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Ponto
de vista: Lya Luft
Machos e fêmeas
"A solução
do conflito entre homem
e mulher
não reside nas teorias nem
nas disputas de
poder, mas no afeto que implica respeito e
ternura, que sobrepuja paradoxos e lança
pontes entre contrários"
O mês dito "da mulher" está quase
terminando. Trouxe e levará consigo a insistência nas
velhas frases e chavões sobre a "liberdade" da mulher atual.
Que é pseudoliberdade, por ser antes responsabilidade e assombro
diante de possibilidades apenas reconhecidas, alguma irritação
ou divertimento com a vaga condescendência masculina... e
tantas coisas mais.
Ilustração Atomic Studio
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Nas palestras, a incansável pergunta: "A senhora acha que
os homens estão assustados com a nova mulher?". Muitas vezes,
penso, devem se decepcionar com a resposta: "Os mais bobos estão
assustados, os mais inteligentes estão interessados".
O conflito é existencial e atávico.
Vem das cavernas, quando o macho precisava depositar sua semente
no maior número possível de fêmeas jovens e
saudáveis, e a fêmea devia tratar bem o seu grandalhão
para que ele executasse a contento suas tarefas em favor da espécie.
Além disso, a dama peluda precisava cuidar das crias na caverna...
pela mesma razão.
Não creio que naqueles tempos meio
toscos se pensasse a respeito de papéis e conflito de gêneros,
nem que se cultivassem preconceitos, nem que houvesse todo um comércio
de idéias voltado para uma política real ou farsista
no interessantíssimo terreno do masculino/feminino, onde
ninguém se entende, mas no qual para sempre se deseja e busca.
Talvez a questão básica seja
nosso (das mulheres) medo de solidão, na ilusão de
que, com amante, namorado, marido, teremos resolvido o drama ontológico:
o que somos, quanto valemos, o que significa esta vida?
Antes de sermos dois, temos de viver a solidão
essencial do ser humano com o que ela tem de bom porque nos deixa
mais lúcidos. Se conseguirmos viver razoavelmente como um
só, livres de protetores ou apêndices, sem ressentimento
nem rancor ou queixa, entendendo essa condição fundamental
nossa, então poderemos nos abrir para o outro. Sendo dois,
viveremos em dois, porém em muitas coisas como um só.
Sem romper privacidade e mistério, sem esmagar ou acorrentar,
sem cobrar ou esperar do outro a resolução de nossos
problemas, numa vida dividida que pode ser muito mais rica, ainda
que nos imponha tantas condições.
A solução do conflito entre
homem e mulher não reside nas teorias nem nas disputas de
poder, mas no afeto que implica respeito e ternura, que sobrepuja
paradoxos e lança pontes entre contrários às
vezes hostis. Mais do que deslumbramento, viagens, restaurantes
caros, competência, o carro do ano, o marido poderoso ou a
mulher de capa de revista, os filhos sem mácula e um cotidiano
fácil, é o afeto que faz a vida valer a pena, isto
é, nos faz sentir que estamos vivos.
Um de meus projetos de trabalho é um
pequeno ensaio sobre esse conflito e essa condição.
O título, ao menos provisório, é Macho &
Fêmea: Glória e Frustração. O subtítulo,
se houver, poderá ser uma brincadeira do tipo: "Se não
combinamos, por que nos procuramos?". Resumindo, no ensaio afirmo
que o bom Dia da Mulher será aquele que for igualmente o
do homem: quando tivermos consciência de que estamos juntos
no mesmo barco e de que cabe a todos nós superar velhos e
tolos medos e preconceitos. Assim talvez sejamos mais cúmplices,
parceiros, amantes e amigos.
Por enquanto, exceto em alguns casos, estamos
no terreno da transição, no eterno processo de nos
tornarmos mais humanos.
Lya Luft é escritora
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