Edição 1897 . 23 de março de 2005

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Livros
Intelectual de passeata

Susan Sontag era uma ensaísta
talentosa, mas talvez seja lembrada
apenas pelo engajamento


Rinaldo Gama

 
Eddie Haunsner/The New York Times
Susan Sontag: nem ela estava livre dos clichês que detestava

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Trecho do livro

Embora Susan Sontag buscasse o reconhecimento como ficcionista, sua vocação estava no ensaísmo. É nesse gênero que a escritora americana – que morreu de leucemia em dezembro passado, aos 71 anos – compete por um lugar na história literária dos Estados Unidos. Questão de Ênfase (tradução de Rubens Figueiredo; Companhia das Letras; 448 páginas; 52 reais), que chega às livrarias nesta semana, contribui para essa reivindicação à posteridade. Os 42 textos reunidos nessa obra documentam a seriedade com que Susan abraçava o papel de intelectual no país que, segundo suas palavras, "mais desenvolveu a tradição antiintelectual em todo o planeta". "Tendo a ter uma visão menos desanimada do que meus colegas na Europa no que tange ao papel dos intelectuais. Não, a sua 'missão' não está concluída", sentencia a ensaísta no artigo "Respostas a um Questionário". A tal "missão" se desdobrava em dois planos, ambos presentes em Questão de Enfase: o engajamento político e a defesa de um padrão de vida mental que escapasse do niilismo, da estética do consumo, do desprezo às produções de alto nível.

O escritor, na visão de Susan, deveria ser uma pessoa interessada em "tudo". Essa largueza de interesses permite que ela discorra, ao longo do livro, sobre alguns dos mais ilustres representantes de seu cânone artístico. Dele fazem parte escritores como Glenway Wescott, Elizabeth Hardwick e Machado de Assis (o prefácio que preparou para uma tradução inglesa de Memórias Póstumas de Brás Cubas merecia uma repercussão menos provinciana do que teve no Brasil), a coreógrafa Lucinda Childs (cujo espetáculo Available Light ganha um ensaio original, montado em verbetes) e a fotógrafa Annie Leibovitz (que foi amante de Susan durante anos). Também está incluído o pensador francês Roland Barthes, um de seus modelos intelectuais. Em certa medida, contudo, a amplitude de temas prejudicou a seleção dos textos. Embora possam ter funcionado nas publicações em que apareceram pela primeira vez, alguns deles não têm fôlego para figurar num livro. Escrevendo a respeito de Dom Quixote, Susan, uma inimiga dos clichês, acaba caindo neles, com a afirmação de que a obra de Cervantes é "um livro inesgotável". Alguém poderia argumentar que o trabalho, de página e meia, não se prestava a grandes vôos: saiu em um catálogo do Departamento Nacional de Turismo da Espanha. Está certo. Mas por que colocá-lo em Questão de Enfase?

O engajamento está representado na coletânea principalmente pelo excelente texto em que Susan narra sua experiência em Sarajevo, em 1993 – ela dirigiu uma montagem de Esperando Godot, de Samuel Beckett, em plena guerra civil na Bósnia. A autora criticou com o mesmo ímpeto o governo de George W. Bush e o apoio que escritores como Gabriel García Márquez prestam à ditadura de Fidel Castro. Às vezes, a militância sem trégua resultava em armadilhas para as alardeadas convicções de Susan. Ela chegou ao ponto de destacar a suposta coragem dos terroristas que derrubaram o World Trade Center, numa posição contraditória para alguém que se solidarizava com as vítimas da violência de qualquer natureza – de mulheres espancadas pelo marido a mutilados em conflitos étnicos. O engajamento muitas vezes espalhafatoso de Susan competia com o rigor de sua crítica cultural em grau maior do que seria desejável, ainda que ambos andassem lado a lado em sua obra. É uma questão em aberto saber qual a faceta que, com o tempo, prevalecerá em seu legado.

 

Teatro de guerra

"Eu não tinha a ilusão de que ir a Sarajevo dirigir uma peça faria de mim uma pessoa útil, da maneira como eu poderia ser útil se fosse médica ou engenheira hidráulica. Seria uma contribuição pequena. Mas era a única das três coisas que faço – escrever, fazer filmes, dirigir peças de teatro – que poderia produzir algo que só existiria em Sarajevo, algo que seria feito e consumido lá mesmo. E o espírito de bravata me sugeriu num instante algo que eu talvez não imaginaria, caso refletisse por mais tempo: havia uma peça óbvia para eu dirigir. Esperando Godot, de Beckett, parece ter sido escrita para Sarajevo e sobre Sarajevo."

Trecho de Esperando Godot em Sarajevo

 

 
 
 
 
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