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Celebridade Paulo
Coelho no topo do mundo Seu novo romance, O Zahir,
é o primeiro livro em língua portuguesa a ter lançamento
mundial. O escritor, que aos 57 anos se tornou o mais globalizado dos brasileiros,
fala na obra de um universo a que ele agora pertence: o das celebridades internacionais
 João
Gabriel de Lima e Antonio Ribeiro, de Paris Fotos
Antonio Ribeiro
 | UMA
CASA NA MONTANHA O autor com os montes gelados
dos Pireneus franceses ao fundo: refúgio para pensar nos romances |
Paulo
Coelho tornou-se o brasileiro mais conhecido, mais lido e mais influente do mundo.
Um pop star planetário. É o único artista do Brasil com trânsito
livre entre celebridades, políticos, empresários e cabeças
coroadas dos cinco continentes. Seu novo romance, O Zahir, será
a primeira obra em língua portuguesa a ter lançamento mundial, a
partir da semana que vem. Entre abril e novembro deste ano, o livro será
publicado em 42 idiomas, totalizando 83 países. No Brasil, chega às
livrarias nesta segunda-feira, 21. Paulo Coelho, aos 57 anos, já vendeu
65 milhões de livros em 150 nações. Nenhum autor brasileiro,
em nenhum momento da história, chegou perto dessa cifra. O segundo colocado,
Jorge Amado, o escritor que mais contribuiu para a imagem externa do país,
alcança a marca de 30 milhões. Ao
lado de roqueiros como Bono Vox e Peter Gabriel e atrizes como Sharon Stone e
Angelina Jolie, o autor brasileiro é convidado assíduo do Fórum
Econômico Mundial, em Davos. Colabora com a Anistia Internacional, para
a qual acaba de escrever um texto que será incluído num livro beneficente.
Recentemente, participou de uma reunião no estúdio do cantor Bono
Vox, em Dublin, na Irlanda, com artistas que cooperam com a Anistia. Estava lá
também o escritor e ex-presidente da República Checa Vaclav Havel.
"Bono é muito simpático. Ao ficar sabendo que era o aniversário
da minha agente, Mônica Antunes, cantou Parabéns para ela",
conta Paulo. Há duas semanas, o primeiro capítulo de O Zahir
foi publicado na coletânea New Beginnings, "novos começos"
em inglês. O livro reúne trechos iniciais de obras de autores famosos,
e o dinheiro arrecadado com sua vendagem será destinado às vítimas
do tsunami na Ásia. Na obra, Paulo Coelho está na companhia de best-sellers
como os americanos Stephen King e Scott Turow. O sul-africano J.M. Coetzee, ganhador
do Prêmio Nobel, também colaborou com o livro, que vem sendo chamado
de "Live Aid da literatura", em uma referência ao concerto de rock que em
1985 arrecadou fundos para combater a fome na África.  | O
AUTOR E SEUS FÃS Paulo Coelho (escrevendo à sombra
de um menir nos Pireneus) tem vários leitores famosos. Julia Roberts e Madonna
são fãs de seus livros. Bill Clinton posou com um exemplar de O Alquimista,
um dos favoritos da filha, Chelsea. Will Smith e Russell Crowe citaram o autor
em entrevistas recentes |
Paulo
Coelho é interlocutor freqüente de celebridades internacionais. Madonna
citou o autor numa entrevista recente à MTV. Will Smith falou de Paulo
Coelho nas páginas amarelas da edição de VEJA da semana passada
e no programa do entrevistador americano David Letterman. Smith gosta de usar
uma frase de O Alquimista, "todo o universo está contido num grão
de areia" que, na verdade, é uma citação do poeta
britânico William Blake (1757-1827). Em 1999, Bill Clinton deixou-se fotografar
com um exemplar de O Alquimista debaixo do braço o livro
é um dos favoritos de sua filha, Chelsea. Paulo passa quatro meses por
ano viajando pelo mundo. O resto do tempo ele divide entre seu apartamento na
Avenida Atlântica, no Rio de Janeiro, onde costuma escrever seus livros,
e a casa na cidadezinha de Saint Martin, aos pés dos Pireneus franceses,
seu retiro. Neste ano, numa festa em Davos, ele
foi apresentado à atriz Sharon Stone. Combinaram de se encontrar a sós,
num bar de hotel, dois dias depois. Na noite seguinte à festa, Paulo Coelho
recebeu um e-mail da atriz: "Senti sua falta. Love, Sharon". No dia combinado,
o escritor foi para o local do encontro. Depois de esperar uma hora sem que a
atriz aparecesse, chamou o garçom e perguntou se ele a havia visto. A resposta:
"Sharon esteve aqui ontem. Ficou bebericando à espera de alguém
que não veio. Estava bastante irritada quando foi embora". A atriz de Instinto
Selvagem tinha confundido as datas. Em outra ocasião, Paulo Coelho
estava em Tel-Aviv para uma conferência e recebeu um recado do primeiro-ministro
Shimon Peres: ele queria vê-lo. Acertaram um café-da-manhã
num hotel. Peres apareceu com uma adolescente. "Minha neta me tirou dos afazeres
para vir encontrá-lo", disse o premiê ao escritor. E, dirigindo-se
à neta: "Não duvide mais de mim. Eu não falei que era amigo
dele?". Os livros de Paulo Coelho tocam principalmente
as mulheres e os jovens como a filha de Bill Clinton e a neta de Shimon
Peres. Essa é uma marca registrada comum a seu público independentemente
da cultura e do idioma em que os livros são publicados. "O que me impressiona
é o número de leitores que declaram que um livro de Paulo mudou
sua vida. Às vezes nem é o livro inteiro, mas uma única frase",
diz Anne Carrière, primeira editora do escritor brasileiro na França.
Isso é algo que Paulo Coelho tem em comum com os roqueiros: seus livros
contêm máximas que grudam no ouvido tanto quanto os melhores refrões
da música pop.  | NO
CENÁRIO DO ROMANCE Parte
da ação de O Zahir se passa no Casaquistão. Para escrever
a obra, o autor fez uma pesquisa de campo. Chegou a participar, de águia
em punho, de uma caça à raposa, uma tradição local.
Paulo Coelho jura que não disparou um único tiro na ocasião
|
"Quando você quer uma coisa,
o universo inteiro conspira a seu favor", de O Alquimista, está
para Paulo Coelho assim como "Você é eternamente responsável
por aquilo que cativa" está para Antoine de Saint-Exupéry, o autor
de O Pequeno Príncipe outro escritor que fazia sucesso com
a alma feminina. Recentemente, Paulo Coelho participou de uma campanha publicitária
da MTV americana sobre espiritualidade. A campanha foi criada para atender a uma
demanda específica identificada em uma pesquisa. O levantamento mostrou
que 53% dos jovens nos Estados Unidos seguem alguma religião. Num dos comerciais,
o escritor aparece no Egito, tendo como fundo uma pirâmide. Ele recita uma
frase de O Alquimista: "O deserto ajuda a simplificar as coisas. Como posso
entender o deserto? Simplifique primeiro o seu coração". Fanático
pelos Beatles na juventude, Paulo Coelho acha que máximas assim podem influenciar
a vida das pessoas. "A frase mais bonita da música pop é All
you need is love, 'tudo de que você precisa é amor', de Lennon
e McCartney", diz ele. "Poderia ser a epígrafe de O Zahir ou de
qualquer outro dos meus livros." O Zahir,
o novo romance do escritor, reflete o atual momento de fama internacional que
o autor vive. O mundo das celebridades é seu assunto principal. A obra
tem como protagonista um escritor que ganha fama depois de percorrer o místico
Caminho de Santiago e escrever um livro sobre o assunto. Seria Paulo Coelho? O
nome do autor nunca aparece, e essa é a graça do jogo: descobrir
o que há de ficção e de realidade nos episódios contados.
Paulo Coelho diz que O Zahir é o mais autobiográfico de seus
livros. O personagem principal trafega no circuito das celebridades e reverbera
muitas das opiniões do próprio escritor que odeia falar em
público, entedia-se com as perguntas repetitivas dos jornalistas e detesta
jantares com literatos. Algumas das falas do personagem principal sobre esses
assuntos são parecidíssimas com declarações do escritor
contidas na entrevista concedida ao jornalista espanhol Juan Arias que foi publicada
no livro Confissões de um Peregrino. Ou seja, o protagonista tem
a mesma profissão de Paulo Coelho e fala com a voz de Paulo Coelho. O
Zahir conta a história de um casal que vive um relacionamento aberto.
Logo na primeira página, o marido o escritor é abandonado
pela mulher. Ele suspeita que ela fugiu com um místico do Casaquistão.
O romance é dedicado à mulher de Paulo Coelho, a artista plástica
Christina Oiticica. Há algo de autobiográfico na parte que fala
do relacionamento de ambos? "Esse pedaço é todo inventado. Christina
e eu nunca vivemos um casamento aberto, muito pelo contrário", apressa-se
em desmentir Paulo. A protagonista do livro, de nome Esther, é baseada
na jornalista inglesa Christina Lamb, correspondente de guerra do jornal britânico
The Sunday Times. "Ela me impressionou quando veio me entrevistar sobre
Onze Minutos", conta o escritor.
Os lançamentos dos livros de Paulo Coelho são cercados de particularidades.
Ele não promove noites de autógrafos. Um pop star não pode
se dar a esse luxo. Recentemente, numa feira de livros em Buenos Aires, cerca
de 1.000 fãs enfurecidos ameaçaram quebrar o estande onde Paulo
Coelho assinava seus romances no momento em que houve uma ameaça de interrupção
do evento. Para atendê-los, o autor ficou com a caneta na mão das
7 da noite às 2 da manhã. Na Croácia, um fã puxou
um revólver quando uma tarde de autógrafos foi interrompida. Sob
a mira da arma, Paulo Coelho assinou o livro. Ele não dá autógrafos
no Brasil desde 1996, quando quase provocou um colapso na Bienal do Livro de São
Paulo daquele ano. "A organização do evento disse que não
poderia garantir minha segurança, mas mesmo assim eu fiquei até
o fim. Mas foi meio assustador", lembra. Por causa de episódios como esses,
Paulo Coelho não dá mais autógrafos. Ele só faz isso
em circunstâncias muito especiais: em eventos fechados ou em feiras em que
os fãs são em número limitado. Ou seja, os primeiros a chegar
recebem senhas. Como todo pop star, Paulo Coelho
zela por sua imagem. Peter Olsson, marqueteiro sueco especialista em gestão
de marcas que tem sob contrato, entre outros, o ex-boxeador Muhammad Ali
, chegou a oferecer seus préstimos ao escritor. Ele queria administrar
globalmente a marca Paulo Coelho. Numa conversa em um hotel em Paris, o autor
se aproveitou de um momento em que Olsson mostrava fotos de sua casa na Alemanha
onde havia duas Ferrari na garagem para declinar do convite:
Peter, não me leve a mal, só estamos
nós dois aqui. Quem entre nós é o mais rico?
Você, Paulo. Claro. Quantas vezes?
Umas trinta.
Não, Peter, muito mais do que isso. Paulo
Coelho não precisa de Peter Olsson. Poucos escritores gerenciam tão
bem a própria carreira e têm tanto controle sobre ela quanto o brasileiro.
Quando John Grisham ou J.K. Rowling lançam um livro mundialmente, as editoras
locais têm autonomia para fazer a campanha de marketing que desejarem. Com
Paulo Coelho é diferente. Os editores têm de enviar o projeto de
lançamento traduzido para o inglês para sua agente, Mônica
Antunes, que mora em Barcelona. É ela, em conjunto com o próprio
Paulo, quem aprova ou desaprova as estratégias. Mônica trabalha com
o escritor desde o início da carreira dele, e sua agência, a Sant
Jordi, tem um único cliente Paulo Coelho. O que é outro caso
atípico no mundo da literatura. Em geral, os grandes best-sellers trabalham
com grandes agências. Paulo Coelho faz questão de ter uma agência
só para ele. "Paulo Coelho sempre teve uma
tremenda consciência de sua imagem, e as decisões que toma nessa
área costumam ser acertadas", diz o publicitário Mauro Salles, que
conhece o escritor há décadas. Vários amigos de Paulo contam
que ele vem se esforçando para minimizar a imagem de "mago" e firmar a
de "escritor". Algumas providências foram tomadas nesse sentido. Paulo,
deliberadamente, passou a citar mais autores em entrevistas e a freqüentar
ambientes literários. Um episódio que ilustra isso se deu no Salão
do Livro de Paris, em 1998, quando o autor de O Alquimista não foi
convidado para um evento em homenagem aos escritores brasileiros. No dia seguinte,
o próprio Paulo seria homenageado numa festa promovida por livreiros franceses
na pirâmide do Louvre. Não se fez de rogado. Mandou reservar vinte
vagas no jantar de gala e convidou vinte autores brasileiros, retribuindo de forma
elegante a descortesia. O episódio serviu para diminuir a resistência
a seu nome no meio literário. Segundo os amigos de Paulo, o projeto de
entrar para a Academia Brasileira de Letras fazia parte do pacote para emular
o lado "escritor". Ele concretizou o intento em 2002.
Quando se pede a pessoas das relações de Paulo Coelho que definam
a personalidade do autor, o adjetivo que mais aparece é "obsessivo". "Ele
queria ser conhecido no mundo inteiro muito antes de fazer sucesso com seu primeiro
livro. Empenhou-se para isso e conseguiu", diz Paulo Rocco, editor de Paulo Coelho
no Brasil. Uma história ocorrida em 1994 ilustra isso. Paulo Coelho foi
lançado na França graças à iniciativa da editora Anne
Carrière que decidira publicar o livro O Alquimista depois
da recomendação de amigos. Após o lançamento, Anne
disse a Paulo: "Pena que você não fala francês, caso contrário
poderíamos fazer uma turnê pelo país". O escritor não
se fez de rogado. Voltou para o Brasil e mergulhou num curso intensivo do idioma
de Molière. Três meses mais tarde, estava dando conferências
e entrevistas em 21 cidades francesas. O resultado desse esforço já
se conhece. Paulo Coelho estourou na França. Em doze anos, vendeu quase
9 milhões de livros no país. Chegou a ter três obras simultaneamente
na lista francesa dos mais vendidos O Alquimista, O Diário de
um Mago e Na Margem do Rio Piedra Eu Sentei e Chorei. De lá
seu sucesso se projetou para os outros países europeus. Hoje atinge o mundo
inteiro. Em quais nações Paulo Coelho tem leitores? Mônica
Antunes responde: "Peguemos um globo. Comecemos com os países das Américas
todos, do Canadá à Argentina. Depois, todas as nações
da Europa. As ex-repúblicas soviéticas. Todo o Oriente Médio.
A África árabe. A Ásia, China, Taiwan, Japão, Coréia,
Indonésia, Tailândia e Índia". Globalização
é isso. Por uma razão inusitada,
o lançamento mundial de O Zahir será no Irã, no domingo
20. "O Irã é o lugar do mundo onde há mais edições
piratas de Paulo Coelho. A única maneira de minimizar a pirataria é
lançar o livro primeiro aqui em Teerã, assim ele passa a ser considerado
um romance nacional e recebe proteção das leis locais de direito
autoral", explica Arash Hejazi, dono da editora Caravan, que publica o autor brasileiro
em persa. Estima-se que Paulo Coelho já tenha vendido 4 milhões
de livros no Irã, dos quais metade em edições piratas. Para
se ter uma medida de comparação, Gabriel García Márquez,
ao longo de trinta anos, vendeu 2,5 milhões de livros no país. O
Zahir terá anúncios publicitários nas redes CNN e BBC,
que atingem o mundo inteiro. A partir de 26 de maio, dois spots de quinze e trinta
segundos serão mostrados cinco vezes por dia durante uma semana. "Achamos
que este livro tem um apelo diferente, e pode ser o maior sucesso da carreira
de Paulo Coelho", aposta Elisabetta Sgarbi, da editora Bompiani, que publica o
autor na Itália. Ela resume as expectativas dos que lançam as obras
de Paulo Coelho em diversos países. O sonho do autor era criar um evento
e lançar O Zahir durante uma viagem de trem pela Ferrovia Transiberiana.
Não conseguiu viabilizar o projeto. Não ficou frustrado, no entanto.
"Fazer essa viagem faz parte da minha lenda pessoal, por isso um dia pretendo
reunir amigos e alugar um trem", diz ele. "Não custa tão caro assim,
apenas 250.000 dólares." Quando você tem um projeto, o universo inteiro
conspira para que ele se realize. Ajuda muito, porém, se você se
chama Paulo Coelho.
Paulo Coelho em números •
O autor brasileiro já vendeu 65 milhões de livros •
Existem obras suas em 56 idiomas • Ele
já foi publicado em 150 países • A fortuna
pessoal do escritor é estimada em 120 milhões de reais •
Ele fatura em torno de 40 milhões de reais a cada ano em que lança um novo
livro | | |