
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
|
|
Bem-vindo
ao
século XIX
"Bush
foi acusado de remeter o mundo
de volta ao século XIX. Devemos ser
gratos aos americanos. Se o mundo
retrocedeu de fato, significa que nós
ficamos um pouco menos defasados"
Eu, no lugar dos iraquianos, teria feito exatamente a mesma coisa. Ao
deparar com o primeiro tanque americano, teria largado minha espingarda,
tirado o uniforme, dado umas chineladas no retrato de Saddam Hussein para
o cinegrafista da CNN e aproveitado a confusão para pilhar uma
escrivaninha de fórmica no Ministério das Relações
Exteriores.
Ouvi muita gente comparar a ocupação do Iraque a uma guerra
colonial. O presidente dos Estados Unidos foi acusado de remeter o mundo
de volta ao século XIX. Se é verdade que voltamos ao século
XIX, exijo que me dêem, imediatamente, um novo Flaubert. Não
só Flaubert. Exijo também um novo Tolstoi, um novo Eça,
um novo Machado, um novo Dickens, um novo Van Gogh, um novo Darwin, um
novo Pasteur, um novo Tocqueville.
Os únicos que não têm do que reclamar desse retorno
ao passado são os brasileiros. Pelo contrário. Devemos ser
muito gratos aos americanos. Se o mundo de fato retrocedeu para o século
XIX, significa que nós ficamos um pouco menos defasados. Quando
alguém denunciar que temos trabalho escravo, podemos nos defender
com o argumento de que, no século XIX, a escravidão ainda
era muito comum. O mesmo vale para o trabalho infantil ou para a fome.
A Alemanha implantou seu serviço público de saúde
em 1840, para combater as epidemias de tifo e cólera. Em Manaus,
atualmente, 700 pessoas contraem malária por dia. Cedo ou tarde
o Brasil empatará com a Alemanha do século XIX.
Há também aquela velha chateação do analfabetismo.
O Brasil, segundo o governo, tem mais de 20 milhões de analfabetos.
Ou seja, uns 12% da população. Em 1890, nos Estados Unidos,
o analfabetismo era ainda pior, atingindo 13,3% da população.
Eles só conseguiram nos superar na década seguinte, em 1900,
quando o número caiu para apenas 10,7%. Podemos rebater, porém,
que aí não vale, porque eles já estavam entrando
no século XX.
O ministro da Educação, Cristovam Buarque, quer erradicar
o analfabetismo nos próximos quatro anos. Para isso, criou o programa
Analfabetismo Zero, que, antes mesmo de iniciar, foi rebatizado de Brasil
Alfabetizado. O programa ainda não está funcionando porque
o governo não tem idéia de que método usar para alfabetizar
essa gente toda, mas Cristovam Buarque já cuidou do principal:
a campanha publicitária. O mote é: "Faça um gol de
letras". Jogadores de futebol irão incentivar os analfabetos a
se matricular no programa do governo. O primeiro jogador a ser procurado
foi Ronaldo. Cristovam Buarque chegou a viajar para Madri a fim de engajá-lo
na campanha. Como não havia sido consultado anteriormente, Ronaldo
não recebeu o ministro. Podemos imaginar, no entanto, seu depoimento:
"Se eu não tivesse largado os estudos para jogar no dente-de-leite
do São Cristóvão (São Cristovam?), hoje em
dia não teria uma Ferrari, uma casa em Paris, outra em Milão,
outra no Rio de Janeiro, e não teria montes de mulheres e amigos
ilustres, e não seria bajulado pelo governo. Não siga meu
exemplo: estude".
Segundo o Datafolha, 85% dos brasileiros sentem orgulho do país.
Agora que estamos no século XIX, temos bons motivos para nos orgulhar.
|
|
 |