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Sérgio
Abranches
A
conversão de Lula
"Ao
dizer que a esquerda é conservadora,
porque defende interesses e privilégios
corporativistas, o presidente propõe um
avanço conceitual relevante à esquerda"
Está em curso a conversão do presidente Luiz Inácio
para a visão contemporânea da esquerda "pós-estatista",
que influenciou a "terceira via" na Europa. Não é completa,
mas está avançando. A visão da velha esquerda persiste,
por exemplo, no viés intervencionista no campo regulatório
e no ataque à autonomia necessária das agências.
Todas as agências contêm erros de estrutura e função.
Mas a forma pela qual o novo governo quer corrigi-los piora o quadro regulatório.
Um retrocesso que terá conseqüências negativas para
a economia e para a sociedade. O projeto Fome Zero, que critiquei aqui
ainda na campanha, também nasceu velho. Na visão econômica
e nas reformas, entretanto, a conversão de Luiz Inácio tem
sido rápida e integral.
Ilustração Ale Setti
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Há quem veja o presidente e suas lideranças apenas se movendo
ao centro. Na velha esquerda, há até quem fale em "direitização"
de Lula. Não é. O presidente está caminhando para
a esquerda, para a nova esquerda, que reconhece que a desigualdade social
não é apenas a clássica desigualdade de classes numa
sociedade como a nossa, em que o Estado foi o demiurgo dos privilégios
e tanto do capital nacional quanto das corporações de trabalhadores
inclusive de sua estrutura sindical.
O Estado cria desigualdades até entre os setores do capital, ao
conceder incentivos e subsídios. Quem penetrar no segredo mais
bem guardado do país que porcentual do capital não-votante
e do capital total e de que empresas o BNDES é dono encontrará
lá as impressões digitais do Estado criador de privilégios
entre capitalistas. Quando o presidente diz que o BNDES não terá
mais o "amigo do rei", está no caminho da "desprivatização"
do banco, um caminho de esquerda. Há uma concentração
histórica de seus recursos em um conjunto relativamente pequeno
de empresas, penduradas no patrimônio do banco há décadas.
Alguns desses íntimos do caixa do BNDES estão entre os mais
entusiasmados recém-chegados à coalizão empresarial
do presidente Lula. Conhecem melhor que ninguém os corredores do
poder. Por isso se fartam há tanto tempo de recursos públicos
para seus fins privados. Entendem, melhor que a própria esquerda,
que o "rei" não é o governo, quem tem a majestade é
o Estado. Por isso, entra governo, sai governo, ditadura ou democracia,
esquerda ou direita, se mantêm na carteira de créditos estatais.
O presidente Lula mostrou ter uma visão correta, de esquerda, desse
processo. A interação promíscua entre Estado e setores
sociais, muitas vezes sem mediação das instituições
políticas de representação democrática, produz
estamentos privilegiados e barreiras institucionais ao acesso de pessoas,
grupos, empresas, setores e regiões aos benefícios do progresso
material do país. É uma das explicações para
o paradoxo de nossa crescente riqueza em confronto com a imutabilidade
de nossas desigualdades e a irredutibilidade de nossas misérias.
Ao dizer que a esquerda é conservadora, porque defende o status
quo, beneficiando interesses e privilégios corporativistas, cuja
remoção é indispensável à melhor distribuição
de renda, o presidente propõe um avanço conceitual relevante
à esquerda. Não está abandonando uma postura progressista.
Essa idéia tem sido defendida por vários setores da esquerda
democrática brasileira e por isso insistiam na existência
de uma esquerda velha (estatista e corporativista) e uma nova esquerda
(liberalizante e redistributivista).
Ao defender as reformas para eliminar privilégios e começar
um processo de remoção dos mecanismos institucionais de
geração da desigualdade brasileira, o presidente está
aderindo à "nova esquerda", revisando conceitos, para adequar sua
prática política à luta intransigente para reduzir
as desigualdades e dar combate sem trégua à pobreza.
Essa nova atitude presidencial, que passou pela adoção corajosa
de um programa de responsabilidade fiscal e redução de dívida,
ainda mais consistente que o do governo passado, não contradiz
a defesa do redistributivismo progressista. Ao contrário. Documento
apresentado pelo ministro Antônio Palocci, outro convertido à
nova esquerda, mostra que políticas sociais mais eficientes e focalizadas
obteriam o máximo de benefício por real investido e garantiriam
que os mais necessitados fossem, de fato, os mais beneficiados. Políticas
sociais modernas e efetivamente progressivas, associadas à eliminação
dos privilégios, permitiriam crescimento sustentado de longo prazo,
com redistribuição de renda e real redução
da pobreza, mantendo-se a necessária responsabilidade fiscal. Está
certíssimo. Só falta fazer.
Sérgio Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
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