Edição 1897 . 23 de março de 2005

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Música
O rebelde de casaca 

A trajetória de Pierre Boulez,
de enfant terrible a medalhão
do modernismo musical


Sérgio Martins

 
Pierre Verdy/AFP
Divulgação
Boulez (acima) e o grupo alemão Kraftwerk (à esq.): os ideais caros aos compositores de vanguarda foram parar nas pistas de dança

De acordo com uma anedota que circula entre os músicos da Sinfônica de Chicago, o maestro e compositor francês Pierre Boulez proporciona duas alegrias àqueles que vai reger: uma ao chegar, outra ao ir embora. Qualquer músico erudito considera estimulante trabalhar com um ícone como Boulez, que completa 80 anos nesta semana. Difícil é enquadrar-se ao seu rigor, que exaspera os instrumentistas na obsessão por nuances quase imperceptíveis de timbre, ritmo e intensidade. É uma questão de princípios: Boulez é um sobrevivente do período áureo do modernismo musical, quando os atos de compor e tocar ganharam viés cerebral, quase matemático. E quem vê o senhor afável de hoje não imagina o vigor incendiário com que ele tratou de limpar terreno para instituir o reinado da música atonal, que defendia. Quatro discos que chegam às lojas nesta semana dão uma amostra vibrante do trabalho de Boulez. Em dois ele rege obras de outros compositores: um é devotado aos concertos para piano do húngaro Béla Bartók; o outro, às canções líricas do austríaco Gustav Mahler. Os lançamentos restantes trazem composições do próprio Boulez, criadas entre 1946 e 2002. Baseada em poemas do francês René Char, a obra Le Marteau Sans Maître, dos anos 50, mescla orquestra e coral com percussão influenciada por ritmos africanos. As sonatas para piano do autor, por sua vez, ainda hoje causam estranhamento.

"Todo músico que não reza pela cartilha do dodecafonismo é inútil", disse Boulez. Em sua campanha para instituir um novo cânone musical, nas décadas de 40 e 50, o francês não poupou nenhuma sensibilidade ou reputação (veja quadro). Ele considerava a música de Brahms uma "chatice" e a de Tchaikovsky, "abominável". Quanto a seu ex-professor, Olivier Messiaen, suas partituras não passariam de "música de bordel". Até os aliados na trincheira da vanguarda podiam tornar-se alvo de sua língua ferina. Quando o austríaco Arnold Schoenberg morreu, em 1951, Boulez disse que a obra desse pai do dodecafonismo revelava o "mais obsoleto e ostentatório romantismo". O americano John Cage mereceu o epíteto de "macaco performático" e o alemão Karlheinz Stockhausen foi desprezado como "hippie". Assim como os compositores, as instituições musicais também mereciam o desdém de Boulez. As casas de ópera, vociferou ele de maneira célebre, deveriam ser todas demolidas.

O belicismo incansável de Boulez rendeu frutos. No fim dos anos 60, suas idéias radicais haviam sido assimiladas e ele se tornara um medalhão. A partir dali, Boulez desenvolveu uma relação mais irônica com a tradição e as instituições. Passou a aceitar o passado, ainda que com um grão de sal, como ao reger uma versão lentíssima da Quinta Sinfonia de Beethoven. Artistas que havia espinafrado, como Stravinsky, Schoenberg e Messiaen, ganharam espaço em seu repertório. Em 1971, ele foi convidado a substituir o americano Leonard Bernstein (1918-1990) à frente da Filarmônica de Nova York, uma das principais orquestras do mundo. Foi uma passagem bem-sucedida, ainda que polêmica. Boulez é homossexual, assim como Bernstein era, mas no convívio social os dois representam opostos: o primeiro discretíssimo, o segundo espalhafatoso. Por causa de seu comportamento arredio, o compositor logo foi apelidado de "regente de gelo" pelo público da orquestra nova-iorquina. Também angariou antipatia pelo escárnio com que rechaçou a sugestão de incluir compositores como Tchaikovsky em sua programação. O passado tudo bem – mas Tchaikovsky já era demais.

Outro marco no processo de "institucionalização" de Boulez foi sua parceria com o governo francês para fundar uma escola voltada à pesquisa musical. Inaugurado em 1977, em Paris, o Ircam promoveu o cruzamento entre a música erudita e o instrumental eletrônico. Como é comum nesse tipo de associação entre Estado e artistas consagrados, muita gente acusa Boulez e seus discípulos de torrar dinheiro público com projetos inócuos. O Ircam engole metade do subsídio governamental francês destinado à pesquisa musical e três quartos dos fundos para concertos contemporâneos. Um exemplo dessa gastança foi a concepção de Répons, obra para orquestra e computador que requereu a fabricação de um sintetizador especial. O problema é que o trambolho é antiquado – e, por causa de suas dimensões, só pode ser usado nas instalações do instituto.

Boulez representa hoje o establishment no meio erudito: ousados são os autores que tentam fugir da escola atonal. Como disse o crítico Alex Ross num perfil publicado pela revista The New Yorker, ele se tornou uma espécie de Don Corleone musical: como o personagem do filme O Poderoso Chefão, evita fazer exibições gratuitas de seu poder. Mas, quando necessário, o empedernido modernista ainda ruge.

 

Bravíssimo!

As alfinetadas do maestro francês
Pierre Boulez em compositores famosos

Johannes Brahms
(1833-1897)
"Um burguês complacente"  

Piotr Tchaikovsky
(1840-1893)
"Abominável"

Erik Satie
(1866-1925)
"É como sopa de quartel:
20 gramas de carne e 1 litro de água"

Giuseppe Verdi
(1813-1901)
"Estúpido, estúpido, estúpido"
 

John Cage
(1912-1992)
"Um macaco performático"

 

A vanguarda e as raves

Compositores eruditos como o francês Pierre Boulez romperam com as tradições musicais de seu tempo e abraçaram de forma radical as novidades tecnológicas do século XX. O preço que pagaram por isso foi reduzir de maneira drástica o seu número de ouvintes. Ironicamente, muitos dos procedimentos caros às vanguardas podem hoje ser detectados em qualquer pista de dança. Os compositores eruditos foram os primeiros, por exemplo, a criar sons novos ou modificar o timbre de instrumentos existentes com o uso de recursos eletrônicos. Outra idéia-chave gestada pelos eruditos foi a de colagem de fragmentos sonoros. Nos anos 50, Boulez e seus colegas já testavam, por meio das então recém-surgidas fitas de gravação, misturas e repetições de sons. Um embrião daquilo que os DJs se especializariam em fazer com o uso de samplers. Não foi um movimento estético, mas sim a disseminação de aparelhos como os sintetizadores, e depois os computadores pessoais, a principal responsável pela contaminação da música pop por conceitos que nasceram no universo rarefeito das vanguardas. Mas uma ponte entre os dois mundos – talvez a única – pode ser encontrada nos discos do Kraftwerk, surgido nos anos 70. Célebre por suas canções robóticas, e visual idem, o grupo alemão foi fortemente influenciado por compositores como Karlheinz Stockhausen e John Cage. Em suas músicas encontra-se um elo direto entre a sinfonia Zodiac, de Stockhausen, e os hits dos Chemical Brothers.

 

 
 
 
 
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