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Ensaio: Roberto
Pompeu de Toledo
Peripécias do Cachaceiro
de João Alfredo
As origens, o
perfil e a obra de um novo
e
marcante personagem da vida
nacional
Acorda, leitor. Olha para os lados, leitora.
O cachaceiro de João Alfredo, eis a nova realidade que só
não vê quem não quer, está em toda parte.
Insurge-se o baixo clero? Tumultuam-se as casas legislativas, desrespeitando
partidos e acordos? Não tenhamos dúvida: é
o cachaceiro de João Alfredo quem, as pernas bambas e o hálito
mais perfumado do que tanque de carro a álcool, está
por trás. A reforma do ministério resulta numa equipe
frankenstein, com cabeça de porco, corpo de avestruz e pés
de bode? A arquitetura só pode ter saído da prancheta
do cachaceiro. Seu longo, ainda que incerto braço, vai longe.
O presidente George W. Bush resolve indicar para a presidência
do Banco Mundial, instituição que se deve pautar pela
pacífica ajuda aos pobres e pela colaboração
internacional, o notório Paul Wolfowitz, o ideólogo
da Guerra do Iraque, para quem a comunidade internacional que se
dane, e os 100 000 mortos... que são 100 000 mortos, quando
a guerra vale a pena e a alma não é pequena? Tem tudo
para ser obra do cachaceiro, que de João Alfredo se despachou
até Washington, para promover um especial quebra-quebra no
Salão Oval da Casa Branca.
Recordemos a origem do tenebroso personagem.
O cachaceiro fez sua aparição no cenário nacional
num discurso do deputado Severino Cavalcanti em sua primeira visita
à cidade natal, João Alfredo (PE), depois de eleito
presidente da Câmara. Foi o famoso discurso do "Não
me catuca, Ana". Severino pôs-se a contar a história
de um cachaceiro que certa ocasião promoveu quebra-quebra
num bar. Cobrado pelo prejuízo, o homem pediu que ligassem
para Severino. Enquanto o pai discursava, a filha do deputado, Ana,
cutucava-o de leve. Sabia que o caso não era lá muito
edificante. "Não me catuca, Ana, que eu quero contar a história",
cortou Severino. E contou que, generoso, assumiu a responsabilidade
pelo dano de 400 reais causado pelo bêbado. Por que teria
agido assim?, perguntou ele mesmo. E ele mesmo respondeu: "Porque
era um cachaceiro de João Alfredo".
Este é o primeiro ato da história.
O segundo foi escrito pela repórter Angela Lacerda, do jornal
O Estado de S. Paulo, enviada a João Alfredo para
verificar direito que história era aquela. Cachaceiro? Bar
destruído? "Conheço João Alfredo inteira, nunca
soube quem era esse rapaz", disse um dos entrevistados da repórter.
"Ele deve ter inventado essa história para mostrar sua influência
e poder", disse outro. Um depoente lembrou que certa vez houve,
sim, tumulto num bar talvez o do Edinho da Moenda, talvez
o de Dona Maria. Edinho da Moenda confirma que, em 2000, realmente
houve confusão em seu estabelecimento mas sem ligação
com Severino. Dona Maria afirma que "graças a Deus" nunca
houve, em mais de trinta anos, confusão em seu bar. Conclusão:
ou o povo de João Alfredo anda muito desmemoriado ou Severino
inventou o caso do cachaceiro arruaceiro.
Hummm... Um presidente da Câmara inventando
histórias? O respeitável detentor do posto máximo
da Casa do Povo espalhando lorotas e se dando a gabolices? Não.
Mil vezes não. Severino Cavalcanti dava vazão a seu
talento de ficcionista, esta a mais razoável explicação
para o episódio. O Cachaceiro de João Alfredo
assim, com maiúsculas, que é como merece ser tratado
é a genial contribuição do deputado
à galeria de personagens que ajudam a iluminar, com a graça
das metáforas e as lições das fábulas,
a vida política e os costumes nacionais. Não existe
a Velhinha de Taubaté, do Verissimo? Não existe Eremildo,
o Idiota, de Elio Gaspari? Não existiram Gastão, o
Vomitador, de Jaguar, e a Tia Zulmira, de Stanislaw Ponte Preta?
E, antes deles, o Jeca Tatu, o Juca Pato, o Zé Povinho?
A essa ilustre galeria vem juntar-se a inspirada
criação de Severino. O Cachaceiro de João Alfredo
é o responsável por grandes confusões que têm
lugar, e se reproduzem, impunes, por causa da cumplicidade dos políticos.
Agora se compreende o episódio Waldomiro Diniz. Foi o abominável
personagem quem lhe sussurrou ao ouvido, com sua característica
língua enrolada, as falas da famosa fita do "um por cento
para mim". Também não foi outro quem, no churrasco
da chácara em Brasília, lá pelas tantas, já
no seu estado natural isto é, mais para lá
do que para cá , achegouse ao padre das Farc
(atenção, o padre das Farc existe mesmo, não
é personagem de ficção) e sugeriu: "Agora oferece
dinheiro aos candidatos do PT".
Não foi por acaso que o Cachaceiro
de João Alfredo surgiu da mente de Severino Cavalcanti. A
obra-prima do personagem, até agora, foi o quebra-quebra
moral ocorrido durante a madrugada em que a Câmara elegeu
seu novo presidente. Foi ele, não há dúvida
de que foi ele. Dá para sentir no ambiente, até agora,
o empesteado cheiro do personagem. O Cachaceiro de João Alfredo
é como o Sobrenatural de Almeida, que Nelson Rodrigues concebeu
como responsável, no futebol, pelos gols impossíveis
e pelos resultados inacreditáveis. Ele veio para explicar
o inexplicável.
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