Edição 1897 . 23 de março de 2005

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Economia e negócios
Um guerreiro no Bird 

O governo americano indica Wolfowitz,
ideólogo da invasão do Iraque, para
chefiar o Banco Mundial


William Philpot/Reuters
Paul Wolfowitz: crença no destino americano de espalhar democracia


Um pedido cada vez mais freqüente de altos funcionários da ONU e de chefes de governo europeus ao presidente americano, George W. Bush, é o de que ele se comprometa mais com a guerra contra a pobreza no mundo. Entre os que tocaram no assunto, recentemente, estão o presidente da União Européia, Jean-Claude Juncker, e o primeiro-ministro inglês, Tony Blair. O que essas autoridades talvez não esperavam é que Bush concluísse que, para lutar contra a pobreza, deveria nomear para o Banco Mundial um entusiasta em guerras, mas de outro tipo. Na semana passada, Bush indicou Paul Wolfowitz, seu subsecretário de Defesa, para a presidência da instituição cuja missão é combater a miséria e fomentar o desenvolvimento em países pobres. Wolfowitz foi um dos ideólogos da invasão do Iraque em 2003 e faz parte da ala neoconservadora do governo americano. Em política externa, isso significa a convicção de que o poder dos Estados Unidos deve ser usado para espalhar a democracia a outros países. A questão é saber se Wolfowitz, que não é economista nem tem experiência em desenvolvimento, aplicaria essa visão de mundo à chefia do Banco Mundial, e como.

Para os europeus que se opuseram à guerra no Iraque, a indicação de Wolfowitz é um tapa diplomático, equivalente à nomeação de John Bolton, um crítico da ONU, como embaixador na organização, há duas semanas. Os conselheiros europeus do Banco Mundial podem dar o troco recusando a nomeação de Wolfowitz. Por tradição, os europeus indicam o presidente do Fundo Monetário Internacional e os americanos, o do Banco Mundial. Os Estados Unidos já vetaram uma indicação européia para o FMI. O contrário nunca aconteceu. "A chance de que isso venha a ocorrer pela primeira vez é muito pequena", diz o cientista político Ricardo Seitenfus, especialista em organizações internacionais da Universidade Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. "Os europeus podem até interpretar a escolha de Wolfowitz como um indício de que Bush aceita a idéia de que a luta contra o terrorismo está vinculada ao combate à pobreza." O Banco Mundial dispõe de 20 bilhões de dólares por ano para investir em projetos em países pobres. Só no Brasil, o banco tem 6,2 bilhões de dólares aplicados em 51 projetos, que incluem a construção de metrô em São Paulo e de escolas no Nordeste. O presidente do Banco Mundial tem o poder de dar um rumo novo às prioridades desses investimentos. O presidente atual, James Wolfensohn, diminuiu os investimentos em megaprojetos de infra-estrutura e passou a valorizar soluções práticas para a vida dos pobres. Um dos objetivos foi se desvincular da imagem de que o banco serve de instrumento da política externa americana. Esse estigma existe porque, no período da Guerra Fria, era comum os fundos serem usados em obras gigantescas em regimes favoráveis aos Estados Unidos. Algumas teses de Wolfowitz, como a de que o avanço da hegemonia regional da China deve ser freado, são pouco compatíveis com os objetivos do banco. Como presidente da instituição, ele terá de defrontar com o fato de que o país comunista – uma ameaça, segundo ele – é o maior beneficiário dos investimentos do Banco Mundial. Aí reside o paradoxo de um teórico da guerra à frente do combate à pobreza.

 
 
 
 
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