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Música O
rebelde de casaca A trajetória de Pierre
Boulez, de enfant terrible a medalhão do modernismo musical  Sérgio
Martins
Pierre
Verdy/AFP
 | Divulgação
 | Boulez
(acima) e o grupo alemão Kraftwerk (à esq.): os ideais caros aos compositores
de vanguarda foram parar nas pistas de dança |
De acordo com uma anedota que circula entre os músicos da Sinfônica
de Chicago, o maestro e compositor francês Pierre Boulez proporciona duas
alegrias àqueles que vai reger: uma ao chegar, outra ao ir embora. Qualquer
músico erudito considera estimulante trabalhar com um ícone como
Boulez, que completa 80 anos nesta semana. Difícil é enquadrar-se
ao seu rigor, que exaspera os instrumentistas na obsessão por nuances quase
imperceptíveis de timbre, ritmo e intensidade. É uma questão
de princípios: Boulez é um sobrevivente do período áureo
do modernismo musical, quando os atos de compor e tocar ganharam viés cerebral,
quase matemático. E quem vê o senhor afável de hoje não
imagina o vigor incendiário com que ele tratou de limpar terreno para instituir
o reinado da música atonal, que defendia. Quatro discos que chegam às
lojas nesta semana dão uma amostra vibrante do trabalho de Boulez. Em dois
ele rege obras de outros compositores: um é devotado aos concertos para
piano do húngaro Béla Bartók; o outro, às canções
líricas do austríaco Gustav Mahler. Os lançamentos restantes
trazem composições do próprio Boulez, criadas entre 1946
e 2002. Baseada em poemas do francês René Char, a obra Le Marteau
Sans Maître, dos anos 50, mescla orquestra e coral com percussão
influenciada por ritmos africanos. As sonatas para piano do autor, por sua vez,
ainda hoje causam estranhamento. "Todo músico
que não reza pela cartilha do dodecafonismo é inútil", disse
Boulez. Em sua campanha para instituir um novo cânone musical, nas décadas
de 40 e 50, o francês não poupou nenhuma sensibilidade ou reputação
(veja quadro). Ele considerava a música de
Brahms uma "chatice" e a de Tchaikovsky, "abominável". Quanto a seu ex-professor,
Olivier Messiaen, suas partituras não passariam de "música de bordel".
Até os aliados na trincheira da vanguarda podiam tornar-se alvo de sua
língua ferina. Quando o austríaco Arnold Schoenberg morreu, em 1951,
Boulez disse que a obra desse pai do dodecafonismo revelava o "mais obsoleto e
ostentatório romantismo". O americano John Cage mereceu o epíteto
de "macaco performático" e o alemão Karlheinz Stockhausen foi desprezado
como "hippie". Assim como os compositores, as instituições musicais
também mereciam o desdém de Boulez. As casas de ópera, vociferou
ele de maneira célebre, deveriam ser todas demolidas.
O belicismo incansável de Boulez rendeu frutos. No fim dos anos 60, suas
idéias radicais haviam sido assimiladas e ele se tornara um medalhão.
A partir dali, Boulez desenvolveu uma relação mais irônica
com a tradição e as instituições. Passou a aceitar
o passado, ainda que com um grão de sal, como ao reger uma versão
lentíssima da Quinta Sinfonia de Beethoven. Artistas que havia espinafrado,
como Stravinsky, Schoenberg e Messiaen, ganharam espaço em seu repertório.
Em 1971, ele foi convidado a substituir o americano Leonard Bernstein (1918-1990)
à frente da Filarmônica de Nova York, uma das principais orquestras
do mundo. Foi uma passagem bem-sucedida, ainda que polêmica. Boulez é
homossexual, assim como Bernstein era, mas no convívio social os dois representam
opostos: o primeiro discretíssimo, o segundo espalhafatoso. Por causa de
seu comportamento arredio, o compositor logo foi apelidado de "regente de gelo"
pelo público da orquestra nova-iorquina. Também angariou antipatia
pelo escárnio com que rechaçou a sugestão de incluir compositores
como Tchaikovsky em sua programação. O passado tudo bem mas
Tchaikovsky já era demais. Outro marco no
processo de "institucionalização" de Boulez foi sua parceria com
o governo francês para fundar uma escola voltada à pesquisa musical.
Inaugurado em 1977, em Paris, o Ircam promoveu o cruzamento entre a música
erudita e o instrumental eletrônico. Como é comum nesse tipo de associação
entre Estado e artistas consagrados, muita gente acusa Boulez e seus discípulos
de torrar dinheiro público com projetos inócuos. O Ircam engole
metade do subsídio governamental francês destinado à pesquisa
musical e três quartos dos fundos para concertos contemporâneos. Um
exemplo dessa gastança foi a concepção de Répons,
obra para orquestra e computador que requereu a fabricação de
um sintetizador especial. O problema é que o trambolho é antiquado
e, por causa de suas dimensões, só pode ser usado nas instalações
do instituto. Boulez representa hoje o establishment
no meio erudito: ousados são os autores que tentam fugir da escola atonal.
Como disse o crítico Alex Ross num perfil publicado pela revista The
New Yorker, ele se tornou uma espécie de Don Corleone musical: como
o personagem do filme O Poderoso Chefão, evita fazer exibições
gratuitas de seu poder. Mas, quando necessário, o empedernido modernista
ainda ruge.
Bravíssimo! As alfinetadas
do maestro francês Pierre Boulez em compositores famosos Johannes
Brahms (1833-1897) "Um
burguês complacente" Piotr
Tchaikovsky (1840-1893) "Abominável"
Erik Satie (1866-1925) "É
como sopa de quartel: 20 gramas de carne e 1 litro de
água" Giuseppe
Verdi (1813-1901) "Estúpido, estúpido, estúpido"
John
Cage (1912-1992) "Um macaco performático" |
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A vanguarda e as raves
Compositores eruditos como o francês Pierre Boulez romperam com as tradições
musicais de seu tempo e abraçaram de forma radical as novidades tecnológicas
do século XX. O preço que pagaram por isso foi reduzir de maneira
drástica o seu número de ouvintes. Ironicamente, muitos dos procedimentos
caros às vanguardas podem hoje ser detectados em qualquer pista de dança.
Os compositores eruditos foram os primeiros, por exemplo, a criar sons novos ou
modificar o timbre de instrumentos existentes com o uso de recursos eletrônicos.
Outra idéia-chave gestada pelos eruditos foi a de colagem de fragmentos
sonoros. Nos anos 50, Boulez e seus colegas já testavam, por meio das então
recém-surgidas fitas de gravação, misturas e repetições
de sons. Um embrião daquilo que os DJs se especializariam em fazer com
o uso de samplers. Não foi um movimento estético, mas sim a disseminação
de aparelhos como os sintetizadores, e depois os computadores pessoais, a principal
responsável pela contaminação da música pop por conceitos
que nasceram no universo rarefeito das vanguardas. Mas uma ponte entre os dois
mundos talvez a única pode ser encontrada nos discos do Kraftwerk,
surgido nos anos 70. Célebre por suas canções robóticas,
e visual idem, o grupo alemão foi fortemente influenciado por compositores
como Karlheinz Stockhausen e John Cage. Em suas músicas encontra-se um
elo direto entre a sinfonia Zodiac, de Stockhausen, e os hits dos Chemical
Brothers. | | |