Edição 1897 . 23 de março de 2005

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Economia e Negócios
1 bilhão de reais em dois anos

Chovem investimentos no ensolarado
litoral baiano, que não pára de ganhar
novos complexos turísticos


Sandra Brasil

 
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O Club Med Trancoso (acima) e o Breezes de Sauípe (abaixo, à esq.): em breve, concorrência de recém-chegados como o Convento do Carmo, com capelas do século XVI
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Inácio Teixeira



NESTA REPORTAGEM
Quadro: Canteiro de hotéis

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Sol o ano inteiro, coqueiros, areia branquinha, mar azul – não espanta que os 950 quilômetros de litoral na Bahia, parte deles quase inexplorada, venham à mente quando se trata de investimentos turísticos no país. O que impressiona neste momento, isso sim, é a quantidade: hotéis, pousadas e resorts pipocam por todas as seis "costas" (a dos Coqueiros, a da Baía de Todos os Santos, a do Cacau, a do Dendê, a do Descobrimento e a das Baleias) em que a orla baiana se divide. Muitos são locais pequenos, simples e sem luxos; outros buscam hóspedes com muito dinheiro, oferecendo em troca campos de golfe de padrão internacional, estrutura para pesca e esportes náuticos, spas bem equipados, bons restaurantes, acomodações confortáveis e serviço de qualidade. Até o fim de 2007, nove empreendimentos, compreendendo 2.500 apartamentos (com outros 960 previstos para os anos seguintes), estarão prontos a receber hóspedes dispostos a pagar diárias de no mínimo 600 reais – um investimento de mais de 1,1 bilhão de reais. Deste, quase 680 milhões de reais respondem por um único conjunto hoteleiro, o Iberostar, do grupo espanhol do mesmo nome. Outros 440 milhões brotam da onda de redescobrimento do Brasil: cinco grupos portugueses estão bancando outros tantos resorts no litoral baiano, empurrados pelo encanto dos lusitanos pela Bahia – é o terceiro maior contingente de turistas, atrás apenas de italianos e americanos.

Quatro dos novos resorts de alto padrão vão se instalar ao longo da Costa dos Coqueiros, quase 200 quilômetros de praias no litoral norte da Bahia onde já se aloja um empreendimento gigante: a Costa do Sauípe, conjunto de cinco hotéis e seis pousadas com oferta de 1.500 apartamentos, mais campo de golfe, esportes náuticos, lojas e restaurantes. Com 2 quilômetros de praia, o maior projeto em andamento é o monumental Iberostar Praia do Forte, segunda investida do grupo espanhol no Brasil (a outra é um navio-hotel que começa a percorrer o Amazonas em abril). Quando estiverem prontos seus quatro hotéis na Bahia, o Iberostar terá 100 quartos a mais que Sauípe. Faz parte ainda do projeto de 250 milhões de dólares um condomínio de 208 casas com infra-estrutura e serviços de hotelaria e um campo de golfe com 27 buracos (nove a mais que o padrão, para que os hóspedes não se privem do esporte quando o resort estiver sediando torneios). O primeiro hotel, com 400 apartamentos, deverá ser inaugurado no fim deste ano, e os demais nos três anos seguintes. "A beleza das praias e a cultura da região fazem com que cada vez mais pessoas de outros países se interessem por conhecê-la", diz o espanhol Esteban La Cruz Percy, diretor de projetos da empresa no Brasil.

O Iberostar fica na Praia do Forte, a 3 quilômetros do mais antigo hotel do gênero da região, o Praia do Forte Eco Resort, com 250 apartamentos de frente para o mar (diária média de 600 reais por casal, com café e jantar incluídos). Quando foi inaugurado, na década de 80, o acesso era de balsa. Depois veio a Estrada do Coco e, em 1993, a Linha Verde, que começa perto do hotel, vai até a divisa com Sergipe e efetivamente povoou de turistas a Costa dos Coqueiros. Para encarar a concorrência, o Praia do Forte está investindo 6 milhões de reais em ampliação e modernização de instalações. Entre as melhorias previstas estão um spa de 3.000 metros quadrados, que deve estar pronto no segundo semestre, e cinqüenta novos apartamentos. "Agora temos de criar demanda para tanta oferta de hotéis", preocupa-se Alberto Jacques, diretor operacional do empreendimento.

Na mesma Costa dos Coqueiros, o canteiro de obras turísticas mais movimentado da Bahia, o grupo português Reta Atlântico está investindo 220 milhões de reais na construção dos três hotéis e 184 casas da Reserva Imbassaí. O primeiro, de bandeira Starfish (600 reais a diária do casal, administrada pelo grupo SuperClubs, pioneiro do sistema em que o preço da diária inclui tudo), será inaugurado no começo de 2007. Além do Iberostar e da Reserva Imbassaí, a região terá mais dois novos hotéis de alto padrão, um ainda neste ano e outro no ano que vem, ambos em Guarajuba, no município de Camaçari: o Vila Galé Marés (diária: 700 reais por pessoa, café e jantar incluídos), do grupo português de mesmo nome, e o Hotel Tivoli (diária: 700 reais o casal, café-da-manhã e almoço incluídos), do concorrente Espírito Santo.

Em Salvador, outro grupo português, o Pestana, já dono de seis hotéis no Brasil, está restaurando o histórico Convento do Carmo, prédio do século XVI que já foi hotel, estava desativado e será reinaugurado em setembro sob a bandeira Pousadas de Portugal – as outras 44, todas em território lusitano, estão instaladas em antigos castelos, palácios e conventos. Ao lado da pousada de oitenta apartamentos (diária de 1.000 reais por casal, com café-da-manhã), o Pestana pretende instalar um museu com 1.500 peças barrocas encontradas no antigo convento. Uma parte das peças originais está sendo usada na decoração do hotel, que tem duas capelas com afrescos e azulejos portugueses em alguns apartamentos. O mais sofisticado entre todos os novos resorts baianos é o Warapuru, mais um projeto português, inspirado nos paraísos turísticos da Indonésia e da Tailândia pré-tsunami. De padrão seis estrelas, fica na Costa do Cacau – a região próxima a Ilhéus imortalizada nos livros de Jorge Amado e descoberta há pouco pelo turismo, por meio dos resorts Itacaré Eco Resort e Txai. "Nosso objetivo é mimar o cliente, oferecendo, entre outras coisas, sete empregados por hóspede e uma arquitetura diferente", diz o empresário João Vaz Guedes, 38 anos, que com três sócios e apoio da construtora da família, a Somague, vai investir 80 milhões de reais no negócio. O Warapuru terá quarenta bangalôs com piscina privativa incrustrados na Mata Atlântica e mais dezoito casas, com serviço de hotelaria e mordomo exclusivo – todas já vendidas, a preços que variam entre 750.000 e 1,2 milhão de dólares, mas que poderão ser ocupadas por hóspedes do hotel na ausência dos proprietários. No auge da ocupação, hospedará 150 pessoas, a diárias médias de 500 dólares (cerca de 1 350 reais).

Para o sul da Costa do Cacau está sendo projetado o Canavieiras Resort (diária: 600 reais por casal, com as três refeições incluídas), outro complexo administrado pelo grupo SuperClubs, com 250 apartamentos e estrutura para esportes náuticos e pesca esportiva. A Costa do Descobrimento, por sua vez, a mais voltada para o turismo de massa com a proliferação de pousadas em Trancoso e Porto Seguro, vai ganhar dois novos hotéis de alto padrão. Um fica ao lado do Club Med: é o Terravista Golf Hotel, com sessenta apartamentos, diária de 700 reais por casal, inauguração prevista para agosto de 2006 e localizado exatamente no meio do portentoso campo de golfe que já existe no local. Também em Trancoso será instalado o segundo resort Txai (diária de 1.200 reais, com todas as refeições incluídas), que deverá ficar pronto no fim do ano que vem. Não há projetos de alto padrão em vista para a Costa do Dendê, onde fica o luxuoso Kiaroa Beach Resort (32 apartamentos, diárias que vão de 730 a 1.370 reais por casal, com as três refeições incluídas, inaugurado em 2003), nem para a das Baleias – esta, ainda de acesso difícil e infra-estrutura precária.

A beleza, o clima, a disponibilidade e o inimitável jeitinho baiano não são os únicos motivos da invasão turística. O litoral da região virou meca dos empreendimentos do ramo primordialmente em razão da agressiva política de incentivos adotada pelo governo estadual desde 1991. "Até o fim de 2006, vamos atingir a meta de investimentos públicos de 2 bilhões de dólares (cerca de 5,3 bilhões de reais) em obras de saneamento, estradas, criação de reservas ambientais, aeroportos e divisão das zonas turísticas do Estado", enumera o secretário da Cultura e Turismo da Bahia, Paulo Gaudenzi. "A Bahia tem um trabalho fantástico, persistente e bem planejado. Começaram limpando Salvador e depois saíram em busca de pontos para desenvolvimento estratégico", elogia a empresária Chieko Aoki, presidente da Rede Blue Tree de administração hoteleira e que também se prepara para invadir a praia baiana: a partir deste mês, assume os chalés do resort Itacaré Eco Village, na Costa do Cacau, prometendo investir 5 milhões de reais em melhorias. Bem-sucedido na atração de investidores (até 2020, a capacidade hoteleira da Bahia deve saltar de 44.500 para 68.000 apartamentos), o estado – e os hotéis, claro – preocupa-se agora em conquistar hóspedes para tanto quarto. Vão ter de dar duro: inaugurado em 2000, Sauípe, o mais ambicioso projeto já implantado, só em 2004 chegou perto de 55% de ocupação, nível considerado bom. Agora, com tanto hotel para ser aberto, multiplica-se a necessidade de que uma multidão de turistas se disponha a ver o que é que a Bahia tem.

 
 
 
 
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