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Livros Intelectual
de passeata Susan Sontag era uma ensaísta
talentosa, mas talvez seja lembrada apenas pelo engajamento  Rinaldo
Gama
Eddie
Haunsner/The New York Times
 | | Susan
Sontag: nem ela estava livre dos clichês que detestava |
Embora Susan Sontag buscasse o reconhecimento como
ficcionista, sua vocação estava no ensaísmo. É nesse
gênero que a escritora americana que morreu de leucemia em dezembro
passado, aos 71 anos compete por um lugar na história literária
dos Estados Unidos. Questão de Ênfase (tradução
de Rubens Figueiredo; Companhia das Letras; 448 páginas; 52 reais), que
chega às livrarias nesta semana, contribui para essa reivindicação
à posteridade. Os 42 textos reunidos nessa obra documentam a seriedade
com que Susan abraçava o papel de intelectual no país que, segundo
suas palavras, "mais desenvolveu a tradição antiintelectual em todo
o planeta". "Tendo a ter uma visão menos desanimada do que meus colegas
na Europa no que tange ao papel dos intelectuais. Não, a sua 'missão'
não está concluída", sentencia a ensaísta no artigo
"Respostas a um Questionário". A tal "missão" se desdobrava em dois
planos, ambos presentes em Questão de Enfase: o engajamento político
e a defesa de um padrão de vida mental que escapasse do niilismo, da estética
do consumo, do desprezo às produções de alto nível.
O
escritor, na visão de Susan, deveria ser uma pessoa interessada em "tudo".
Essa largueza de interesses permite que ela discorra, ao longo do livro,
sobre alguns dos mais ilustres representantes de seu cânone artístico.
Dele fazem parte escritores como Glenway Wescott, Elizabeth Hardwick e Machado
de Assis (o prefácio que preparou para uma tradução inglesa
de Memórias Póstumas de Brás Cubas merecia uma repercussão
menos provinciana do que teve no Brasil), a coreógrafa Lucinda Childs (cujo
espetáculo Available Light ganha um ensaio original, montado em
verbetes) e a fotógrafa Annie Leibovitz (que foi amante de Susan durante
anos). Também está incluído o pensador francês Roland
Barthes, um de seus modelos intelectuais. Em certa medida, contudo, a amplitude
de temas prejudicou a seleção dos textos. Embora possam ter funcionado
nas publicações em que apareceram pela primeira vez, alguns deles
não têm fôlego para figurar num livro. Escrevendo a respeito
de Dom Quixote, Susan, uma inimiga dos clichês, acaba caindo neles,
com a afirmação de que a obra de Cervantes é "um livro inesgotável".
Alguém poderia argumentar que o trabalho, de página e meia, não
se prestava a grandes vôos: saiu em um catálogo do Departamento Nacional
de Turismo da Espanha. Está certo. Mas por que colocá-lo em Questão
de Enfase? O engajamento está representado
na coletânea principalmente pelo excelente texto em que Susan narra sua
experiência em Sarajevo, em 1993 ela dirigiu uma montagem de Esperando
Godot, de Samuel Beckett, em plena guerra civil na Bósnia. A autora
criticou com o mesmo ímpeto o governo de George W. Bush e o apoio que escritores
como Gabriel García Márquez prestam à ditadura de Fidel Castro.
Às vezes, a militância sem trégua resultava em armadilhas
para as alardeadas convicções de Susan. Ela chegou ao ponto de destacar
a suposta coragem dos terroristas que derrubaram o World Trade Center, numa posição
contraditória para alguém que se solidarizava com as vítimas
da violência de qualquer natureza de mulheres espancadas pelo marido
a mutilados em conflitos étnicos. O engajamento muitas vezes espalhafatoso
de Susan competia com o rigor de sua crítica cultural em grau maior do
que seria desejável, ainda que ambos andassem lado a lado em sua obra.
É uma questão em aberto saber qual a faceta que, com o tempo, prevalecerá
em seu legado.
Teatro de guerra "Eu
não tinha a ilusão de que ir a Sarajevo dirigir uma peça
faria de mim uma pessoa útil, da maneira como eu poderia ser útil
se fosse médica ou engenheira hidráulica. Seria uma contribuição
pequena. Mas era a única das três coisas que faço escrever,
fazer filmes, dirigir peças de teatro que poderia produzir algo
que só existiria em Sarajevo, algo que seria feito e consumido lá
mesmo. E o espírito de bravata me sugeriu num instante algo que eu talvez
não imaginaria, caso refletisse por mais tempo: havia uma peça óbvia
para eu dirigir. Esperando Godot, de Beckett, parece ter sido escrita para
Sarajevo e sobre Sarajevo." Trecho de
Esperando Godot em Sarajevo | | |