|
|
Economia e negócios Um
guerreiro no Bird O governo americano indica
Wolfowitz, ideólogo da invasão do Iraque, para chefiar o
Banco Mundial
William
Philpot/Reuters
 | | Paul
Wolfowitz: crença no destino americano de espalhar democracia |
Um
pedido cada vez mais freqüente de altos funcionários da ONU e de chefes
de governo europeus ao presidente americano, George W. Bush, é o de que
ele se comprometa mais com a guerra contra a pobreza no mundo. Entre os que tocaram
no assunto, recentemente, estão o presidente da União Européia,
Jean-Claude Juncker, e o primeiro-ministro inglês, Tony Blair. O que essas
autoridades talvez não esperavam é que Bush concluísse que,
para lutar contra a pobreza, deveria nomear para o Banco Mundial um entusiasta
em guerras, mas de outro tipo. Na semana passada, Bush indicou Paul Wolfowitz,
seu subsecretário de Defesa, para a presidência da instituição
cuja missão é combater a miséria e fomentar o desenvolvimento
em países pobres. Wolfowitz foi um dos ideólogos da invasão
do Iraque em 2003 e faz parte da ala neoconservadora do governo americano. Em
política externa, isso significa a convicção de que o poder
dos Estados Unidos deve ser usado para espalhar a democracia a outros países.
A questão é saber se Wolfowitz, que não é economista
nem tem experiência em desenvolvimento, aplicaria essa visão de mundo
à chefia do Banco Mundial, e como.
Para
os europeus que se opuseram à guerra no Iraque, a indicação
de Wolfowitz é um tapa diplomático, equivalente à nomeação
de John Bolton, um crítico da ONU, como embaixador na organização,
há duas semanas. Os conselheiros europeus do Banco Mundial podem dar o
troco recusando a nomeação de Wolfowitz. Por tradição,
os europeus indicam o presidente do Fundo Monetário Internacional e os
americanos, o do Banco Mundial. Os Estados Unidos já vetaram uma indicação
européia para o FMI. O contrário nunca aconteceu. "A chance de que
isso venha a ocorrer pela primeira vez é muito pequena", diz o cientista
político Ricardo Seitenfus, especialista em organizações
internacionais da Universidade Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. "Os
europeus podem até interpretar a escolha de Wolfowitz como um indício
de que Bush aceita a idéia de que a luta contra o terrorismo está
vinculada ao combate à pobreza." O Banco Mundial dispõe de 20 bilhões
de dólares por ano para investir em projetos em países pobres. Só
no Brasil, o banco tem 6,2 bilhões de dólares aplicados em 51 projetos,
que incluem a construção de metrô em São Paulo e de
escolas no Nordeste. O presidente do Banco Mundial tem o poder de dar um rumo
novo às prioridades desses investimentos. O presidente atual, James Wolfensohn,
diminuiu os investimentos em megaprojetos de infra-estrutura e passou a valorizar
soluções práticas para a vida dos pobres. Um dos objetivos
foi se desvincular da imagem de que o banco serve de instrumento da política
externa americana. Esse estigma existe porque, no período da Guerra Fria,
era comum os fundos serem usados em obras gigantescas em regimes favoráveis
aos Estados Unidos. Algumas teses de Wolfowitz, como a de que o avanço
da hegemonia regional da China deve ser freado, são pouco compatíveis
com os objetivos do banco. Como presidente da instituição, ele terá
de defrontar com o fato de que o país comunista uma ameaça,
segundo ele é o maior beneficiário dos investimentos do Banco
Mundial. Aí reside o paradoxo de um teórico da guerra à frente
do combate à pobreza. |