da República, Zé. Nada acontecerá sem passar por você", disse-lhe o amigo, o deputado petista Sigmaringa Seixas. Em dúvida, Dirceu consultou o então presidente Fernando Henrique, com quem conversara quase diariamente na campanha presidencial. "Vá para a Casa Civil. É melhor ficar perto do presidente", aconselhou FHC. José Dirceu topou a sugestão, mas logo se arrependeu. Voltou a querer presidir a Câmara, e pediu a um emissário que informasse Lula sobre a mudança. Lula reclamou. "Como? Está em dúvida? Mas foi ele quem escolheu o cargo." Dirceu acabou ficando com a primeira opção, a Casa Civil. No léxico político de Brasília, "poder" e "prestígio" têm conotações distintas. Um ministro pode ter prestígio junto ao presidente, à medida que desperte sentimentos positivos, como admiração e respeito. Mas pode não ter poder, noção que está relacionada à capacidade de realização, à possibilidade concreta de transformar uma idéia em ação e, sobretudo, à autorização prévia do presidente para materializar seu projeto. O ministro José Graziano, do Fome Zero, por exemplo, tem prestígio junto a Lula, que admira seu empenho pessoal e sua dedicação de vinte anos ao partido mas poder, mesmo, Graziano não tem. Como se trata de matéria etérea, é difícil definir poder, mas há indicadores. O ministro nomeia seus assessores ou é obrigado a aceitar nomes indicados por terceiros? Seu orçamento é expressivo ou diminuto? Controla votos no Congresso ou os políticos nem prestam atenção ao que diz? Bem, o Super-Zé tem prestígio junto a Lula, pelo trabalho no PT e na campanha, nomeia não só seus assessores, mas também os de outros ministros, e todo parlamentar com um mínimo de percepção sobre os rituais da hierarquia na capital do país faz silêncio quando ele fala.
Os ministros com mandato parlamentar também tendem a ser mais fortes. Seu poder cresce ainda mais se ele pertencer a um partido que não o do presidente. Afinal, o PT continuará apoiando o governo mesmo que Lula venha a demitir um deputado do partido, mas não se pode dizer o mesmo caso demita um indicado da base aliada. "O melhor indicador da força de um ministro é o custo político de sua demissão", define Octavio Amorim Neto, da Fundação Getúlio Vargas. É vastíssima, por esse critério, a força do ministro Antonio Palocci, da Fazenda, embora ele pertença ao partido do presidente. Demiti-lo seria colocar em risco a percepção positiva que o mercado tem hoje sobre os alicerces da economia brasileira. Meses atrás, temia-se um colapso nos moldes argentinos. Com Palocci, na Fazenda, e Henrique Meirelles, no Banco Central, os temores se dissiparam. Na semana passada, VEJA pediu a orientação de seis cientistas políticos para produzir um "mandômetro" do governo Lula. O resultado é uma grade com oito grupos principais (veja quadro). Há três ministros no topo. Além de José Dirceu, aparecem Antonio Palocci, que conquistou espaço na campanha e no governo com firmeza até agora inabalável, além de comandar uma área nevrálgica. O outro que ocupa lugar no andar de cima é Luiz Gushiken, da Secretaria de Comunicação. Ele aparece pouco, mas influi muito, mesmo num cargo sem tanta dimensão política. Gushiken é a prova de que o homem faz o cargo na mesma medida em que o cargo dá poder ao homem. Entre os principais ministros, José Dirceu parece ser o mais competitivo. Na montagem do governo, Dirceu bateu de frente com Luiz Dulci, atual secretário-geral da Presidência, num episódio mantido até hoje sob reserva. Lula queria que Dulci dividisse a coordenação política com a Casa Civil. Ao saber da partilha de poder que estava por acontecer, Dirceu rodou a baiana. Segundo um interlocutor próximo dos três envolvidos no caso, Dirceu, numa conversa tensa, testou os limites do presidente e ameaçou demitir-se: Se o Dulci ficar, eu saio arriscou Dirceu. Então, saia desafiou o presidente. "O problema do Zé é que às vezes ele quer mandar mais que o presidente", desabafou Lula para dois amigos, depois do episódio. José Dirceu ficou, Luiz Dulci também e Lula contornou o problema dividindo tarefas: a Casa Civil passou a cuidar da articulação política com o Congresso, e a Secretaria Geral ficou responsável pelos contatos com os movimentos sociais. A disputa de bastidor explica a frase que Luiz Dulci proferiu no dia de sua posse e que, à época, ninguém entendeu. Ao informar que Dirceu faria a articulação com o Congresso, Dulci disse: "Se for acionado por ele para colaborar, o farei com a maior boa vontade. Mas, como todos sabem, eu não arrombo portas e não invado esferas alheias". As escaramuças, porém, subsistem. Na surdina, Dirceu tratou de também ter contatos com movimentos sociais. "Ele já me chamou duas ou três vezes para conversar em Brasília. Não tínhamos canal com o governo. Agora, com o Zé, estamos com a janela aberta", comemora Paulo Pereira da Silva, o Paulinho, da Força Sindical. José Dirceu foi líder estudantil na juventude durante a ditadura militar e, depois de preso e libertado em 1969, passou seis anos exilado em Cuba, onde treinou guerrilha, mas jamais colocou os ensinamentos em prática. Em 1975, de volta ao Brasil, ficou quatro anos na clandestinidade. Hoje, com a vida exposta aos holofotes, Dirceu reclama da falta de tempo para se dedicar à família. Casado com a socióloga Maria Rita, seu terceiro matrimônio, mal tem tempo para ver os três filhos. O mais velho, José Carlos Becker, candidato derrotado a deputado federal pelo PT nas últimas eleições, mora no Paraná, onde ocupa um cargo no governo estadual. As duas filhas, que vivem em São Paulo, têm mais contato com o pai. Em geral, encontram-se com ele uma vez a cada duas semanas. Filho de um comerciante e de uma dona-de-casa, Dirceu tem apenas a mãe viva. Ela ainda mora em Passa Quatro, no interior de Minas Gerais, terra natal do ministro. Ele também se queixa de visitar a mãe com freqüência menor do que gostaria. São os ossos do ofício. Cercado por 64 assessores, José Dirceu é um trabalhador incansável. Raramente encerra seu expediente antes das 10 da noite. Com uma memória que não costuma traí-lo, cobra pedidos que já pareciam esquecidos. Detesta deixar uma tarefa pendente para o dia seguinte e faz questão de retornar todos os telefonemas que recebe. Nos fins de semana, quando tem um encontro relevante ou uma audiência com o presidente, mobiliza sua equipe. Pelo menos um assessor e uma secretária são convocados para ficar de plantão no Planalto, e os demais auxiliares devem estar localizáveis em seus celulares. "É desgastante, mas todo mundo aqui já sabia que o ritmo com o Zé não seria outro", diz um assessor. As broncas nos subordinados são duras, mas serenas, e sempre aplicadas ao vivo. Com esse estilo e essa equipe, José Dirceu coordena ações da bancada no Congresso, despacha com governadores e com freqüência é convocado a descer um andar para falar com Lula. Para receber certos visitantes, o presidente chama o ministro que atua no campo a ser discutido na conversa. O gabinete presidencial é um vai-e-vem contínuo. "É um inferno. Lula chama e a agenda cai toda", suspira um amigo. Com todo o poder que reúne, José Dirceu é freqüentemente comparado ao ministro Sergio Motta, braço direito do governo de FHC até sua morte, em abril de 1998. Mas, ao contrário de Sergio Motta, Dirceu tem uma peculiaridade: é altamente disciplinado. Tem absoluta clareza de que seu papel no governo é cumprir as orientações do chefe, o presidente Lula. Tem consciência de sua força, já que é a voz mais autorizada para assuntos políticos, e também de seus limites. Ele jamais chuta o balde, como fazia Motta com freqüência. Sua disciplina aparece até nas declarações. Ele tem domínio seguro sobre as conveniências e os riscos que rondam declarações públicas de improviso. É sempre muito preciso e seguro em suas afirmações. Se perguntado sobre a crise no setor energético, é capaz de dizer, sem meias palavras, que tal questão tem de ser tratada reservadamente, e não publicamente, dada a teia de interesses que envolve. Indagado sobre sua admiração por Cuba, separa claramente a gratidão pelo país que o acolheu no exílio do constrangimento político de vê-lo degenerado num regime autoritário sob o comando do ditador Fidel Castro. "O que mais me chamou a atenção nele foram a objetividade e o poder de síntese", diz o presidente do Congresso, o senador José Sarney, com quem Dirceu conversa todas as semanas. O ministro, de fato, não tergiversa. Numa reunião, quando a esquerda do PT começava a insinuar que gostaria de investigar as privatizações do governo FHC, José Dirceu cortou feito uma navalha: isso é tarefa do Ministério Público e da Polícia Federal, e não do governo, disse. Há um ano, quando os sem-terra invadiram a fazenda da família de FHC, foi a única voz do PT a se levantar com uma veemente condenação ao vandalismo. No governo, mantém a mesma firmeza e cumpre com desembaraço o papel de bedel de ministros. Recentemente, ao ler nos jornais uma declaração do ministro Cristovam Buarque, da Educação, criticando a aplicação de recursos do Fome Zero, Dirceu puxou o telefone. "Cristovam, você pensa que está fazendo carreira-solo? Sua posição não é a do governo", censurou. A autoridade de José Dirceu funciona para fora e para dentro do governo. "Um ministro não pode ficar ligando para o presidente a toda hora. Por isso, sempre que preciso, ligo para o Zé. Do contrário, ligo para quem?", diz o ministro Ricardo Berzoini, da Previdência Social. Outros fazem como ele. Há dois meses, o ministro Humberto Costa, da Saúde, queria cassar os certificados de filantropia de hospitais de São Paulo. Com receio de que a decisão tivesse implicações políticas negativas, pois atingia gigantes do setor como o Hospital Sírio Libanês, Humberto Costa aconselhou-se antes com José Dirceu, que lhe deu sinal verde. É assim, na dança da rotina, que se localiza o ninho do poder.
Com
reportagem de Felipe Patury
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