Edição 1897 . 23 de março de 2005

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Celebridade
Paulo Coelho
no topo do mundo

Seu novo romance, O Zahir, é o primeiro
livro em língua portuguesa a ter lançamento
mundial. O escritor, que aos 57 anos se
tornou o mais globalizado dos brasileiros,
fala na obra de um universo a que ele agora
pertence: o das celebridades internacionais


João Gabriel de Lima e Antonio Ribeiro, de Paris

 
Fotos Antonio Ribeiro
UMA CASA NA MONTANHA
O autor com os montes gelados dos Pireneus franceses ao fundo: refúgio para pensar nos romances

Paulo Coelho tornou-se o brasileiro mais conhecido, mais lido e mais influente do mundo. Um pop star planetário. É o único artista do Brasil com trânsito livre entre celebridades, políticos, empresários e cabeças coroadas dos cinco continentes. Seu novo romance, O Zahir, será a primeira obra em língua portuguesa a ter lançamento mundial, a partir da semana que vem. Entre abril e novembro deste ano, o livro será publicado em 42 idiomas, totalizando 83 países. No Brasil, chega às livrarias nesta segunda-feira, 21. Paulo Coelho, aos 57 anos, já vendeu 65 milhões de livros em 150 nações. Nenhum autor brasileiro, em nenhum momento da história, chegou perto dessa cifra. O segundo colocado, Jorge Amado, o escritor que mais contribuiu para a imagem externa do país, alcança a marca de 30 milhões.

Ao lado de roqueiros como Bono Vox e Peter Gabriel e atrizes como Sharon Stone e Angelina Jolie, o autor brasileiro é convidado assíduo do Fórum Econômico Mundial, em Davos. Colabora com a Anistia Internacional, para a qual acaba de escrever um texto que será incluído num livro beneficente. Recentemente, participou de uma reunião no estúdio do cantor Bono Vox, em Dublin, na Irlanda, com artistas que cooperam com a Anistia. Estava lá também o escritor e ex-presidente da República Checa Vaclav Havel. "Bono é muito simpático. Ao ficar sabendo que era o aniversário da minha agente, Mônica Antunes, cantou Parabéns para ela", conta Paulo. Há duas semanas, o primeiro capítulo de O Zahir foi publicado na coletânea New Beginnings, "novos começos" em inglês. O livro reúne trechos iniciais de obras de autores famosos, e o dinheiro arrecadado com sua vendagem será destinado às vítimas do tsunami na Ásia. Na obra, Paulo Coelho está na companhia de best-sellers como os americanos Stephen King e Scott Turow. O sul-africano J.M. Coetzee, ganhador do Prêmio Nobel, também colaborou com o livro, que vem sendo chamado de "Live Aid da literatura", em uma referência ao concerto de rock que em 1985 arrecadou fundos para combater a fome na África.

 
O AUTOR E SEUS FÃS
Paulo Coelho (escrevendo à sombra de um menir nos Pireneus) tem vários leitores famosos. Julia Roberts e Madonna são fãs de seus livros. Bill Clinton posou com um exemplar de O Alquimista, um dos favoritos da filha, Chelsea. Will Smith e Russell Crowe citaram o autor em entrevistas recentes

Paulo Coelho é interlocutor freqüente de celebridades internacionais. Madonna citou o autor numa entrevista recente à MTV. Will Smith falou de Paulo Coelho nas páginas amarelas da edição de VEJA da semana passada e no programa do entrevistador americano David Letterman. Smith gosta de usar uma frase de O Alquimista, "todo o universo está contido num grão de areia" – que, na verdade, é uma citação do poeta britânico William Blake (1757-1827). Em 1999, Bill Clinton deixou-se fotografar com um exemplar de O Alquimista debaixo do braço – o livro é um dos favoritos de sua filha, Chelsea. Paulo passa quatro meses por ano viajando pelo mundo. O resto do tempo ele divide entre seu apartamento na Avenida Atlântica, no Rio de Janeiro, onde costuma escrever seus livros, e a casa na cidadezinha de Saint Martin, aos pés dos Pireneus franceses, seu retiro.

Neste ano, numa festa em Davos, ele foi apresentado à atriz Sharon Stone. Combinaram de se encontrar a sós, num bar de hotel, dois dias depois. Na noite seguinte à festa, Paulo Coelho recebeu um e-mail da atriz: "Senti sua falta. Love, Sharon". No dia combinado, o escritor foi para o local do encontro. Depois de esperar uma hora sem que a atriz aparecesse, chamou o garçom e perguntou se ele a havia visto. A resposta: "Sharon esteve aqui ontem. Ficou bebericando à espera de alguém que não veio. Estava bastante irritada quando foi embora". A atriz de Instinto Selvagem tinha confundido as datas. Em outra ocasião, Paulo Coelho estava em Tel-Aviv para uma conferência e recebeu um recado do primeiro-ministro Shimon Peres: ele queria vê-lo. Acertaram um café-da-manhã num hotel. Peres apareceu com uma adolescente. "Minha neta me tirou dos afazeres para vir encontrá-lo", disse o premiê ao escritor. E, dirigindo-se à neta: "Não duvide mais de mim. Eu não falei que era amigo dele?".

Os livros de Paulo Coelho tocam principalmente as mulheres e os jovens – como a filha de Bill Clinton e a neta de Shimon Peres. Essa é uma marca registrada comum a seu público independentemente da cultura e do idioma em que os livros são publicados. "O que me impressiona é o número de leitores que declaram que um livro de Paulo mudou sua vida. Às vezes nem é o livro inteiro, mas uma única frase", diz Anne Carrière, primeira editora do escritor brasileiro na França. Isso é algo que Paulo Coelho tem em comum com os roqueiros: seus livros contêm máximas que grudam no ouvido tanto quanto os melhores refrões da música pop.

 

NO CENÁRIO DO ROMANCE
Parte da ação de O Zahir se passa no Casaquistão. Para escrever a obra, o autor fez uma pesquisa de campo. Chegou a participar, de águia em punho, de uma caça à raposa, uma tradição local. Paulo Coelho jura que não disparou um único tiro na ocasião

"Quando você quer uma coisa, o universo inteiro conspira a seu favor", de O Alquimista, está para Paulo Coelho assim como "Você é eternamente responsável por aquilo que cativa" está para Antoine de Saint-Exupéry, o autor de O Pequeno Príncipe – outro escritor que fazia sucesso com a alma feminina. Recentemente, Paulo Coelho participou de uma campanha publicitária da MTV americana sobre espiritualidade. A campanha foi criada para atender a uma demanda específica identificada em uma pesquisa. O levantamento mostrou que 53% dos jovens nos Estados Unidos seguem alguma religião. Num dos comerciais, o escritor aparece no Egito, tendo como fundo uma pirâmide. Ele recita uma frase de O Alquimista: "O deserto ajuda a simplificar as coisas. Como posso entender o deserto? Simplifique primeiro o seu coração". Fanático pelos Beatles na juventude, Paulo Coelho acha que máximas assim podem influenciar a vida das pessoas. "A frase mais bonita da música pop é All you need is love, 'tudo de que você precisa é amor', de Lennon e McCartney", diz ele. "Poderia ser a epígrafe de O Zahir ou de qualquer outro dos meus livros."

O Zahir, o novo romance do escritor, reflete o atual momento de fama internacional que o autor vive. O mundo das celebridades é seu assunto principal. A obra tem como protagonista um escritor que ganha fama depois de percorrer o místico Caminho de Santiago e escrever um livro sobre o assunto. Seria Paulo Coelho? O nome do autor nunca aparece, e essa é a graça do jogo: descobrir o que há de ficção e de realidade nos episódios contados. Paulo Coelho diz que O Zahir é o mais autobiográfico de seus livros. O personagem principal trafega no circuito das celebridades e reverbera muitas das opiniões do próprio escritor – que odeia falar em público, entedia-se com as perguntas repetitivas dos jornalistas e detesta jantares com literatos. Algumas das falas do personagem principal sobre esses assuntos são parecidíssimas com declarações do escritor contidas na entrevista concedida ao jornalista espanhol Juan Arias que foi publicada no livro Confissões de um Peregrino. Ou seja, o protagonista tem a mesma profissão de Paulo Coelho e fala com a voz de Paulo Coelho. O Zahir conta a história de um casal que vive um relacionamento aberto. Logo na primeira página, o marido – o escritor – é abandonado pela mulher. Ele suspeita que ela fugiu com um místico do Casaquistão. O romance é dedicado à mulher de Paulo Coelho, a artista plástica Christina Oiticica. Há algo de autobiográfico na parte que fala do relacionamento de ambos? "Esse pedaço é todo inventado. Christina e eu nunca vivemos um casamento aberto, muito pelo contrário", apressa-se em desmentir Paulo. A protagonista do livro, de nome Esther, é baseada na jornalista inglesa Christina Lamb, correspondente de guerra do jornal britânico The Sunday Times. "Ela me impressionou quando veio me entrevistar sobre Onze Minutos", conta o escritor.

 
Paulo Jares

PRESENTE E PASSADO
Paulo Coelho escreve a maioria dos livros em seu apartamento em Copacabana, com vista para o mar (acima). Nos anos 70, foi parceiro em várias canções de Raul Seixas (abaixo, à esq.) e começou o aprendizado de religiões orientais (abaixo, à dir.)

Álbum de família
Álbum de família

Os lançamentos dos livros de Paulo Coelho são cercados de particularidades. Ele não promove noites de autógrafos. Um pop star não pode se dar a esse luxo. Recentemente, numa feira de livros em Buenos Aires, cerca de 1.000 fãs enfurecidos ameaçaram quebrar o estande onde Paulo Coelho assinava seus romances no momento em que houve uma ameaça de interrupção do evento. Para atendê-los, o autor ficou com a caneta na mão das 7 da noite às 2 da manhã. Na Croácia, um fã puxou um revólver quando uma tarde de autógrafos foi interrompida. Sob a mira da arma, Paulo Coelho assinou o livro. Ele não dá autógrafos no Brasil desde 1996, quando quase provocou um colapso na Bienal do Livro de São Paulo daquele ano. "A organização do evento disse que não poderia garantir minha segurança, mas mesmo assim eu fiquei até o fim. Mas foi meio assustador", lembra. Por causa de episódios como esses, Paulo Coelho não dá mais autógrafos. Ele só faz isso em circunstâncias muito especiais: em eventos fechados ou em feiras em que os fãs são em número limitado. Ou seja, os primeiros a chegar recebem senhas.

Como todo pop star, Paulo Coelho zela por sua imagem. Peter Olsson, marqueteiro sueco especialista em gestão de marcas – que tem sob contrato, entre outros, o ex-boxeador Muhammad Ali –, chegou a oferecer seus préstimos ao escritor. Ele queria administrar globalmente a marca Paulo Coelho. Numa conversa em um hotel em Paris, o autor se aproveitou de um momento em que Olsson mostrava fotos de sua casa na Alemanha – onde havia duas Ferrari na garagem – para declinar do convite:

– Peter, não me leve a mal, só estamos nós dois aqui. Quem entre nós é o mais rico?

– Você, Paulo. Claro.

– Quantas vezes?

– Umas trinta.

– Não, Peter, muito mais do que isso.

Paulo Coelho não precisa de Peter Olsson. Poucos escritores gerenciam tão bem a própria carreira e têm tanto controle sobre ela quanto o brasileiro. Quando John Grisham ou J.K. Rowling lançam um livro mundialmente, as editoras locais têm autonomia para fazer a campanha de marketing que desejarem. Com Paulo Coelho é diferente. Os editores têm de enviar o projeto de lançamento traduzido para o inglês para sua agente, Mônica Antunes, que mora em Barcelona. É ela, em conjunto com o próprio Paulo, quem aprova ou desaprova as estratégias. Mônica trabalha com o escritor desde o início da carreira dele, e sua agência, a Sant Jordi, tem um único cliente – Paulo Coelho. O que é outro caso atípico no mundo da literatura. Em geral, os grandes best-sellers trabalham com grandes agências. Paulo Coelho faz questão de ter uma agência só para ele.

"Paulo Coelho sempre teve uma tremenda consciência de sua imagem, e as decisões que toma nessa área costumam ser acertadas", diz o publicitário Mauro Salles, que conhece o escritor há décadas. Vários amigos de Paulo contam que ele vem se esforçando para minimizar a imagem de "mago" e firmar a de "escritor". Algumas providências foram tomadas nesse sentido. Paulo, deliberadamente, passou a citar mais autores em entrevistas e a freqüentar ambientes literários. Um episódio que ilustra isso se deu no Salão do Livro de Paris, em 1998, quando o autor de O Alquimista não foi convidado para um evento em homenagem aos escritores brasileiros. No dia seguinte, o próprio Paulo seria homenageado numa festa promovida por livreiros franceses na pirâmide do Louvre. Não se fez de rogado. Mandou reservar vinte vagas no jantar de gala e convidou vinte autores brasileiros, retribuindo de forma elegante a descortesia. O episódio serviu para diminuir a resistência a seu nome no meio literário. Segundo os amigos de Paulo, o projeto de entrar para a Academia Brasileira de Letras fazia parte do pacote para emular o lado "escritor". Ele concretizou o intento em 2002.

Quando se pede a pessoas das relações de Paulo Coelho que definam a personalidade do autor, o adjetivo que mais aparece é "obsessivo". "Ele queria ser conhecido no mundo inteiro muito antes de fazer sucesso com seu primeiro livro. Empenhou-se para isso e conseguiu", diz Paulo Rocco, editor de Paulo Coelho no Brasil. Uma história ocorrida em 1994 ilustra isso. Paulo Coelho foi lançado na França graças à iniciativa da editora Anne Carrière – que decidira publicar o livro O Alquimista depois da recomendação de amigos. Após o lançamento, Anne disse a Paulo: "Pena que você não fala francês, caso contrário poderíamos fazer uma turnê pelo país". O escritor não se fez de rogado. Voltou para o Brasil e mergulhou num curso intensivo do idioma de Molière. Três meses mais tarde, estava dando conferências e entrevistas em 21 cidades francesas. O resultado desse esforço já se conhece. Paulo Coelho estourou na França. Em doze anos, vendeu quase 9 milhões de livros no país. Chegou a ter três obras simultaneamente na lista francesa dos mais vendidos – O Alquimista, O Diário de um Mago e Na Margem do Rio Piedra Eu Sentei e Chorei. De lá seu sucesso se projetou para os outros países europeus. Hoje atinge o mundo inteiro. Em quais nações Paulo Coelho tem leitores? Mônica Antunes responde: "Peguemos um globo. Comecemos com os países das Américas – todos, do Canadá à Argentina. Depois, todas as nações da Europa. As ex-repúblicas soviéticas. Todo o Oriente Médio. A África árabe. A Ásia, China, Taiwan, Japão, Coréia, Indonésia, Tailândia e Índia". Globalização é isso.

Por uma razão inusitada, o lançamento mundial de O Zahir será no Irã, no domingo 20. "O Irã é o lugar do mundo onde há mais edições piratas de Paulo Coelho. A única maneira de minimizar a pirataria é lançar o livro primeiro aqui em Teerã, assim ele passa a ser considerado um romance nacional e recebe proteção das leis locais de direito autoral", explica Arash Hejazi, dono da editora Caravan, que publica o autor brasileiro em persa. Estima-se que Paulo Coelho já tenha vendido 4 milhões de livros no Irã, dos quais metade em edições piratas. Para se ter uma medida de comparação, Gabriel García Márquez, ao longo de trinta anos, vendeu 2,5 milhões de livros no país. O Zahir terá anúncios publicitários nas redes CNN e BBC, que atingem o mundo inteiro. A partir de 26 de maio, dois spots de quinze e trinta segundos serão mostrados cinco vezes por dia durante uma semana. "Achamos que este livro tem um apelo diferente, e pode ser o maior sucesso da carreira de Paulo Coelho", aposta Elisabetta Sgarbi, da editora Bompiani, que publica o autor na Itália. Ela resume as expectativas dos que lançam as obras de Paulo Coelho em diversos países. O sonho do autor era criar um evento e lançar O Zahir durante uma viagem de trem pela Ferrovia Transiberiana. Não conseguiu viabilizar o projeto. Não ficou frustrado, no entanto. "Fazer essa viagem faz parte da minha lenda pessoal, por isso um dia pretendo reunir amigos e alugar um trem", diz ele. "Não custa tão caro assim, apenas 250.000 dólares." Quando você tem um projeto, o universo inteiro conspira para que ele se realize. Ajuda muito, porém, se você se chama Paulo Coelho.

 

Paulo Coelho em números

• O autor brasileiro já vendeu 65 milhões de livros

• Existem obras suas em 56 idiomas

• Ele já foi publicado em 150 países

• A fortuna pessoal do escritor é estimada em 120 milhões de reais

• Ele fatura em torno de 40 milhões de reais a cada ano em que lança um novo livro

 
 
 
 
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