Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 799 - 23 de abril de 2003
Em foco

estasemana
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Índice
Seções
Brasil
Especial
Internacional
Geral
Guia
Artes e Espetáculos

colunas
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Stephen Kanitz
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo

seções
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Carta ao leitor
Entrevista

Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Arc
Gente
VEJA on-line
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Arquivo 1997-2003
Reportagens de capa
2000|01|02|03
Entrevistas
2000|01|02|03


 

Sérgio Abranches

A conversão de Lula

"Ao dizer que a esquerda é conservadora,
porque defende interesses e privilégios
corporativistas, o presidente propõe um
avanço conceitual relevante à esquerda"

Está em curso a conversão do presidente Luiz Inácio para a visão contemporânea da esquerda "pós-estatista", que influenciou a "terceira via" na Europa. Não é completa, mas está avançando. A visão da velha esquerda persiste, por exemplo, no viés intervencionista no campo regulatório e no ataque à autonomia – necessária – das agências. Todas as agências contêm erros de estrutura e função. Mas a forma pela qual o novo governo quer corrigi-los piora o quadro regulatório. Um retrocesso que terá conseqüências negativas para a economia e para a sociedade. O projeto Fome Zero, que critiquei aqui ainda na campanha, também nasceu velho. Na visão econômica e nas reformas, entretanto, a conversão de Luiz Inácio tem sido rápida e integral.


Ilustração Ale Setti


Há quem veja o presidente e suas lideranças apenas se movendo ao centro. Na velha esquerda, há até quem fale em "direitização" de Lula. Não é. O presidente está caminhando para a esquerda, para a nova esquerda, que reconhece que a desigualdade social não é apenas a clássica desigualdade de classes numa sociedade como a nossa, em que o Estado foi o demiurgo dos privilégios e tanto do capital nacional quanto das corporações de trabalhadores – inclusive de sua estrutura sindical.

O Estado cria desigualdades até entre os setores do capital, ao conceder incentivos e subsídios. Quem penetrar no segredo mais bem guardado do país – que porcentual do capital não-votante e do capital total e de que empresas o BNDES é dono – encontrará lá as impressões digitais do Estado criador de privilégios entre capitalistas. Quando o presidente diz que o BNDES não terá mais o "amigo do rei", está no caminho da "desprivatização" do banco, um caminho de esquerda. Há uma concentração histórica de seus recursos em um conjunto relativamente pequeno de empresas, penduradas no patrimônio do banco há décadas. Alguns desses íntimos do caixa do BNDES estão entre os mais entusiasmados recém-chegados à coalizão empresarial do presidente Lula. Conhecem melhor que ninguém os corredores do poder. Por isso se fartam há tanto tempo de recursos públicos para seus fins privados. Entendem, melhor que a própria esquerda, que o "rei" não é o governo, quem tem a majestade é o Estado. Por isso, entra governo, sai governo, ditadura ou democracia, esquerda ou direita, se mantêm na carteira de créditos estatais.

O presidente Lula mostrou ter uma visão correta, de esquerda, desse processo. A interação promíscua entre Estado e setores sociais, muitas vezes sem mediação das instituições políticas de representação democrática, produz estamentos privilegiados e barreiras institucionais ao acesso de pessoas, grupos, empresas, setores e regiões aos benefícios do progresso material do país. É uma das explicações para o paradoxo de nossa crescente riqueza em confronto com a imutabilidade de nossas desigualdades e a irredutibilidade de nossas misérias.

Ao dizer que a esquerda é conservadora, porque defende o status quo, beneficiando interesses e privilégios corporativistas, cuja remoção é indispensável à melhor distribuição de renda, o presidente propõe um avanço conceitual relevante à esquerda. Não está abandonando uma postura progressista. Essa idéia tem sido defendida por vários setores da esquerda democrática brasileira e por isso insistiam na existência de uma esquerda velha (estatista e corporativista) e uma nova esquerda (liberalizante e redistributivista).

Ao defender as reformas para eliminar privilégios e começar um processo de remoção dos mecanismos institucionais de geração da desigualdade brasileira, o presidente está aderindo à "nova esquerda", revisando conceitos, para adequar sua prática política à luta intransigente para reduzir as desigualdades e dar combate sem trégua à pobreza.

Essa nova atitude presidencial, que passou pela adoção corajosa de um programa de responsabilidade fiscal e redução de dívida, ainda mais consistente que o do governo passado, não contradiz a defesa do redistributivismo progressista. Ao contrário. Documento apresentado pelo ministro Antônio Palocci, outro convertido à nova esquerda, mostra que políticas sociais mais eficientes e focalizadas obteriam o máximo de benefício por real investido e garantiriam que os mais necessitados fossem, de fato, os mais beneficiados. Políticas sociais modernas e efetivamente progressivas, associadas à eliminação dos privilégios, permitiriam crescimento sustentado de longo prazo, com redistribuição de renda e real redução da pobreza, mantendo-se a necessária responsabilidade fiscal. Está certíssimo. Só falta fazer.

Sérgio Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)



 
 
   
  voltar
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS